Os dias que seguiram àquela manhã eram divididos em dois. A metade dedicada ao trabalho e a outra dedicada a sair pelos bares com Luiza à tiracolo como uma espécie de orientadora de campo. Foram aos mais diversos tipos de bares. Rui foi aprendendo e ponto em prática tudo o este aprendizado com orientação da sua professora do além. Foram de bares de quarentões a baladas de pós adolescentes. Rui nunca achou que fosse capaz de chegar àquele estágio de sucesso com as mulheres. No primeiro bar, Luiza queria que Rui atirasse a esmo. Não deu dica alguma. Rui tomou inúmeros foras, voltava para a mesa e a Luiza, impassível, dizia: “tenta aquela”. Foi uma noite de insucessos. No final, voltando para casa, Luiza disse que sabia que tudo ia acontecer como realmente aconteceu. Aquele bar não era lugar de pegação, mas Rui devia se acostumar com a negativa a ponto de simplesmente considerá-la um fato normal em um momento de conquista. Aquela lição dolorosa serviu para diminuir a importância da rejeição. No que ela obteve total sucesso. No final da noite Rui até ja estava achando engraçado as reações indignadas de algumas mulheres. Foi tão rejeitado que nem dava mais importância.
– Hoje você aprendeu que ninguém morre por causa de um não, Rui. De todas as lições que você anda aprendendo e ainda vai aprender, essa é a mais importante.
Nesse momento o celular de Rui tocou. Era Vanessa. Seu coração disparou. Já estava quase apertando a tecla para atender quando viu a mão fantasmagórica de Luiza sobre a dele, num claro movimento para evitar que atendesse. Olhou para ela, que retornava o olhar com o senho franzido naquela testa azulada. A mensagem era clara. Nada de sentimentalismos. Rui precisava se tornar um conquistador frio, mais gelado que a pele de Luiza devia estar dentro do caixão. Luiza deu dicas que iam além do embate homem-mulher. Orientou Rui em outros aspectos que sempre podiam ajudar na hora da conquista como um corte de cabelo que tinha mais a ver com seu rosto e também as roupas para ele vestir, dependendo do lugar a ser frequentado. Numa das noites, Rui teve uma revelação. Era uma balada com muitos pós-adolescentes. Ali, os sinais pré cópula eram tão claros que chegavam a ser assustadores. Meninas se beijavam, suas roupas ressaltavam as partes do corpo mais tentadoras, o que, naquela idade, poderia ser qualquer parte do corpo. Parecia uma orgia romana, só que com som tecno. Luiza tinha dado uma missão para Rui. Ele teria que sair dali com duas garotas e ir para o apartamento com elas. A missão parecia instransponível. Era mover a muralha da China. Mas, depois do incentivo de Luiza e de dois Dry Martinis, aliás muito bem preparados, a muralha da China transformou-se em muro de Berlin, para depois se transformar em muro do condomínio para, finalmente, se transformar em cerquinha branca. Daquelas vazadas e muito fáceis de transpor.
Não foi nada difícil, já que o ambiente ali era propício. Rui saiu de lá com duas amigos muito imbuídas. Uma delas, já no carro, estendeu-lhe uma pílula de cor azulada. Rui ficou encarando a menina, tentando entender se a mensagem que ela estava passando era: toma esse Viagra, tio. Ela notou aquela expressão de desconforto no semblante de Rui, olhou para a amiga e as duas caíram em uma gargalhada estridente.
– É Extase – falou e aproximou a boca no meu ouvido, completando em um sussurro de arrepiar o corpo inteiro – eu sei que você vai dar conta da gente.
Luiza estava entre as duas, mas claro, só Rui percebia. Ela lambia os lábios com os olhos semi cerrados, mas deixando escapar um sorriso maroto. Os feromônios naquele carro estavam saindo pelas janelas.
Em outra noite Rui saiu com Lucio e Luiza deu-lhe uma outra missão. Propor a Lucio uma aposta. Os dois iriam entrar no clube, dar uma geral e escolher uma vítima que os dois iam tentar levar para a cama.
– Rui, eu não quero levar o seu dinheiro assim, fácil.
– Estou generoso, Lucio. Vai topar ou vai fugir.
– Bom, o dinheiro é seu.
Escanearam o ambiente como duas águias a procura de um coelho perdido. Encontraram uma morena estonteante que ocupava uma mesa com mais duas amigas. A aposta era simples, até. Quem obtivesse sucesso, teria a conta paga pelo outro. Os dois partiram para o ataque cada um a seu jeito. Luiza ficou observando, como quem assiste uma decisão de campeonato pela televisão, mas, não deu dica sequer para Rui, embora ele tenha tentado trapacear uma ou outra vez olhando para ela com expressão de gatinho perdido. Ela teve que resistir aquela carinha, que sempre foi o forte dele para conseguir as coisas. Aguentou firme. Rui tinha que vencer Lucio sozinho. E foi o que acabou acontecendo. Rui pegou a morena, Lucio pagou a conta.
Ma a noite mais curiosa acontece em um outro bar, no happy hour. Rui estava brindando com Murilo, Carlos Alberto e Leandro, quando percebeu uma mulher que não tirava os olhos dele. Mas, ao contrário do clima normal em um bar como este, os olhares não tinham nada a ver com sedução ou jogo de conquista. Apesar de linda, a tal mulher que não tirava os olhos parecia apreensiva. Fez sinal com a cabeça para encontrá-lo num canto do bar e se dirigiu para lá. Rui, que nas últimas duas semanas já tinha visto de tudo, decidiu que aquela seria mais uma experiência muito interessante da sua recente vida sexual ativa. Parou na frente dela, impostou a voz.
– Oi, tudo bem? Você queria falar comigo?
– Olha, eu sei o que você está pensando – falou nervosa. – E eu até sairia com você fácil, fácil que você é um tesão e ainda tem charme saindo pelas orelhas.
– Foi o elogio mais sui generis que eu já recebi. Obrigado. Mas por que o verbo sair assim, na condicional?
– Por que eu sou médium. E estou vendo essa mulher que está atrás de você.
Rui virou-se para onde os olhos da apavorada mulher apontavam e deu de cara com Luiza. Ele voltou para a mulher.
– Ah, não! – A mulher dá-se conta de tudo. – Você sabe, você está vendo ela. Não está?
– Claro que não, imagina. Mulher atrás de mim? Eu hein?
– Bom, eu não sairia com você daqui nem que me pagassem o prêmio da mega sena. Mas é bom que você se livre dela.
– Já falei, não tem mulher nenhuma aqui.
– Ah é? E porque você apontou bem pra ela quando falou “não tem mulher nenhuma aqui”, hein? – Desafia.
– Ué, porque você estava olhando para essa direção. E qual o problema dessa mulher que você está vendo
Ela se aproxima de Rui sussurra, como quem conta um segredo
– E ela tem uma aura vermelha. Auras vermelhas não são um bom sinal.
A mulher saiu em passos rápidos agarrada à bolsa sem olhar de volta, deixando Rui para trás como se ele estivesse com alguma doença altamente contagiosa.
(continua)