O Fantasma de Luiza – Capítulo 7

Rui olhava para Karen com uma expressão desconcertada. Pelo menos era isso que Karen estava pensando. Na verdade, Rui não sabia o que pensar da situação.  Ver a miss escritório, para a qual ele nunca deu lá muita bola, ao lado da razão pelo qual ele nunca deu muita bola. O espírito de Luiza fazia um acurado exame em Karen, como um mecânico cuidadoso que examina um motor parafuso por parafuso.

–    Rui, eu sei que a gente mal se fala, por razões que eu nem entendo. Mas eu só queria dizer que estamos muito felizes por saber que você está se recuperando.
–    Obrigado.

O agradecimento veio tímido, quase um gemido amedrontado, que mais uma vez foi mal interpretado por Karen, que entendeu aquilo como o efeito que uma mulher como ela causava sobre qualquer homem. A verdade é que a reação de Rui tinha era fruto de uma causa totalmente diferente.  As caretas que Luiza fazia ao analisar Karen. O espírito estava se divertindo com a situação.

–    Eu não consigo saber o quão profunda é a dor de perder alguém que a gente ama tanto, principalmente nas circusntâncias em que aconteceram. Eu sempre achei você um cara muito discreto, um ótimo profissional, diferente de todos, por isso mesmo…

O que Karen disse daí por diante foi sumindo lentamente, ficando distante, até o momento em que Rui percebia os lábios de Karen se movendo mas nenhum som saindo deles. Ao lado dela, Luiza passou a opinar sobre a mulher em modo mute a sua frente.

–    Rui, aqui está uma aula prática de sinais que mostram, uma mulher que quer dar pra você. Senão, vejamos. Ela desabotoou mais um botão da camisa.

Luiza aponta para o colo dos seios de Karen como se fosse uma professora mostrando aos alunos uma equação na lousa.

–    Se você fosse perspicaz, iria notar isso, pois pelo que sei ela deixa dois botões livres e não três como vemos aqui. Não creio que isso seja um acidente. Essa mulher é muito consciente de tudo o que faz. Em segundo lugar, olha como ela mexe nos cabelos. Não pára. Não sei se você sabe, mas isso tem dois aspectos muito importantes para serem analisados. O primeiro é que mexer constantemente no cabelo é o equivalente a um pavão abrindo a cauda. O segundo é que o movimento do braço evidencia o volume dos seios, que, aliás – nesse momento Luiza aproxima os olhos do colo dos seios de Karen –  são naturais. E bem interessantes.

Rui permanece lívido, olhado aquela cena insólita enquanto Karen, alheia ao fato de ser objeto de estudo, continua falando, sem que ele ouça palavra sequer. Luiza continua. Agora, aponta os lábios de Karen.

–    Notou s língua passando nos lábios? Ela umedece os lábios vez por outra, o que é um claro sinal de sedução. Agora olhe o pé esquerdo. Notou? Ela fica brincando com o sapato, fazendo o calcanhar entrar e sair dele. Isso é outro sinal evidente do desejo que ela tem de que você a leve para um “almoço executivo”.

Ao falar esta última frase, Luiza sinaliza aspas imaginárias usando os indicadores e anelares de cada mão.

–    Conclusão, você pode comer ela aqui nessa mesa. Agora, se quiser. Fim da aula.

Luiza desaparece, lentamente na mesma proporção que a voz de Karen aparece e vai aumentando de volume até voltar ao normal.

–    …bem, era isso que eu queria te dizer. Fique a vontade para falarmos sobre isso o quanto quiser. Eu estou sempre a disposição.
–    Ah…sim. Obrigado, Karen.

Karen virou-se e saiu andando. Rui permanece na mesma posição, encostado no balcão, olhando para ela enquanto partia, ainda digerindo aquela aula prática ao mesmo tempo em que observava os movimentos ondulantes dos quadris da colega. Não tinha ouvido coisa alguma do que Karen havia dito. Mas o que importava não era o que ela havia falado, mas o que ele não teria percebido se não fosse a aula magistralmente ministrada por Luiza. Começava a ter menos resistência em relação ao fantasma de Luiza.

(continua)


Leave a comment