Nunes, o vampiro.

Era um vampiro. Não havia dúvida alguma. Tinha todas as características de um vampiro. Detestava alho. Se saísse a luz do dia, queimaria até virar um montinho fumegante de cinzas. De água benta, estaca de madeira e cruz, queria distância. Era pálido e gelado ao toque. E gostava de sangue. Aliás, era o seu único alimento. Virava morcego quando queria. Porém, apesar de todas estas características pertinentes a um homem transformado em sugador de sangue noturno, havia uma coisa que não se encaixava. Suas presas. É que o Nunes tinha presas invertidas. Em vez de nascerem de cima pra baixo, como todo vampiro, nasciam ao contrário. De baixo pra cima.

Ninguém entendeu o porquê daquilo, mas quando era vivo, quer dizer, ser humano, desses que comem carne, salada e bebem leite, o Nunes era queixudo. A parte de baixo da boca era pronunciada ultrapassando a de cima. Não havia simetria alguma naquele perfil. Parecia uma cômoda com a gaveta levemente aberta. Talvez tenha sido um meio da sua natureza de vampiro se acomodar naquela arcada dentária defeituosa. O fato é que o pobre Nunes sofria por causa deste contratempo anatômico. Era praticamente impossível não rir quando as presas pulavam da gengiva de baixo. E, mesmo quando ele ficava de boca fechada, elas ficavam aparentes. Para fora, tal qual um javali. Daí os seus colegas noturnos, as gargalhadas, chamarem-no de o pequeno javali – morcego. Nem as vítimas conseguiam segurar a gargalhada ao ver aquelas presas invertidas sairem num pulo mesmo sabendo de seu destino cruel que as esperava. Era comum a policia encontrar misteriosos corpos drenados do seu sangue ostentando um sorriso de orelha a orelha.

O pobre não tinha um encaixe anatômico para pescoços, devido a este problema. O único lugar do corpo onde suas presas invertidas encaixavam perfeitamente era no calcanhar de Aquiles da vítima. O problema que o sangue do calcanhar de Aquiles era o de pior gosto. Ácido, rascante, amargo. Para os vampiros, o pescoço era o miolo da alcatra, a picanha. A carne de pescoço, neste caso, era o calcanhar.

As presas causavam um outro problema para o Nunes. Como todo vampiro, ele era um sedutor nato, ou melhor, natimorto. Hipnotizava suas incautas vítimas sem esforço através do seu olhar penetrante e de sua voz sibilante. Homens e mulheres subjugados pelos seus poderes entregavam-se em segundos. Mas, quando suas presas inversas eram reveladas, o encanto se esvaía. Era o estalo de dedo para um hipnotizado. As vítimas voltavam a consciência na hora e caíam em uma gargalhada constrangedora. Não fosse o nosso amigo Nunes um vampiro, ficaria ruborizado.

Aos poucos, Nunes foi se tornando um vampiro deprimido. E depressão de vampiro é muito mais poderosa do que a dos seres humanos. É praticamente insuportável. E, como todo ser humano, Nunes , no auge da depressão, foi para uma ponte para se matar. Mas, claro, não ia se jogar de lá. Isso não adiantaria. Ia apenas sentar no parapeito e esperar o sol nascer até virar o tal monte fumegante de cinzas. Quando chegou ao local, deparou-se um outro suicida. Não era vampiro como ele. Os dois se olharam.

–           Também está na pior? – perguntou Nunes.

–           Descobri que a minha mulher me traía – respondeu o suicida. – Enquanto eu dava duro no consultório, trabalhando até tarde, ela me traía com vários, até com o meu melhor amigo. Sou o primeiro dentista que é traído pela mulher e não o inverso, vejam só que ironia.

A palavra dentista fez os olhos vermelhos do Nunes brilharem. Nunes explicou a sua situação para o dentista corno. Não só era dentista, como também um protético corno. Mas de primeira linha. Mostrou os caninos inversos para o doutor que disse, na hora, que aquilo tinha solução.

–           Podemos inverter as presas e colocá-las no seu devido lugar. A esquerda de baixo vira a direita de cima e vice versa – explicou o médico. – Bastam algumas pequenas incisões. E pelo que sei, vocês se recuperam rápido. Em poucas horas você vai poder se alimentar de pescoços tenros.

–           Mas o senhor me atende agora? Tem que ser a noite. Quanto vai custar?

–           Nada. A única coisa que peço é que o seu primeiro pescoço seja o daquela traidora insensível.

–           E de lambuja, pego o pescoço do seu melhor amigo também. Vou drenar aqueles dois traidores.

E lá se foram os dois para o consultório. Jamais o Nunes voltaria a se alimentar do sangue de gosto horroroso e rascante daqueles calcanhares de Aquiles.


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