O Fantasma de Luiza – Capítulo 9

No elevador

Voltando do almoço, Rui encontra Lucas, o office boy, no elevador. Amante do rock’n roll, principalmente das bandas dos anos 70, década em que ele nem pensava em nascer. Quando abria a boca para falar, o contraste entre sua linguagem a sua figura de cabelos longos, camisas pretas com logo de bandas de rock e tatuagens, era sui generis. Lucas fazia uso de termos antigos e alguns até arcaicos.O motivo era bem simples: um roqueiro criado pela avó, uma revisora de livros, com quem aprendeu a usar tais termos com muita propriedade. Naquele dia ele entrou no elevador e estava todo de preto com uma expressão triste.

–       Meu Deus, Lucas. Morreu alguém?

–       Hoje está fazendo 33 anos que John Bonham, o maior baterista de rock de todos os tempos, faleceu. Estou assim, enlutado, em homenagem a este músico supimpa.

–       Entendo.

–       Mas, mudando de assunto, seu Rui, não pude deixar de perceber que dona Karen estava conversando consigo na cozinha. Ela parecia assas interessada.

–       Será que aquilo tudo é mulher pra mim?

–       Aquele broto é uma quimera, seu Lucas. Já pensei em diversas ocasiões em ir ter com ela e abrir meu coração.

–       Coração? Não seria o seu zíper?

–       De fato, seu Rui. Mas cadê a coragem? Fico procurando estratagemas para conversar com aquela deusa. Outro dia consultava meus botões sobre o que Mick Jagger diria a ela para leva-la para a alcova?

–       Provavelmente nada, Lucas. Afinal ele é o Mick Jegger.

Neste momento, a porta do elevador abriu-se e Rui seguiu em frente, deixando Lucas embasbacado com sua observação. O garoto, olhava para ele se afastando e apenas balbuciou um elogio para ele mesmo.

–       Quanto tirocínio!

-x-

À noite, Rui está confortavelmente instalado na sua poltrona preferida enquanto saboreia o seu infalível Dry Martini. Jogada no sofá de três lugares, Luiza, em roupas esvoaçantes, conversa com seu ex-marido.

–       Toda vez que eu penso nisso fico embasbacado.

–       Nisso o que, Rui.

–       Eu conversando com um fantasma. E logo o seu fantasma. E ainda por cima, já achando isso normal. Será que você está aqui?

–       Você não comeu aquela menina do bar? A primeira depois de mim?

–       É, foi o que aconteceu.

–       Então, acredito que sim, então isso indica que eu estou aqui.

Rui bebe um gole da sua bebida predileta, engole, soltando uma baforada de ar embebida em álcool.

–       Não sei como você gosta tanto disso.

–       Você sabe como o Dry Martini foi criado?

–       Guarde esta história cheia de charme e glamour para as próximas mulheres que você vai querer trazer ali para dentro – ela indica o quarto com um movimento de cabeça. – Queria saber o que você achou da aula prática na cozinha hoje.

–       De longe, a mais esquisita que já tive.

–       O que eu quero saber é se você aprendeu todos os sinais aparentes de que uma mulher quer dar pra você.

–       Seria meio difícil esquecer depois do jeito peculiar com que você explicou.

–       E então?

–       Fiquei tão animado que estou pensando em levar a Karen para um “ almocinho executivo” – faz aspas com os dedos indicador e anelar das duas mãos nessa parte – Que tal?

–       Almoço sim, mas nada de levar ela pra cama.

–       Como assim? Não é justamente pra isso que você está aqui?

–       Rui, por enquanto vamos nos concentrar na conquista. Quero ver você totalmente seguro.

Ela pensa um pouco antes de seguir falando, como que medindo o que vai dizer.

–       Não leve a mal, mas suas habilidades na cama são, como eu diria, satisfatórias. Como de resto, muita doçura, muito carinho, o que não é de todo mal.

–       Então, qual o problema?

–       Rui, a sua falta de safadeza é algo que precisamos corrigir . Do jeito que está não vai haver grandes problemas quando se tratar de mulheres que você não vai mais encontrar. Mas quando se trata de uma colega, aí a coisa muda de figura.

–       Mas qual o problema com isso?

–       Rui….Ruizinho…você faz ideia de uma foda mal dada com uma colega de trabalho? No outro dia, o escritório inteiro vai saber o que ocorreu. Principalmente a mulherada. Isso também vale para uma bem dada. Uma boa fama, com uma mulher como Karen, pode acabar rendendo mais uma, duas ou sabe-se la quantas nov as fodas.

–       Você está me dizendo que…

–       Que a buceta da Karen é a fechadura de uma porta de prazeres. E o seu pau, língua, ou seja la o que passar pela sua cabeça, são as chaves.

–       É verdade! – Impressiona-se.

–       Você tem que pensar com cabeça de safado na hora de comer alguém. Assim como um gordo pensa com cabeça de gordo quando faz um sanduíche. Mas o almoço com a Karen amanhã vale a pena. Para testarmos o nível de safadeza dela.

–       Qual a ideia?

–       Provocar ainda mais. Essa aí, merece.

Após aquela conversa e mais alguns Dry Martinis, Rui teve uma noite agitada.  Um sonho muito estranho, daqueles que deixam uma impressão encravada na alma. Começava com ele fora do seu corpo, assistindo a a si mesmo em desempenho sexual com Luíza. Como um Imperador Romano, o Rui fora do corpo esticava o braço e fechava os dedos da mão exceto o polegar, que ele virava para baixo, em sinal de desaprovação ao seu desempenho sexual pífio. Luiza então se transformava em um leão e começava a devorá-lo. Acordou encharcado. E não conseguiu mais pegar mais pegar no sono. Permaneceu deitado, olhando as sobras no teto do quarto, provocadas pela luz indireta dos postes da rua que entrava pela janela. Pensou em Luiza. De alguma forma, desejou ter ela ali naquele momento.

No elevador

No dia seguinte, rui entra no elevador, e encontra Godoy lá dentro. Este era um corretor experiente, mas tinha pouco estômago para o jeito que as coisas eram feitas nos dias atuais. Acabou sendo demitido, para que pudesse dar lugar a gente mais jovem, com perfil mais agressivo e com salário menos agressivo.

–       E aí Godoy, como vão as coisas?

–       Agora estão melhores, Rui. Mas eu é que pergunto, e você, como tem passado depois do…do…?

–       Da morte da Luiza naquelas circunstâncias? Agora estou bem.

–       Isso, meu amigo. Perdoar a Luiza é o melhor que você faz. Senão, ela vai ficar sempre aqui, presente. E isso não é bom.

Rui sorri.

–       Eu vim buscar algumas coisas que deixei na gaveta. Pensei em vir no sábado pra não encontrar ninguém. Mas de repente lembrei que sempre tem meia dúzia de abnegados que não têm uma vida fora daqui. Esses tipos para os quais eu acabei perdendo o emprego.

–       Eu senti muito que você tenha ido embora. A gente nem falou direito sobre isso, não é?

–       Eu sei, mas você tinha suas razões.

–       Você faz falta por aqui. Foi o Osvaldo que demitiu você?

–       Ahã…falou de como estava sentido, de como eu era importante, que a minha experiência era um “asset” para a empresa…

–       Ele adora colocar termos do técnicos até em declaração de amor.

–       Pois é. Enfim, ele disse que eu seria uma perda irreparável, mas que era preciso conter alguns custos e que a escolha por mim não passava por ele.

–       Sério? Ele não podia fazer nada, coitado.

–       Já reparou uma coisa, Rui? O momento em que o seu superior mais elogia você é quando ele está te demitindo?

A porta do elevador abriu e o som frenético do dia de trabalho invadiu o cubículo. Despediram-se com um aperto de mão apertado e se dirigiram para lados opostos. Rui foi até a cozinha, serviu café em uma caneca e dirigiu-se até o seu posto bebericando alguns goles da bebida quente. No caminho passou pelo posto de Karen que falava com um cliente ao telefone. Também viu Luiza, que estava abraçando Karen por trás e acariciando os seios dela com suas mãos translúcidas. Luiza lambia os lábios com os olhos semi cerrados. Ao ver que Rui quase se engasga com o café soltou uma gargalhada. Ele apressa o passo e chega até o seu posto. Luiza já estava lá, ainda rindo.

–       Não tem graça.

–       Rui, mulher gosta de bom humor. Você é muito coxinha.

–       Fazer o quê?

–       Estamos trabalhando nisso. Escuta, eu tive uma ideia.

–       Que ideia?

–       Almoço executivo.

–       Como?

–       Você vai convidar a Karen para almoçar hoje.

–       Vou?

–       Vai. Vai fazer uma espécie de bolinação mental. Vamos dar mais um passo na direção dela, fazer com que ela não só te deseje. Mas que ela clame desesperadamente por você. Vai manda um convite pra ela.

Rui passa a teclar no chat interno. Escreve e apaga algumas vezes até conseguir escrever uma frase inteira. Antes de enviar o texto para Karen, Luiza pede para ler.

–       Cassete, Rui mas que merda é essa?

–       Um convite, oras.

–       “Oi, Karen. Eu estava pensando que se você não tivesse nenhum compromisso hoje ao meio dia a gente poderia almoçar para conversarmos mais sobre aquilo que você me falou na cozinha outro dia. Mas se não puder, tudo bem, marcamos outro dia”

Ela leu e voz alta fazendo uma voz de pessoa insegura.

–       Para de debochar.

–       Rui, isso não é um convite para uma mulher daquelas. Isso é um lamento. Ela não vai nem a um buffet infantil com você depois de ler isso. Talvez a uma igreja.

–       Porra, Luiza! Eu te falei que eu estou longe de ser um Don Juan.

–       Longe? Você está a anos luz. Milhares deles. Deixa que eu escrevo. Vê se aprende o que uma mulher quer ouvir…ler.

Ela digitou rapidamente e mostrou pra ele.

“ Vamos continuar aquele papo na cozinha num lugar melhor. Almoço hoje? O lugar melhor, eu escolho.”

–       Sei não, Luiza. Isso ta soando meio arrogante…

Antes de terminar a frase, ela enviou para Karen.

–       Caramba Luiza, você enviou. E agora? Ela vai achar que eu sou metido. Imagina quantos desses ela recusa. Garanto que ela não vai nem responder…

O computador emite um som eletrônico seco.

“Estou em suas mãos. Encontro você no estacionamento, as 12:15. Bj”

Os dois foram para um restaurante completamente fora da área comum. Rui, obviamente, não queria ser visto com a colega para não inspirar comentários frívolos no ambiente de trabalho. Karen parecia estar se divertindo com esse jeito discreto de Rui.

–       Você se importa que eu seja direta, Rui?

–       Não.

–       Eu cheguei a pensar que você talvez fosse me levar para outro tipo de lugar.

Luiza materializa-se ao lado dele, muito atenta.

–       Ela esta te testando. Vamos ter umas aulas de cinismo.

–       O que? – Rui já tinha aprendido a falar em pensamento com Luiza.

–       Seja cínico, vai por mim. Inventa alguma desculpa. Sugestão? Me usa.

–       Sabe de uma coisa, Karen – começou com confiança . –  Eu também pensei. Mas ainda estou lambendo algumas feridas. O trauma foi grande.

–       Não é o que se fala lá no escritório.

–       Ah, os boatos de que eu saí do bar com uma loira. O Murilo quer me ajudar a todo custo. Acha que um pouco de fama vai me fazer bem.

–       Bom, ele tem razão. Para um grosso como ele, o pensamento foi muito lógico.

–       É, mas não foi bem assim.

–       E quando você acha que pode ser bem assim?

Ele sentiu a perna dela roçar na sua por debaixo da mesa. E foi com essa pergunta no ar ainda sem resposta que o garçon apareceu.

–       Querem entrada?

O almoço seguira cheio de insinuações e metáforas cheias de safadeza mas, segundo as palavras de Luiza, o objetivo tinha sido cumprido. Karen tinha saído do encontro com uma vontade dobrada de levá-lo para a cama. O jogo de vai e vem que Luiza propunha ia provocar um desejo ainda maior em Karen. Era certo, ela era um fantasma que sabia o que estava fazendo. O almoço acabou e o desejo era notório na expressão de Karen.

“Ela ta molhadinha, Rui. Mas hoje, ainda não.”

-x-

No final do expediente, Rui nega o convite para um happy hour com os amigos.

–       Caramba, de novo, Rui?

–       Até parece que a patroa voltou.

–       Nada disso. Só estou com uns planos aí.

–       Opa, o garanhão já se arrumou.

Sabia que largar uma meia verdade com um tom misterioso no ar iria aquietar os seus colegas. Rui estava com vontade de ficar em casa naquela noite. No caminho, resolveu passar no supermercado. Tirou do bolso a lista que dona Dalva havia escrito. Pegou um carrinho para compras médias e passou a explorar aquele mundo de rótulos coloridos e corredores insondáveis. Parado em frente aos detergentes, Rui não conseguia se definir. Havia todas as opções, com cheiro de pinho, lavanda, flores do campo, para gordura mais pesada, o único com Rimbil Ativo. O excesso de opções era irritante. No final, pegou dois potes usando como critério para a sua escolha a cor vermelha do líquido, sua preferida. Quando virou para o lado, para procurar o ilustra móveis  (segundo a grafia de dona Dalva) percebeu uma figura familiar ao fundo do corredor. Apertou os olhos tentando lembrar-se de quem se trava. Luiza apareceu do nada e quase matou Rui do coração.

–       É a arquiteta do bar. Aquela que você achou exótica.

–       Vanessa! – Lembra-se num lampejo. – Será que ela mora por aqui?

–       Rui – alegrasse Luiza. – Temos uma oportunidade.

–       Ah, não. Imagina, ela pensa que eu sou um nerd completo. No máximo vai pedir pra eu dar uma olhada no computador dela que ficou lento.

–       Não. Hoje você leva essa pra cama.

–       De que jeito.

–       Você conseguiu ser cínico hoje na hora do almoço. Vai la e seja outra vez. Mais uma vez, me usa. Pode me esculachar, acabar com a minha raça. Mas leva esta mulher pra cama.

–       Será?

–       Eu confio em você. Vou estar por perto se precisar.

(continua)


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