Rui estava parado dentro do closet, cabelos molhados e toalha amarrada na cintura como se fosse um grego. Olhava para a miríade camisas e calças penduradas nos cabides tentando definir-se por algum conjunto que o agradasse. Não conseguia. Tentava várias combinações em sua mente mas nenhuma fazia sentido naquele momento. Parada na porta, com uma túnica esvoaçante, Luiza, que um segundo antes não estava ali, resolve vir em auxílio do ex-marido.
– Aquela calça preta ali, uma camisa branca, o blazer preto que eu te dei de aniversário e aquele sapato ali – aponta para um sapato preto com o cano ligeiramente mais alto .
– Você gosta de me dar uns sustos, não é?
– Sou um fantasma, não sou? Faz parte do meu job description.
– Obrigado pela dica.
– Falando em job description, o meu trabalho está acabando – suspira. – Acho que hoje é a última vez que nós nos vemos.
Rui ficou parado com os cabides na mão por alguns segundos. Um pontada de tristeza fustigou seu ventre. Nunca passou pela cabeça dele que, depois de tudo o que passou por causa de Luiza, seria capaz de sentir a falta dela.
– Por incrível que pareça, eu vou sentir saudades.
– Então, Rui – ela morde o lábio inferior, expressão que Rui conhecia decor e salteado.
– Que pedido mirabolante você vai fazer antes de se despedir.
– Eu sei que é uma coisa delicada, mas se eu não perguntar, nunca vou me perdoar por deixar de passar uma oportunidade dessas.
– Manda.
– Eu gostaria de sentir a sensação de trepar com uma mulher, sendo homem.
– Como é que é?
– É isso que você ouviu. Queria, sentir como é ser um homem na hora da trepada, as sensações, entende?
– E não me diga que o jeito disso acontecer é…
– Sim, o modo dois em um.
– Você em mim enquanto eu estiver trepando?
– Sim, mas olha, Rui, você nem vai notar que eu vou estar ali.
– Como não Luiza? Eu vou saber que você vai estar por aqui –
Ele passa a mão pelo corpo inteiro para indicar o que significa aqui.
– Confia em mim, Rui. Eu acho que estes nossos últimos dois meses foram suficientes pra eu provar que estava sendo sincera. Eu ajudei você, não ajudei?
– É, ajudou.
– E você é outro hoje, não é?
– É. Sou.
– Eu vou te contar um segredo. Eu senti ciúmes. Um monte de vezes. Não. Eu senti todas as vezes. Queria estar no lugar de todas as mulheres que você transou. Talvez esse tenha sido o meu castigo.
– Verdade?
– Verdade.
– Tá bom, Luiza. Eu deixo você estar comigo, se algo rolar hoje.
– Como assim, se?
– Vício de linguagem. Tá na cara que vai.
-x-
Mesmo antes de entrar no clube, Rui já sentiu o impacto que a festa. Um burburinho intenso na frente do clube. Apesar do enorme movimento, as filas de espera por alguém que levasse o carro até o estacionamento era sempre curta, devido a eficiência de um verdadeiro batalhão de manobristas agitadíssimos e concentrados no seu trabalho.
Ao entrar no clube, Rui foi recebido por um bando de hostesses que pareciam ter saído das páginas da Vogue. Talvez fosse o caso. Impecavelmente vestidas, elas checavam os nomes sem desmontar o sorriso com dentes alvíssimos, emoldurados por lábios vermelhos. A hostess que ficava no púlpito de entrada chamou uma colega que acompanhou Rui para dentro e, ao passar uma cortina com o imponente brasão, marca registrada do clube, bordado em fios dourados sobre o verde musgo, foi imediatamente arrebatado pelo ambiente.
Mulheres glamourosas, homens glamourosos até garçons e as garçonetes eram glamourosos, circulando por entre os convidados oferecendo as maravilhas etílicas e algumas joias da gastronomia minimalista. Rui passou a circular pelo ambiente. De longe, viu Murilo, Carlos Alberto e Leandro, muito bem vestidos. O bom gosto do terno de Murilo destoava completamente das palavras e frases que costumavam sair de sua boca. Os três sinalizavam com a mão, chamando Rui para junto deles. Mas, depois de alguns segundos, viu que a expressão dos três mudou ao mesmo tempo. Os olhos arregalaram, a testas franziram e os queixos foram caindo até ficarem pendurados. As mãos paradas no ar, como se alguém os tivesse frisado num vídeo. Rui logo percebeu a razão daquele espanto. Ao virar-se levemente para sua direita, encontrou Karen, parada a sua frente, olhando nos olhos dele, com duas taças de champanhe na mão.
– Não há sensação melhor do que chegar em um lugar como este e ser recebido por uma Cristal gelada – ela diz.
– Karen. – Ele se cala por um instante para observá-la de cima a baixo. – Você está deslumbrante.
Karen deu um sorriso intenso. E sincero. De quem não esperava um elogio daquela magnitude.
– Um homem precisa ter confiança para usar uma palavra como deslumbrante sem parecer uma tentativa barata.
– Bom, eu acho que é a palavra que realmente define o que eu estou vendo.
– Eu estou feliz de você ter finalmente vindo a uma de nossas badaladas festas.
– Eu estou feliz de estar aqui.
A resposta veio acompanhada de um olhar firme, decidido e direto nos olhos dela. E o que ele viu lembrou Lucio. Se fosse uma partida de futebol, estaríamos apenas nos dez minutos do primeiro tempo, mas a vitória era certa. Karen estava entregue.
– Vamos dançar? – Ele convida.
– Hum! Quer dizer que você dança também?
– Dou meus passinhos – diz oferecendo o braço para Karen.
– Eu quero que você me prometa uma coisa – diz ela enquanto acomoda o seu braço junto ao dele.
– Claro, Karen.
Ela praticamente encosta sua boca no ouvido dele e, como que divide um segredo insondável, fala.
– A primeira coisa que você vai fazer com o dinheiro da aposta que vai ganhar é me levar pra jantar.
Ele riu e, com o canto do olho, vislumbrou seus amigos ao longe, estupefatos com a cena que presenciavam, sem nem desconfiar que Karen já sabia do segredo da confraria.
-x-
A festa, como se diz, já tinha pegado. Animação total. Rui estava dando um tempo no banheiro do clube. Por incrível que pareça, não havia viva alma lá dentro. Só ele, que lavava as mãos antes de ir embora para a casa de Karen, que já havia pego o seu carro e dado a ele o seu endereço, e Luiza, que de viva não tinha nada.
– Então, o meu aluno encerra o curso com chave de ouro.
– Quem diria.
– Eu sempre confiei em você.
– Admito.
– Bem, como eu já disse, é minha despedida.
– E como eu já disse, vou sentir a sua falta.
– Então – diz ela.
– Sim, Luiza. Pode entrar. Vamos nessa juntos.
Luiza entra no corpo de Rui. Ele sente uma leve tontura, mas logo está refeito. E, como Luiza havia prometido, não sente nem traço da presença dela. Ele sai direto para a porta de saída. De longe, os amigos observam Rui a caminho da glória.
– Olha lá o filho da puta!
– Depois de tantos anos, hein, Murilo. Um ganhador – constata Carlos Alberto.
– Será que ele vai para o apartamento dela? – pergunta Leandro.
– Tanto faz – conclui Murilo. – O cara vai entrar na buceta mais cobiçada da corretora e ainda vai quebrar a banca na primeira festa que resolve aparecer. Caralho! – Ele olha para cima – Chuuuupa, Luiza!
– Engraçado. É efeito da iluminação ou parece que tem uma aura vermelha em volta do Rui?
– Porra, Leandro! O que você bebeu? Eu também quero.
-x-
Rui da um salto para fora da cama e vai direto para o espelho do quarto de Karen. Ele não vê o seu reflexo no espelho. Em seguida começa a olhar para si, em partes. Está tudo ali, mas o espelho continua sem refletir. O que ele vê no espelho, o deixa ainda mais chocado. O reflexo dele mesmo, levantando da cadeira, nu, indo para a cama e começando uma nova seção de sexo tórrido com Karen. Rui não sabe como reagir. Ele grita para pararem, tenta chamar a atenção. Tentativa infrutífera. Ele senta no chão e assiste a ele mesmo em malabarismos sexuais que fazem Karen gritar de prazer.
Depois de um tempo abraçados, Karen avisa que vai tomar uma ducha e sai de perto. Rui na cama, fica encarando o Rui sentado no chão. O primeiro ostenta um sorriso sarcástico.
– Você devia ter ouvido a mulher do bar – fala o Rui na cama, mas com a voz de Luiza.
– O que está acontecendo. Por que eu estou aqui e você aí?
– Por que eu, agora, sou você.
– Como? O que?
– Eu sei que é difícil, mas desde o início era isso que eu queria fazer. Tomar o seu corpo, voltar a viver.
– Não. Isso não é verdade. Isso é uma loucura.
– Meu Deus, fazer sexo como homem é glorioso. E eu agora tenho uma vida pela frente.
– Luiza, você não pode estar falando sério.
– Nunca falei tão sério em toda a minha ex vida.
– Mas por que eu? E por que toda essa história de me ajudar? Por que simplesmente não pegou o corpo de alguém e o tomou?
– Isso não é assim, como nos filmes. Preciso de consentimento para que isso possa acontecer totalmente. Eu já conhecia você. Isso é essencial. Você estava enfraquecido e precisando de ajuda. Eu supri você com o conhecimento que você precisava e no caminho fui ganhando sua confiança. Agora estou viva de novo. Agora, eu sou você.
– Você não pode estar fazendo isso comigo – Rui se desespera. – Você não tem caráter?
– Claro que não, Rui. O que eu tenho era uma vontade imensa de continuar vivendo e trepando. E, convenhamos, seus últimos meses neste corpo pelo menos valeram à pena. Você devia até me agradecer.
– Eu tinha perdoado você. Você se mostrou uma boa amiga. Eu confiei em você.
– O melhor disfarce para o mal é o bem, Rui.
Luiza, que agora era Rui, cala-se após ter dito esta frase. Olha para cima, como quem ouve o que acabou de dizer. Levanta uma sobrancelha.
– Profundo isso, não é, Rui? Gostei.
– O que vai acontecer comigo?
– Não sei, vai depender da sua força de vontade de continuar vivo, acho eu. E da sua completa mudança de personalidade. Eu acho que se você continuar cheio de não me toques e doçura como sempre foi, vai ficar vagando invisível por aí. Ainda bem que eu ensinei um pouco de cinismo pra você né? – Orgulha-se. – Resumindo, enquanto essa sua aura continuar assim esverdeada em vez de vermelha, é isso que você vai ser. Um espírito vagando por aí de consciência limpa. Agora da licença, Rui. Tenho uma coisa muito importante para fazer ali no banheiro.
Rui viu Luiza em seu corpo se levantar e ir para o banheiro. Não demorou muito para começar a ouvir o som do chuveiro misturado a gemidos.
-x-
Papo no elevador
O espírito de Rui está no elevador da corretora. Clarisse e Rúbia, duas corretoras, uma loira e outra morena, entram e, obviamente, nem o percebem.
– Meu Deus! – Suspira Clarisse – O que foi aquilo ontem?!
– Eu nunca tinha feito nada parecido na minha vida – responde Rúbia.
– Eu adorei!
– Adorou? Eu quero de novo! – Rúbia olha marota para a colega. – Se você quiser também, claro.
– Safada.
– Só de pensar em você e o Rui nus, fazendo aquelas coisas todas em mim.
– Para!
Clarisse fala com os olhos semi cerrados e os lábios úmidos.Todos os lábios.
– Eu não vou conseguir me concentrar hoje.
– A Karen pode ser linda, mas nós somos duas.
O espírito de Rui permanece estático, desanimado, enquanto vê as duas deixando o elevador dando risadinhas cúmplices. A porta se fecha. A sua aura continua esverdeada.