Azulejos da Piscina.

Sentado na arquibancada do ginásio de natação ele observava a piscina olímpica. Notou algo que deu sentido a muitas questões em sua vida. A água, ainda revolta pelos recentes nadadores que ali treinaram, distorcia as linhas que demarcavam cada raia no fundo da piscina. Eram retas, ele sabia. Feitas com uma fileira de azulejos azuis escuros, para diferenciar dos azuis celeste que eram maioria. Cinco linhas retas de azulejo azuis escuros separados por intervalos de metro, metro e meio, mas que, pela lente formada pela água revolta, tomavam formas indefiníveis em constante  mudança ao sabor das ondulações desencontradas, formando linhas bizarras, que pareciam linhas desconexas de um enorme polígrafo indicando nervosismo do entrevistado consequência de sua tentativa de enganar seus questionadores. Uma comparação, aliás, que cai bem para a situação da piscina, uma vez que aquelas linhas, como se apresentavam sob o ponto de vista de quem via sobre a água não correspondiam à realidade. Aquilo, lembrou de quantas vezes ele encarou questões que, eram retas como aquela linha de azulejos mais escuros. Mas que, pelo seu filtro de preocupações, medos, julgamentos, se tornavam distorcidas, amendrontadoras até. Lembrou de um vídeo sobre meditação, em que um yogue, ou algo que o valha, anda pela beira de um lago em um lugar idílico e define a nossa mente como um lago e a meditação como um mergulho nesse lago. Na superfície, o lago é cheio de ondulações, mas a medida que mergulhamos a mente se torna menos agitada.  Sentado ali, vendo a piscina e as linhas de azulejos deformadas, as palavras do yogue fizeram o mais completo sentido. Um sentido prático. Que ele poderia levar para a vida daqui pra frente. Não estava nem feliz, nem triste. Sentia-se neutro. Realizado, mas neutro. Que era uma boa definição para sua paz interior.


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