O Fantasma de Luiza – Capítulo 6

Dona Juliana, sua mãe entra e, no segundo que passou para dentro do quarto, estacionou ao ver o filho nu,  barriga pra cima e a mulher ao lado dele, também nua, de barriga par baixo. Lençol cobrindo os dois? Não. Dona Juliana, surpreendida pela cena, solta um grito. Marina acorda de um salto e também grita. Rui olha para algo que chama a sua atenção num dos cantos do quarto. Luiza, transparente como sempre, retorcendo-se de tanto rir da cena.

–       Mãe, pelo amor de Deus, a senhora não pode entrar assim na casa dos outros.

Pondera Rui, já na sala e vestido, para a mãe que mostra total desconforto.

–       Ruizinho, você não é “outros”.  Você é meu filho. Um filho que não tem modos.

–       Como assim, não tem modos?

–       Então eu entro até a sua casa e pego você com uma mulher na cama? Onde ja se viu.

–       Mãe, vamos ser sinceros, poderia ser bem pior. Imagina se fosse um homem em vez desta mulher.

–       Eu não admito que você caçoe da sua mãe desse jeito…

Neste momento, uma descabelada Marina, enfiada em um vestido completamente amassado e com os sapatos na mão, passa na pelos dois.

–       Marina, espera. Eu te levo.

–       Não eu pego táxi.

Ela saiu assim que terminou a frase, pretendendo nunca mais voltar.

–       Pelo menos ela tem um pingo de vergonha, coisa que você, com suas piadotas, parece ter perdido.

–       Mãe, eu tenho que seguir em frente. A senhora, inclusive, deveria estar contente. Isso é sinal que eu estou me recuperando, não acha?

Dona Juliana ficou em silêncio, digerindo aquelas frases que eram de uma lógica esmagadora. Depois de alguns segundos, abraçou o filho. Que meio abafado pelo ombro da mãe ainda falou.

–       Agora, ou a senhora me dá essa chave, ou eu troco a fechadura.

No elevador

Rui entrou no elevador para subir até o seu andar e la estava Ramalho, excitadíssimo.

–       Ah, Rui, era com você mesmo que eu gostaria de falar.

–       Quanta alegria, Ramalho. É bom ver gente feliz assim em plena segunda.

–       Ta brincando? – Ele abre um sorriso de criança –  Hoje não é qualquer segunda. Estou indo para a reunião com o pessoal de relações externas, para abordarmos o plano de ação da semana. Depois vou para a reunião de operação interna. A tarde, vamos nos reunir a partir das quatorze e trinta para a reunião de follow up da reunião de sexta-feira, aquela sobre abordar os nosso clientes mais agressivamente. E como você participou dessa, quero você lá.

–       Mas Ramiro, ninguém teve tempo de implementar abordagem nenhuma de sexta pra hoje. Teve um final de semana no meio, lembra?  E depois, se eu passar duas horas numa sala de reuniões, como é que eu vou implementar as novas abordagens?

–       Todos nós temos que passar por isso. São os ossos do ofício. Eu também não vou ter tempo pra tudo. Mas veja o lado bom. Eu, você, Murilo, Leandro podemos ficar a noite trabalhando, pedir pizzas. Os bravos mandando ver. É excitante, você não acha?

Ramiro pega o seu iPhone e vai direto para o aplicativo de notas.

–       Você já pode ir me dizendo qual o sabor da pizza que vai querer. Anoto aqui e já vamos ganhando tempo.

–       Alho poró. Sem bacon.

Ramiro sai exultante do elevador. Ele para e vira-se para Rui, que o fitava com certa consternação.

–       Alho poró tem hífen?

Rui entrou no salão dominado por computadores e logo percebeu uma mudança no jeito que todos o encaravam.  Assim que deu os primeiros passos fora do elevador, notou a diferença no ar. Dona Ruth, secretária do Vice-Presidente, passou por ele, e o cumprimentou com um sorriso um tanto maroto. No caminho para a sua mesa, notou certos olhares furtivos, outros de esguelho e até um ou outro sorrisinho propositalmente mal disfarçado. Foi sentar na sua mesa e ligar o computador para logo receber uma mensagem de Murilo, via chat interno. “Provou outra comida além de tomate, hein, garanhão?”. Estava na cara. Todo o escritório já sabia que o fidelíssimo marido e agora viúvo cornudo tinha, finalmente, se livrado da tristeza e partido para a recuperação.

“Cacete, Murilo. Vocês não espalharam pra todo mundo que a Luiza tinha sido a única mulher da minha vida, né?”, responde Rui.

“Eu tenho a boca meio suja, mas pra fofoqueiro eu não sirvo. E garanto que os outros também não falaram sobre isso. Mas, que a gente comentou que você saiu ontem do bar muito bem acompanhado, isso comentou.”

“Isso eu percebi, pelos olhares e sorrisinhos”

“Não reclama. Você é o assunto do dia. E depois, está todo mundo feliz por você. Inclusive a Karen, aquela gostosa. Ela me pareceu bem interessada na sua recuperação? “

Como em todo o escritório, este também tinha a musa. Karen, formada em economia e uma corretora bem agressiva. Estava sempre vestida com uma saia que ia até pouco abaixo do joelho, mas que delineava bem suas pernas, que acabavam impreterivelmente num scarpin de salto alto clássico. Uma camisa que apresentava os dois botões superiores impreterivelmente abertos, revelando um colo de seios convidativos. Todos os homens daquela corretora sonham em colocar a cabeça entre aqueles montes. Um rosto anguloso, de traços fortes, tendo cabelos levemente encaracolados como moldura. Era a combinação explosiva de beleza, inteligência, personalidade e perspicácia. Andava sempre olhando para uma linha imaginária no horizonte, como quem diz “é lá que eu vou chegar”.  Em relação aos desejos provocados por ela, Rui parecia o único imune. Não que ele não a achasse atraente. Mas ele só tinha olhos para Luiza, a primeira e única. E era por ser justamente esta exceção que Rui intrigava Karen. Mais do que intrigava. A indiferença de Rui em relação a ela a atraía, embora ela relutasse em aceitar a ideia. Mas agora, Rui estava, digamos, livre daquela paixão e o fato de ele ter saído com uma estranha que encontrou em um bar, provocou a sua curiosidade em relação aquele colega indiferente.

Quando eram quatro da tarde, Rui levantou-se da mesa e foi até a cozinha para pegar um copo de água. Ele pegou um copo de plástico encheu-o e, quando virou-se em direção a saída, viu Karen em toda a sua exuberância parada na porta olhando para ele. Seu coração disparou. Mas não por causa de Karen, mas por causa de quem estava atrás dela: Luiza.

(Continua)


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