O Fantasma de Luiza – Capítulo 12

–       Ela é uma médium, Rui.  – Falou Luiza, enfim. – Isso poderia acontecer. Eu só não avisei porque, bem, vai que a gente não topasse com nenhuma.

–       Que negócio é esse de aura vermelha?

–       Não faço a menor ideia.

Neste momento, a mão pesada de de Murilo pousa no ombro de Rui.

–       Que é isso? Falando sozinho?

–       Estava cantando.

–       Escuta, que obscenidade você falou para aquela moça? Ela saiu correndo como se tivesse visto um fantasma.

–       E viu – confirmou Rui. – Disse que tinha o espírito de uma mulher parado bem aqui – apontou para onde estava Luiza.

Murilo ficou encarando Rui por algum tempo e depois, os dois caíram numa gargalhada desenfreada.

–       Isso é coisa de mulher perturbada – Murilo fala entre risos. – Nada que uma chupada no lugar certo não resolva. Você devia tentar.

E saiu gargalhando em direção ao banheiro, sob os olhar impressionado de Rui diante da filosofia refinada do amigo, e do olhar irado de Luiza.

-x-

No elevador

No dia que seguiu o encontro esquisito com a tal médium,  Rui chegou cedo à corretora. Encontrou Julio César no elevador. Julio César vive em um estado de excitação constante, porque tem certeza absoluta que vai enriquecer quando uma de suas ideias vingar. Ele tem várias delas. Uma atrás da outra, todas mirabolantes.

–       Rui…cara…agora não tem jeito.

–       Que não tem jeito eu já sabia.

–       Não, sério, para de tirar onda comigo –  reclama. – Quis dizer que não tem jeito, vou finalmente alcançar minha independência financeira. Meu plano B está prestes a se tornar plano A.

–       Desenbucha.

–       Você vai ver, homem de pouca fé, que essa não tem como dar errado. Uma idéia inovadora, sem dúvida.

–       Ok.

–       Tem coisa mais chata do que papo de elevador? Sabe como é, as pessoas entram e, na verdade, nem querem conversar. Se obrigam a falar da chuva, do trânsito por pura convenção social.

–       Tirando você –  debocha Rui.

–       Vai rindo. Mas enfim, que tal promovermos a volta do ascensorista?

–       E o que isso tem a ver com o papo chato no elevador?

–       Um ascensorista que é também comediante. Ele conta piadas durante o trajeto. Não tem quem não queira entrar num elevador como esse. Hein, Rui? As pessoas estão pagando para se aboletar num teatro e em bares para ver stand up. Então, eu vou inovar. – Ele sinaliza com as duas mãos no ar como se a frase seguinte estivesse nas capas dos jornais. –  Papo chato no elevador? Nunca mais. É genial, Rui. Não é? Uma necessidade de mercado.

–       E como você vai se remunerar?

–       Como?

–       Perguntei, como você vai ganhar dinheiro com isso? Por que eu iria contratar os serviços de um comediante/ascensorista se as pessoas vão pegar o elevador com ou sem ele de qualquer maneira, já que elas não entram num elevador por opção e sim por necessidade? Fora que dependendo do andar que alguém desça, ou suba, pega só parte da piada.

Julio César saiu do elevador cabisbaixo. Rui seguiu a viagem se sentido mal por ter sido ele a acabar com mais um sonho de grandeza do colega. Os milhões que Julio Cesar pretende ganhar teriam que esperar pela próxima ideia.

-x-

 A festa

Ao chegar em seu andar, Rui percebeu um clima completamente diferente. As pessoas falavam mais alto, estavam excitadas, os rostos tinham aquela expressão abobalhada que as crianças exibem a cada dia que o Natal se aproxima. Isso indicava uma de duas circunstâncias: o bônus de final de ano ou a festa de aniversário da corretora. Como o período em que o valor do bônus é comunicado estava ainda muito longe, tornava-se óbvio que a causa daquela comoção era a festa.

As festas de aniversário da corretora costumavam acontecer no clube mais concorrido, mais in, mais trend, o que estivesse em maior evidência naquele ano. Não se poupavam recursos para reunir todo o “staff” da corretora, clientes celebridades, que em alguns casos eram também clientes. A festa era uma tradição, um evento concorrido que aparecia em matérias e fotos estampados em jornais e revistas do país. O whisky, farto, tinha idade para ser avô de Lucas, as cervejas importadas da Bélgica e Alemanha e o champagne vinha da região francesa que autorizava a usar esta definição para o espumante. Uma grande confraternização que estendia-se madrugada a dentro e, em muitos casos, continuava com um número restrito de pessoas em lugares mais privados. Essas prorrogações íntimas eram a alegria dos fuxiqueiros do dia seguinte e dos que conseguiam escapar dos fuxicos mantendo suas indiscrições nos lençóis de hotéis e motéis, que eram posteriormente lavadas em alguma lavanderia da cidade. Já se documentaram orgias que deixariam os romanos corados de vergonha, o fim de alguns casamentos e até o nascimento de um rebento, palavra que aliás tem tudo a ver, já que neste caso a caminsinha parece não ter suportado a fúria do vai e vem do envolvidos.

Rui, até então, jamais havia comparecido a nenhuma destas festas, porque nunca teve a menor vontade de trocar a companhia de Luiza por um evento de proporções Bíblicas, se considerarmos Sodoma e Gomorra como base de comparação. Mas, naquele ano, tudo estava obviamente diferente. Uma festa com aquela fama e envergadura era tudo o que Rui desejava para colocar em prática a sua nova personalidade de predador frio e cruel. Quando se dirigiu à cozinha para se servir de café, Rui encontrou Murilo, Lucas e Carlos Alberto, numa animada conversa quase aos sussurros.

–       Estão afônicos ou isso é um motim se formando?

–       Ah! Justamente a pessoa que eu queria encontrar!–  Responde Murilo agora com o seu tom de trovão característico. – Este ano você vai à festa, não vai?

–       Pode contar comigo.

–       Ah, seu Rui, folgo em saber! – Lucas alegra-se. –  Para mim é motivo de júbilo contar com tão estimada presença entre a nossa malta em tamanha confraternização.

–       Não entendo patavina do que esse moleque fala, caralho! – Decepciona-se Murilo. – Mas o que interessa aqui é a aposta.

–       Que aposta? – Pergunta Rui, intrigado.

–       Quem vai pegar a Karen –  responde Carlos Alberto.

–       Desde que começou aqui na corretora, há 5 anos, ninguém sentiu nem de perto o cheiro daquela bucetinha – completa Murilo com a sua costumeira suavidade.

–       Ninguém? Nem um cliente importante? – Duvida Rui.

–       Não, seu Rui. A moçoila é arredia aos flertes.

–       O que esse menino falou agora? – Murilo irrita-se novamente.

–       Que ninguém ainda conseguiu comer a Karen – traduziu Rui. – E vocês acham mesmo que ela não fraquejou e conseguiu manter segredo?

–       Não, Rui. Temos uma vasta rede de informantes aqui dentro, alguns com a função de seguir a moça quando sai da festa. Ela resiste a todas as cantadas, e vai pra casa invicta.

–       Meu Deus, Carlos Alberto. Vocês não acham que estão exagerando?

–       A aposta tomou um vulto importante, Rui.

–        O dinheiro aplicado em casa bancária, acumulando rendimentos e correção. Já temos uma soma vultuosa, o suficiente para o ganhador encher a bucha – completa Lucas.

–       Por que eu nunca soube disso?

–       Só quem vai a festa e participa do “Quem vai pegar a Karen” pode saber. E você, o bundão, nunca foi a festa nenhuma. Parar ficar agarrado com a sua “santa Luiza”. Você vai mesmo, não vai?

–       Vou, Murilo. E ainda vou apostar.

–       Opa, agora senti firmeza – alegra-se Carlos Alberto. – E quem você acha que vai, finalmente, pegar a Karen?

–       O mesmo felizardo que vai ganhar a aposta. Eu. Caso 500 reais em mim.

(continua)


Leave a comment