Um dia se deu conta. Olhou-se no espelho e não conteve um certo sorriso de orgulho. “Meus cabelos não ficam brancos” , pensou. Era mesmo algo interessante. Já havia passado dos 50 anos há alguns anos e o único resquício de branco estava na extremidade da suas costeletas. Se as usasse curtas, como era o caso, nem ali haveria o sinal clássico do avanço da idade. Lembrou-se do pai. Este também demorou a ter cabelos brancos. Foram aparecer lá pelos 65 anos. Era, enfim, uma dádiva da genética.
Mas parece que Carl Jung estava certo quanto ao conceito da sincronicidade. Porque naquele mesmo dia, no escritório, um colega com quem trocava um papo agradável em um momento de café lascou.
– Cara, você pinta o cabelo?
– Não, por que?
– Sério? Como é que pode? Pretinho desse jeito nessa nossa idade? Olha a minha cabeça e olha a sua.
– Genética, acho eu.
Era o primeiro sinal de um longo martírio. Parecia que, após aquele momento no espelho, não só ele passou a se dar conta de que os seus cabelos pareciam muito mais jovens do que o seu dono.
– O seu Carlos, que tintura o sehhor usa? – Pergunta o porteiro do prédio – É muito natural.
Passava direto pelo folgado mostrando um sorriso forcado. Ao chegar em casa.
– Você nem imagina o que a Dora falou hoje.
– O que?
– Como é que o senhor pinta o cabelo e não deixa nenhum rastro de tintura na pia.
– Meu Deus! – Irrita-se – Até a empregada? Isso é um complô?
Houve a reunião com um cliente importante, que, por sinal, tinha ido as mil maravilhas. Carlos estava satisfeito, inflado de contentamento. Aquela sensação maravilhosa de missão cumprida. O cliente, um senhor com aquela distinção e respeitabilidade que só um ar sereno e uma cabeleira prateada são capazes de emprestar a alguém, chamou-lhe em um canto.
– Meu caro Carlos, que tintura você usa no cabelo para ser assim tão natural? É impressionante.
– Nenhuma.
– Ah, não me venha com essa.
O senhor distinto e responsável, em seguida se vira para todos.
– Vejam só, o Carlos aqui quer me convencer que não pinta os cabelos.
Risadas gerais, aquelas de quem precisa agradar a pessoa mais importante, serena, distinta e com poder para tirar o emprego de todos ali na sala, inclusive dos que não trabalhavam diretamente para ele como era o caso do Carlos. Ele se forçou a gargalhar o quanto pode, mas por dentro, queria socar aquele “velho filho da puta de cabelos brancos” .
Não havia limites para o calvário pelo qual Carlos passava carregando sua cruz. A pergunta “pintou o cabelo?”, o perseguia por onde fosse. Em almoços da empresa, sua cabeleira preta transforma-se em tema para risadas. Ele sempre tentava responder com a frase feita.
– É genética.
– Genética? Não conheço essa marca de tintura.
As secretárias da empresa elegeram uma representante para ir falar com ele. Celina, a sua própria secretária, que era quem tinha mais intimidade para fazer a pergunta.
– Seu Carlos, o senhor pode me contar o segredo?
– Que segredo, dona Celina?
– O senhor não pinta o cabelo…
– Finalmente! – interrompe ele aliviado – Alguém acredita.
– Sim, claro. Homem não tem assim, habilidade para pintar o cabelo sozinho. Quem faz isso para o senhor? Sua esposa? Ou uma cabelereira. Se for, o senhor dá o endereço pra gente?
Aquilo tinha passado dos limites. Só restava uma única solução para que aquilo terminasse de uma vez por todas. Uma solução desesperada, é verdade, mas eficiente. Chamou a cabelereira da esposa em casa.
– Deixa os meus cabelos grisalhos, dona Nilda. E não pergunte, por favor. Não pergunte.