Não era falta de opção. Era escolha. Uma missão, E lá era o lugar onde ela seria cumpirda. Nunca perguntem a ele como ele soube. Ele não saberia como responder de um jeito que não fosse chamado de louco. Lembra que, depois que ficou claro para ele, toda vez que alguém da família morria, um tio, avô, avó, ele exultava por dentro. Não porque não gostasse dos falecidos, mas porque sabia que isso o levaria para o velório e o enterro, sempre pela mão dos pais entristecidos. O cemitério, ao contrário de todos os seus coleguinhas de escola poderiam pensar na época, era um lugar onde melhor se sentia no mundo. Pessoas gostam de praia, de parques, de estádios de futebol, de bares. Ele, de cemitério.

 

Isso começou quando tinha 9 anos. Foi no velório da Tia Wilma. Morreu de câncer na traquéia, coitada. Mas também, era uma chaminé. Três maços por dia. Sem filtro. Estavam todos la, consternados em volta do caixão e ele viu a figura parada na porta da capela. Esfregou os olhos, como se os seus dedos fossem uma borracha que ia apagar aquela pessoa da porta. Não eram. A tia Wilma continuava la, diáfama, olhando pra ele. Um olhar triste. Não sentiu medo. Pelo contrário. Sentiu ternura. Dirigiu-se a ela, que, percebendo que ele a percebeu, apressou o passo saindo da capela. Ele a seguiu até que ela sentou em uma banco de madeira verde, embaixo de um limoeiro. Engraçado ter um limoeiro em um cemitério. “Quem será que leva os limões para casa? O coveiro?”, pensou curioso.

 

A tia olhava pra ele, que retribuíua. Direto, sem pestanejos.

 

  • Você não ta com medo, Tiaguinho?
  • Não, tia.
  • Você sabe porque você me vê?
  • Sei, não. Mas eu acho legal que eu posso ver a senhora.

 

A tia ofereceu um sorriso ao moleque. Passou a mão em seus cabelos . Ele sentiu como se fosse um sopro de brisa.

 

  • Doeu?
  • O que, meu filho.
  • Quando a senhora morreu. Doeu?
  • Não. Pelo contrário. Foi um alívio.
  • Engraçado. Não sabia mais como era a sua voz antes da doença. É bonita.
  • Eu cantava, sabe?
  • Minha mãe falou.
  • Sua mãe ficou muito braba comigo. Disse que eu desperdicei minha vida por causa do cigarro.
  • Ah, tia…
  • Eu sei, eu sei. Ela diz isso porque gosta muito de mim.
  • Ela te ama. Você é irmã dela, poxa.
  • Irmãos a gente não escolhe, sabe? Não significa muito. Não é obrigação amar irmão, pai, tia…
  • Mas eu gosto da senhora. E a mãe também.
  • Eu sei. E eu gosto muito de você também, meu filho. Tanto que estou aqui, ainda, falando com você.
  • Pois é, porque a senhora ainda não foi…bom seja la pra onde as pessoas vão quando morrem?

 

A tia sorriu.

 

  • Tem muita gente que não vai, porque tem coisa não resolvida por aqui. Nesse lugar, tem muitos.
  • Sério?
  • É só olhar.

 

O menino olha a sua volta e vê um monte de gente que já se foi. Chamou atenção uma menina, da sua idade, sentada em um túmulo. Era igual a foto da lápide. “Joana Lodeiro Paiva. Filha amada jamais te esqueceremos. 1956 – 1968.”

 

  • Nossa, tia.
  • Quando eles resolverem, daí eles vão pra esse tal lugar. Descansar.
  • Então a senhora tem uma coisa pra resolver aqui?
  • A minha é simples, muito simples.
  • O que é?
  • A meu anel de formatura. Eu adorava aquele anel. Perdi tem oito anos.
  • E como eu posso ajudar?
  • Agora eu sei onde ele está. Queria que você o pegasse e desse para a sua mãe.
  • Só isso?
  • Falei que o meu caso era simples. Vão ter outros um pouco mais complicados. Por isso, estuda psicologia quando for par a faculdade.
  • Psicologia?
  • Tem alguns que estão ainda aqui nesse mundo porque não aceitam a situação. Eles precisam de tratamento. E são poucos os que podem tratar deles. Você é um deles.

 

 

A mãe apareceu de repente. Olhoupara o filho ali sentado, sozinho. Bom, pelo menos para ela. A tia olhou pra ele, ele pra ela. Sussurrou.

 

  • Isso fica só entre a gente. Ela não ia entender.

 

Deu-lhe um beijo na face – um outro sopro de vento – e se foi. A mãe o pegou pela mão e o levou de volta para a capela, preocupada que estava, foi admoestando o filho, dizendo para não sair de vista. Tiago não prestava atenção. Virou-se para trás, e viu a menina sentada na prtópria lápide acenando pra ele. Com um sorriso.


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