Não recordava o porquê da mãe tê-lo mandado para o quarto. Fizera merda, era certo. Aos 11 anos de idade é comum fazer merdas a torto e a direito. Lembra também que estava emburrado, em pé, ao lado da janela olhando para as pessoas lá fora, todas contrastando com a sua condenação. No prédio da frente, uma janela se acendeu. Não sabe porque resolveu olhar para ela. A cortina deixava uma nesga aparente da peça, que com certeza era um quarto, já que era possível ver os contornos de uma cama. Subitamente uma figura humana se joga languidamente sobre a cama. Dava pra ver pela nesga. Uma mulher. Nua. O coração de menino palpitando.
Era um corpo lindo. E no seu julgamento, aquela mulher poderia ter 18 ou 32 anos. Aos 11 anos os homens são muito imprecisos nesta espécie de julgamento. Ela, então, passou a fazer movimentos estranhos para ele. Passava a mão pelo próprio corpo, como se o corpo de outra pessoa fosse. As mão exploravam varias regiões, subindo, descendo, detendo-se, vez por outra, em um único ponto. O rosto dela, de novo no seu julgamento conturbado, parecia sentir dor que ao mesmo tempo não parecia dor. Não conseguia identificar aquela expressão. Notou o seu próprio corpo reagir àquela cena. Coisas que ele mesmo não conseguia controlar. Coisas boas misturadas a uma urgência sabe-se lá de que. O ritual da mulher, esfregando-se, girando pela cama, roçando suas pernas durou uma eternidade. E terminou em alguns espasmos. Ela se levantou e desapareceu, deixando a nesga vazia.
No outro dia, na mesma hora, ele foi para o seu quarto. Desta vez, com um binóculo, na esperança que aquele ritual fosse diário. Na verdade, ele tinha certeza que era. Nunca se perguntou o porquê daquela certeza. Ele só sentia e pronto. E a certeza se confirmou. Ela apareceu novamente. O corpo nu emoldurado pela nesga do cortina. Ele lançou mão do binóculo e assistiu a toda a cena, agora com mais detalhes. Dava pra ver a umidade da língua sendo espalhada pelos lábios dela, por onde os dedos entravam e saiam, como apertavam as protuberâncias, como reagiam as suas extremidades, cada expressão do rosto. Descobriu todos os sinais, a leveza daquela pele, suas penugens eriçadas e a simétrica linha convergente que iniciava na cintura até chegar dedos dos pés. Novamente o seu corpo respondeu.
Todos estes momentos deste passado ainda próximo passaram pela sua cabeça logo após a colega da escola, ainda arfando ao seu lado na cama, perguntou.
-Jura mesmo que é a sua primeira vez?
Ele sorriu, tímido, como quem diz sim.