A Maldição – Crônicas Publicitárias

Ramiro estava exultante. Só Ramiro não. Ramiro Mendes estava exultante. Sim, porque, segundo seus colegas, era de bom tom que uma pessoa respeitável tivesse nome composto. Um segundo nome que, de maneira sonora, complementasse o primeiro, que fosse homogêneo. Todos os seus pares e, principalmente, os criadores publicitários mais famosos e reconhecidos tinham nomes duplos.  Mas voltemos a Ramiro Mendes. O garoto estava sentindo uma daquelas felicidades que parecem que não cabem no peito. Que vão sair por ele como um parasita de outro planeta. Ramiro Mendes, o redator de propaganda que saiu de Goiás e veio para São Paulo porque  “aqui sim as coisas acontecem”, tinha ganho o seu primeiro Leão no Festival de Publicidade de Cannes. E, veja, não era assim qualquer Leão. Mas um Leão de Ouro. Perto de alguns colegas que já tinham 10, 12 ou 23 Leões na carreira, talvez fosse pouco. Quase nada. Mas um é o começo da contagem, quem sabe?  Ficou tão feliz, tão radiante que pediu uma cópia da estatueta para si, já que a original ficaria na estante da agência, já coalhada de estatuetas em formatos e cores variadas. Custava metade do seu salário de redator júnior, mas essa é uma glória que deve ser guardada. Acomodada no melhor lugar do seu apartamento de um dormitório.

No dia em que a estatueta chegou, Ramiro não se conteve. Abriu ansiosamente o envelope, rasgando o envólucro sem a menor cerimônia, até que a estatueta aparecesse em todo o seu esplendor. Brilhando intensamente. A placa  que fica na base da estatueta tinha o seu nome entalhado ao lado da palavra Copywriter.  Não via a hora de voltar para casa e colocá-la no seu lugar de destaque.

À noite, Ramiro não conseguia despregar os olhos do seu Leão de Cannes, na prateleira da sala. Tentava assistir a televisão, mas, volta e meia, pegava-se admirando-a, altiva na prateleira. No meio da noite, levantava para ir a cozinha beber água, mas era apenas uma desculpa para passar pela prateleira e trocar alguns minutos de sono por aquele momento de observação e orgulho. Na verdade, era mais do que isso. De alguma maneira, sentia-se impelido por alguma força a ficar olhando para a sua estatueta. Aquele Leão de Cannes metálico e brilhante, com uma expressão sisuda. Subitamente, percebeu algo estranho. Um sutil movimento da estátua em sua direção. O Leão de Cannes agora o encarava. Os olhos da estatueta postos nos seus olhos. Olhos da estatueta que começaram a ficar avermelhados, como metal incandescente. Um vermelho ondulante, ficava intenso e fraco. Intenso e fraco. Uma ondulação hipnótica. Ramiro foi cooptado por aquele olhar. Passou a ouvir a voz do Leão. Uma voz suave, convincente, sibilante.

“Você serve a nós. Você serve a nós. Precisamos de você. Precisamos florescer.”

Na manhã seguinte, Ramiro acordou e viu que estava sobre o tapete da sala, em frente a prateleira. Ainda zonzo e com o corpo um tanto dolorido por ter pego no sono ali, naquele chão duro, Ramiro procurava entender porque não estava em sua cama. As lembraças despedaçadas pelo  sono agitado juntavam-se como peças de um quebra cabeça até formar uma imagem inteira em sua mente. Lembrou do seu encontro hipnótico com a estatueta. Mas tomou aquilo como um sonho. E entendeu o fato de não ter ido para a cama como algo normal.

“Passei por aqui e, no caminho de volta, fiquei olhando para ela. Acabei pegando no sono. Foi isso.”

Lavou-se, colocou a sua roupa e dirigiu-se para a porta de saída para tomar seu usual café na padaria da esquina. Mas antes de fechar a porta e deixar o apartamento para trás, não conseguiu resistir e, ainda na soleira da porta, olhou para o sua estatueta dourada. Achou estranho ela estar virada de frente para ele. Quando os seus olhos encontraram os da estatueta, sentiu um arrepio pelo corpo. Não de medo, mas de excitação. Saiu para o trabalho.

 -x-

Foi a partir dessa manhã que Ramiro passou a sentir algo diferente. Uma leve necessidade de estudar livros e sites de festivais de propaganda nacionais e internacionais. Pegava as publicações mais famosas que estavam disponíveis na agência: um D&AD de vez em quando, um One Show, um Anuário do Clube de Criação de São Paulo. As vezes entrava no site do Festival Publicitário de Cannes e em outras publicações do gênero. Conseguia conciliar tudo com os seus afazeres diários.

À noite, quando chegava em casa, ia correndo para a frente da sua estatueta. Era impelido a fazer aquilo e nem percebia. Era um ritual, que seguia a sua liturgia perversa. Os olhos do leão dourado novamente tornavam-se incandescentes e paralisavam Ramiro, que ficava a mercê do ídolo metálico, que lhe dava ordens com a sua voz sibilante.

“Você serve a nós. Nós precisamos nos reproduzir.”

A medida em que os dias – e as noites em frente a estatueta amaldiçoada passavam – aquela leve necessidade de estar em contato com publicações especializadas em festivais de publicidade transformou-se em compulsão e depois evoluiu para uma completa e acabada obsessão. Ramiro passou a usar seus momentos de lazer e almoço para devorar os livros de festivais. Estudava cada detalhe, cada tendência, como as campanhas premiadas evoluíram de décadas passadas para o que eram hoje e o que as fazia ser laureadas. Ele tentava desesperadamente “pegar o jeito” de fazer campanhas que ganhassem prêmios. Ansiava por isso. Era o seu objetivo de vida. Almoçava sanduíches na sua mesa enquanto estudava os livros de festivais e pesquisava as campanhas famosas e ultra premiadas na internet. Não via a luz do sol. Não escutava a chuva. Era um recluso em seu mundo de pesquisa, de anseios por mais estatuetas. Estava faminto. Tornara-se um servo.

 -x-

 Ramiro era, definitivamente, outra pessoa. Diferente de quando chegou a São Paulo, julgava tudo pelo parâmetro dos festivais de publicidade. Se via uma cena engraçada em um restaurante, ou uma frase dita por alguém na rua que achasse interessante, imediatamente mandava  um “Se fosse um filme ia ganhar um Leão.”.

A vida real misturava-se com a rotina das premiações de publicidade  que inundavam a sua mente. Se tomasse um café, não dizia que estava bom ou ruim, mas concedia-lhe metais. Se fosse excelente dizia “Esse café é ouro”. Se já não fosse lá tão bom mas ainda sim merecesse nota , dizia que o café era prata ou  bronze. Mas, se fosse um café fora do comum, dizia que era um Grand Prix.  Esse conceito valia para tudo em sua vida. Tudo era julgado e conceituado por estes metais, que na visão dele, eram os mais importantes de toda a tabela periódica. Ele podia ter tido um sono bronze, tomado um suco de laranja prata, e ter dado umazinha ouro e assim por diante.

Em casa, a estatueta fazia o seu trabalho. Com seus olhos brilhantes e insinuantes, mantinha Ramiro como seu escravo, um operário a serviço da proliferação da espécie das estatuetas. O menino emagrecia, pois passava a maior parte do dia dentro da agência, pesquisando livros e tendo ideias para que pudessem ganhar mais estatuetas. Vivia pálido e tão inserido no assunto que já não conseguia mais se comunicar com mãe e pai. E mãe a gente sabe como é.  Sabe quando algo não vai bem com o filho mesmo a mais de 2 mil quilômetros de distância.

Dona Carolina pegou um vôo e veio a São Paulo. Ao ver o estado filho, teve um chilique.  Aquele autômato, com olhos em um horizonte  inexistente e amigos que tinham aquele mesmo comportamento e falavam entre si num dialeto ininteligível colocou uma pulga de dimensões enormes trás de sua orelha.  Quando pôs os olhos na estatueta, Dona Carolina sentiu um calafrio.

“Que coisa horrorosa é essa?”

“Meu primeiro Leão, mãe. A prova que eu dei certo. A prova de que sou alguém. Em breve, terei muitos. Inúmeros.”

O menino falava aquilo com uma adoração doentia. Em sua intuição de mãe, estava certa de que que aquele Leão dourado tinha algo a ver com o estado do filho. Impelida por tal intuição, aproveitou o dia seguinte em que o menino saiu para trabalhar, pegou a estatueta e jogou “aquela aberração” no lixo. Sabia que o filho iria brigar com ela, mas mãe é mãe. Ela tinha uma má impressão “daquilo”.

Foi o que ocorreu. Dona Carolina teve que ficar mais tempo em São Paulo por conta do estado do filho, que, ao se separar da estatueta passou a sofrer uma espécie de crise de abstinência e também de identidade. Mas, passado um mês, sua palidez foi embora e seu interesse pelo mundo real voltou ao normal. O filho era aquele menino que conseguia dialogar com a mãe e com o resto do mundo com desenvoltura. Graças a Deus, ele estava de volta.

 -x-

 Enquanto isso, no apartamento de seu Ariovaldo,  zelador do prédio onde morava Ramiro, uma discussão acalorada acontecia. A filha dele, Karina, que iria prestar vestibular para Medicina, havia mudado repentinamente de ideia. Decidiu que ia fazer publicidade.  Seu Ariovaldo não conseguia aceitar aquilo e a discussão entre ele e a filha era áspera. Olhando tudo, de cima de uma prateleira, o Leão dourado, que Karina tinha achado no lixo sem entender como alguém poderia jogar fora uma coisa tão legal como aquela.

 


Leave a comment