Eu não sou o Bruce

Jarbas dublava o Bruce Willis. Estava feliz, porque era a voz de uma das maiores estrelas de Hollywood no país. E, quanto mais o Bruce Willis estrelasse filmes, mais ele trabalhava e, logo, mais ele faturava já que o bom Bruce vive em cartaz. Mas, com o passar do tempo, o que parecia ser um grande negócio, tornou-se uma maldição.  Jarbas não podia ficar sossegado em lugar algum. Um simples café na padaria começava a se tornar um incômodo.

 

–       Por favor, um café?

–       Nossa! Bruce Willis? –  Sorri o balconista.

–       Não, meu nome é Jarbas.

–       Mas você dubla o Bruce Willis, não dubla?

–       É.

–       Eu sabia –  e virando-se para trás grita – Sai um café para o Duro de Matar aqui.

 

Jarbas estava perdendo a sua identidade. Ninguém o chamava de Jarbas, só de Bruce Willis. Se tivesse um churrasco em família os sobrinhos vinham em bando falar com ele.

 

–       Tio Bruce fala Yippe iki yay, filho da mãe!

–       Jarbas. Tio Jarbas.

–       Nossa! – Impressiona-se outro garoto –  Seu tio é o Bruce Willis.

–       Jarbas, meu nome é Jarbas, moleque.

–       Ah, tio fala. Só uma vez.

–       Yippe iki yay, filho da mãe!

 

 

Mas as coisas ainda podiam piorar muito. Além de Bruce, havia aqueles que o chamavam pelos nomes dos personagens do Bruce. Era comum ouvir na fila do banco um “Fala, John McClane!” ou um “E aí, Mr. Church. To precisando da sua turma para um servicinho rápido com o namorado da minha filha.” Também era chamado de Hudson Hawk , Tom Hardy, Korben Dallas e até G.I Joe. Para cada um deles ele devolvia um “Jarbas, cassete. Meu nome é Jarbas.” Nunca adiantou. Era um homem com muitos nomes e com nome nenhum. Um homem que falava frases escritas por outros para que um outro falasse enquanto representava outros que não existem. Ele mesmo já estava em dúvida se existia. Condenado a falar trechos de filmes em cada caixa de supermercado, para cada motorista de táxi, vendedor de ticket em porta de estádio ou açougueiro. Era abrir a boca para pedir algo e lá vinha “Caramba, Bruce Willis. “Solta aí Yippe iki yay, filho da mãe!”  pra gente.

 

O ápice de seu calvário aconteceu no dia em que foi visitar os pais no interior. Fazia tempo que não os via. Ao chegar na cidade, uma multidão o esperava em frente à casa dos pais, que seguravam um cartaz onde se lia, “Bem-vindo ao lar, filho Bruce.”  Não podia suportar aquilo. Os próprios pais, que levaram algum tempo escolhendo o seu nome, que o educaram para formar a sua personalidade, ensinaram-lhe valores agora estavam ali, assumindo eles mesmos que o filho que eles colocaram no mundo havia sumido miseravelmente. Esfumaçara-se. Entrava por algum vórtice que o levara para outra dimensão. Jarbas não existia mais. No seu lugar, apenas Bruce. Deu as costas para aquela gente, entrou no carro e arrancou para jamais voltar àquele lugar. Enquanto voltava, ouviu algo no rádio que poderia dar fim ao seu sofrimento. Bruce Willis, em pessoa, estaria no Brasil para promover o lançamento do seu último filme. Jarbas viu ali uma oportunidade única. Como dublador oficial do astro, conseguiu um lugar privilegiado na festa de lançamento do filme. Iria, inclusive, ser apresentado a Bruce.

 

E, no grande dia, lá estava Jarbas. Toda vez que pedia uma bebida ao barman, ele ouvia, “Tudo o que você quiser, Bruce”, ou, “Mais um champanhe, Bruce?”  A cada segundo que passava, a cada “Ola Bruce” , que ouvia, a certeza de pôr o seu plano em ação só se fortalecia. E, quando o momento finalmente chegou, Jarbas foi conduzido até onde estava Bruce Willis. Ao ver o ídolo a sua frente, totalmente indefeso, lançou-se sobre ele como uma faca que tinha pego na mesa do buffet. Ia acabar ali com tudo. Ia ser Jarbas novamente. Mas, esses atores americanos contam com uma segurança impressionante. Dois brutamontes brotaram sabe-se lá de onde e dominaram o pobre Jarbas num estalar de dedos.

 

Dando entrada no presídio, já condenado por tentativa de assassinato, Jarbas dá o seu nome para o guarda que faz a triagem, que o ouvir aquela voz…

 

–       Caramba. John McClane. Solta aí um “Yippe iki yay, filho da mãe!”  pra gente, vai.

 

 


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