Já tinham perdido a conta de há quantos anos faziam aquilo. E, convenhamos, era gostoso perder a conta das coisas, desde que se perdesse a conta junto com quem se ama. Seu Ariovaldo e dona Nina, dona Nina e seu Ariovaldo, pontualmente entre as nove e as nove e quinze, dependendo do horário que a novela começasse, sentavam-se no sofá, davam-se as mãos e olhavam para a tela da televisão. A novela das oito, que há algum tempo – disso eles também perderam a conta – já não começava mais no horário que a define.
Tudo parece um tanto automático. Assim que começam as cenas do capítulo anterior, seu Ariovaldo toma o controle remoto na mão direita , aponta para o aparelho de tv e aumenta o volume. Dona Nina já não tem mais os ouvidos aguçados de outrora. Desde…bem, eles perderam a conta também.
Ao fazer isso, seu Ariovaldo faz uma careta. Uma careta que mostrava incômodo.
– Ariovaldo, está tudo bem, meu velho?
– Claro, Nina. Por que pergunta?
– Você fez cara de dor.
– Ah, uma dorzinha aqui no braço. Mas eu preguei a prateleira da cozinha, lembra? Meus braços já não são os mesmos.
Eles também já tinham perdido a conta do quanto os braços do seu Ariovaldo pregavam, serravam, colavam, pintavam e construíam coisas aos montes. Muito do que estava naquela casa era obra daquele homem.
Agora, a novela entra no seu capítulo atual. A mocinha, coitada, pensa que o irmão lhe quer bem, mas este não cansa de infernizar a vida dela pelas suas inocentes costas. Este é o momento em que a dona Nina perde a compostura e emenda palavrões que, de fato, já nem parecem palavrões.
– Este safardanas, sacripanta.
– Calma, Nina.
– Olha, tomara que a irmã descubra e mate este lambe cus. Ela pode matar este que Deus perdoa.
Dona Nina usava constantemente esta frase, dita sempre com os dentes cerrados. Pois foi acabar a frase que entraram no ar os comerciais. E, como acontece em todos os comerciais, o volume é sempre muito mais alto do que o da novela. E, como se ainda não bastasse, o primeiro comercial que foi ao ar naquele momento era o das Casas Imbatíveis, em que o locutor berrava os preços e barulhos de carimbo e explosões espocavam a cada splash de preço e de condições imperdíveis de pagamento. Entrou tão sem aviso, que descobriu-se o porque da dor no braço do seu Ariovaldo. O coitado, com o susto, teve uma síncope ali mesmo. Morreu com a esposa a tentar desesperadamente salvá-lo com palavras. Antes de ir desta para melhor, teve tempo de ouvir as ultimas palavras que vinham do alto falando da t.
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