Rui empurra o carrinho disfarçadamente, indo em direção a Vanessa. Ela está escolhendo vinho. Ele para ao lado dela e, a pretexto de iniciar uma conversa, resolve perguntar.
– Você sabe onde ficam os Argentinos?
Ela olha para ele, que retribui o olhar. Eles ficam como dois cachorros, se olhando. Mais um pouco passariam a se cheirar. Ela achando aquele rosto familiar. Ele, fingindo a mesma coisa. Depois de alguns segundos ele aponta pra ela e, com uma expressão de quem foi buscar no fundo da mente algo importante, falou.
– Vanessa?
– Chewbacca?
Mencionar o nome do personagem peludo de Guerra nas Estrelas foi uma ironia cruel. Mas, ao invés de acusar o golpe, Rui percebeu que aquele era o momento de ser homem que tem charme. O homem que ele queria ser. O melhor jeito era não se levar a sério. Decidiu agarrar a ironia e virar o jogo.
– Bom, pelo menos não me chamou de Jabba The Hutt.
Ela sorriu. Ponto.
– Como vai você? Vendo muitos filmes com discos voadores?
– Tá, eu mereço – ele concorda fingindo resignação. – Mas eu devo uma explicação. Pra mim mesmo. É que aquele dia eu estava irritado, porque o Lucio queria a todo custo me empurrar pessoas do sexo oposto. Eu tinha perdido a minha esposa faziam apenas 10 dias. Eu falei aquilo justamente para afastar vocês e pra deixa ele irritado.
A mentira soou tão coerente que até Rui passou a acreditar piamente no que disse. Vanessa tinha caído na conversa, era óbvio pela expressão em seu roto. Ele voltou para o jogo.
– Puxa, não sabia.
– É, quando a gente está frágil emocionalmente, faz bobagens. Aquele não era um dia para estar naquele ambiente. Mas, mudando de assunto, você mora por aqui?
– Na rua das Caldeiras.
– Quem diria, fica há dois quarteirões do meu prédio. Eu moro na Pirápolis.
– Nossa, era meu sonho ir morar lá. Aquelas paineiras nos dois lados da rua fazendo aquele túnel verde sempre me encantaram.
– Ué, e porque não vamos juntos pelo túnel verde? Não me diga que tem compromisso?
– Não, eu ia beber um vinho e ver televisão.
– Proponho uma troca para um bom papo e um Dry Martini. O meu é impecável. Eu mereço uma segunda chance, vai?
– Perfeito
Luiza fazia sinal com os polegar para cima. Rui tinha sido aprovado com louvor no teste. Mas o que Luiza pensava não era mais importante do que ele mesmo pensava. A sensação de auto suficiência que sentiu naquele momento era algo que jamais pensou sentir. Era o campeão do mundo. Erguia um troféu em frente a um estádio repleto de aplausos e ovações. Estava se tornando aquilo que havia se proposto. Com uma ajuda substancial da última pessoa, quer dizer, alma, que poderia esperar.
-x-
Rui chegou em casa e tomou um banho rápido. Colocou as compras em seus lugares, deixando de fora apenas os ingredientes para preparar um croque monsieur para o jantar. Quando já estava com tudo preparado, a campainha tocou. Ele atendeu já com uma taça de Dry Martini suada na mão. Assim que abriu a porta, o perfume de Vanessa misturou-se com o da bebida. Era aquele aroma agradável de banho recém tomado, que se somava ao do “melhor drink da história da humanidade”. Prenúncio de uma noite e tanto. Os cabelos negros de Vanessa agora estavam como na noite em que Rui a conheceu, presos convergindo para um elástico na extremidade do cumprimento, caindo pelo ombro esquerdo. Os olhos levemente puxados em harmonia com as sardas do rosto faziam-na pareciam uma pintura. O sorriso era suave, praticamente um carinho. Trajava um vestido leve, com alças onde não se via indício que fosse de um soutiein. O bico dos seios apontavam para ele como que dizendo: é você que eu quero. Ele também queria.
-x-
Quando o despertador tocou, Rui estava acordado, havia um certo tempo. Os perfumes de Vanessa – o artificial e os naturais – impregnavam os lençóis. Era uma sensação delirante levantar assim. Ele a viu sair, tentando não acordá-lo. Já era dia claro. Ele fingiu que dormia profundamente e, com a pálpebra milimetricamente aberta, pode ver o ritual que era ela se vestindo. Tão sensual quando o despir. Deixou-a ir para sua casa fazendo-a acreditar que obtivera sucesso em não acordá-lo. Antes de passar pela porta do quarto, olhou para ele. Rui fechou os olhos e fingia respirar profundamente. Ele não viu, mas podia ter certeza de que ela abrira um sorriso antes de girar o corpo e se dirigir para a casa dela. Aquilo tinha acontecido a mais ou menos uma hora atrás. Ele levantou e, saltitante, foi para o banho, que durou cinco minutos. Voltou do banheiro com a toalha presa a cintura. Um cheiro agradável de café recém passado abraçava o apartamento inteiro. Dona Dalva já tinha chegado. Seu olhar encontrou o celular jogado na poltrona que ficava no canto do quarto. Foi até lá, pegou o celular. Encarou-o por alguns segundos e começou a procurar o endereço e o nome der Vanessa na sua agenda. Sua busca foi interrompida pela voz de Luiza, vinda das suas costas.
– O que o senhor pensa que vai fazer?
– Caramba, Luiza ! Você quer que eu me junte a você? Meu coração quase sai pela boca.
– Desculpa, mas enfim, o que você pretende fazer com este celular?
– Vou ligar pra Vanessa.
– E por que?
– Pra saber como ela está, entende? Ouvir a voz dela, ela ouvir a minha, deixar mais um clima no ar.
– Nem pense nisso.
– Mas Luiza, você é mulher. Rolou um clima legal aqui ontem.
– Eu imagino que tenha rolado, mas ela já é passado. Temos outros objetivos.
– Temos?
– Você tem. Você prometeu que ia ser aquele “homem póstumo”, lembra?
– Eu sei, Luiza. Eu disse, mas foi um momento de raiva.
– Mas nem sempre a raiva é má conselheira, Rui. Antes de se engatar em outra mulher, você precisa ter as experiências que jamais teve. Essa Vanessa foi a segunda que você pegou. Há muito o que fazer ainda. Muitas mulheres sedentas por sexo sem compromisso. Deixa a Vanessa pra la. Vamos partir pra outra conquista. Você tá esquentando, Rui.
– Mas, Luiza, dar uma ligada não é tão grave assim. É pra demonstrar atenção. Parece falta de princípios a gente deixar de contar pra ela que eu achei a noite de ontem muito bacana.
– Rui, quem gosta de princípios nunca chega aos fins. E é nisso que tempos que nos concentrar.
Rui ficou encarando o fantasma da mulher, que o encarava de volta com uma expressão grave. Ele relaxou o corpo.
– Tá bom, Luiza. Você tem mesmo razão.
– Bom, dito isso, está na hora de partirmos para a caça.
– Do que estamos falando?
– Nas próximas duas semanas, vamos estudar a fundo aqueles sinais que mostrei quando a Karen estava falando com você na cozinha do sua firma.
– Nós vamos?
– Vamos para os bares e você vai treinar a sua observação. Vai por em prática o que aprendeu e, através da sua perspicácia, vai trazer mulheres para o seu pequeno matadouro aqui.
– Luiza, pelo amor de Deus, esse já foi o nosso quarto.
– Sem sentimentalismos, Rui. Está na hora de você se Don Juanizar. É pra isso que estou aqui.
Rui apareceu na cozinha e a mesa estava posta. O café na térmica, um copo de suco de laranja com gelo e duas torradas de pão integral. Ele sentou-se a mesa e passou a beber o suco e digerir as torradas e também as palavras de Luiza. O que ela falou fazia todo o sentido. Não era hora de se amarrar em alguém. Se ele adiantasse o processo e se deixasse apaixonar por alguém sempre haveria uma voz em sua mente lembrando que ele podia ter aproveitado mais a solteirice com que as circunstâncias funestas o haviam presenteado. Foi interrompido por dona Dalva.
– Tudo bem com o senhor, seu Rui?
– Tudo, dona Dalva, por que?
– Porque eu posso jurar pela minha mãe morta que o senhor estava falando sozinho lá no quarto.
– Era o celular.
– O senhor conhece outra Luiza?
– Não, por que?
– Porque eu ouvi o senhor falar o nome Luiza, duas vezes.
– Juíza, dona Dalva. Eu estava falando com uma juíza, que está julgando um caso lá da corretora.
– Ah, certo! – alivia-se. – Acho que o meu ouvido ta cheio de cera de novo. Vou ter que voltar no posto de saúde fazer uma limpeza. Da última vez saiu cada naco, seu Rui, marrom como essa torrada aí. Dá licença, viu?
Rui olhou para a segunda fatia de torrada na sua mão. Desistiu. E foi trabalhar.
(Continua)