Suzy entra no avião puxando a sua mala Romero Brito cheia de cores vibrantes, como se estivesse levando o seu cãozinho de raça para um glorioso passeio no parque. Que orgulho ela tinha daquela mala. Adorava ser parada diversas vezes no aeroporto e ouvir das outras mulheres “Ai que Romero Brito linda essa sua!” Aliás, frase que também ouviu de um comissário risonho e afetado, enquanto passava se espremendo todo entre ela e uma das poltronas da aeronave.
Suzy, enfim, achou o seu lugar, fila 18, poltrona C, no corredor. Acomodou sua mala no bagageiro superior com um carinho orgulhoso. Sentou-se e imediatamente passou a prestar atenção nos passageiros que entravam. De repente, vislumbrou, lá no início do corredor, entrando e cumprimentando a tripulação, a pessoa que fez o seu orgulho de voar sofrer uma pane. “Meu Deus, não pode ser ela”, pensava enquanto examinava a figura se esgueirando pelo corredor. Uma moça de cabelos pretos, o corpo mais magro do que quando conviveram na mesma casa, mas aquelas eram as mesmas bochechas vermelhas daqueles dias. “É a Maria!”. Sim, era a Maria. Sua ex empregada. A Maria que pediu demissão porque “Meu marido foi promovido, sabe dona Suzy, e eu vou entrar num curso de cabeleireira para um dia abrir o meu próprio salão.” O queixo da ex patroa, na poltrona 18C, ia cedendo à força da gravidade. Irritada, não parava de dialogar consigo mesma em pensamento. “Um tapa na minha cara essa mal agradecida me deu. Nunca atrasei salário que fosse. Era tão boa pra ela, assinava a carteira, pagava até o INSS.” Enquanto isso, a ex empregada anda com dificuldade pelo corredor, procurando o seu assento. “Onde esse isso vai parar?”, questiona Suzy em sua voz mental. “A Maria num avião. Pior, no mesmo avião que eu. Onde está o mundo em que eu vivia ainda há pouco, onde a empregada ganhava imã de geladeira que a gente trazia da viagem? Agora elas vão em pessoa comprar os próprios imãs? É isso? Ai que saudades do tempo em que viajar de avião era para…bem para nós.”
Maria se aproxima perigosamente e a ex patroa procura algo para esconder o rosto. Não quer ser reconhecida de jeito nenhum. Suzy pega um jornal e abre a esmo, só para esconder o rosto. Mas o que vê a sua frente é uma reportagem sobre a distribuição de renda no Brasil. No gráfico, a antiga pirâmide deu lugar a um losango. Mais gente no meio, menos gente na base. E ela vendo isso acontecer diante dos seus olhos, no formato de uma Maria. “Ai que saudades da velha e boa pirâmide social. Aquilo sim é uma forma geométrica perfeita. Tudo e todos no seu devido lugar”. E, de repente.
– Da licença?
Suzy olha para cima e vê Maria ali, em pé, com aquelas bochechas sadias e vermelhas.
– Licença? Minha poltrona é a 18A. – Maria aperta os olhos. – Dona Suzy?
O pior não é a Maria sentar na mesma fileira e a reconhecer. O pior de tudo, é a Maria estar carregando uma mala Romero Brito. E ainda ter que ouvir do comissário afetado que passava bem naquele exato momento.
– Ai, que tudo essa sua Romero Brito!
E, olhando para Suzy, arremata.
– Desculpe a sinceridade, mas esta é mais linda do que a sua.