Rui ficou olhando para a diáfana ex-esposa a sua frente com expressão indefinida. Tentando digerir aquela história de “vou entrar no seu corpo”. Ela, adivinhando aquele torvelinho de dúvidas que viajavam pela cabeça dele como uma chuva asteroides, adiantou-se.
– Não dói nada. E eu também não vou tomar conta de você inteiro.
– Mas que porra é essa de entrar no meu corpo?!
Ele finalmente explode com atraso.
– Fazer parte de você, uma espécie de comunhão, simbiose.
– Simbiose o caralho. Eu vou é ser possuído, não vou? Como acontecem naquelas sessões espíritas. Vou revirar os olhos e me comportar como um autômato.
– Esse é um jeito errado de ver as coisas. No modo dois em um você não perde o controle. É tudo muito eficiente. Eu tomo conta daquela parte que falta em você, a personalidade forte, a auto confiança.
– Pode tirar seu cavalo da chuva…
– Rui, eu preciso da sua permissão. Se eu fizer isso a força não vai funcionar. Confia em mim.
– Ah, é uma boa frase vinda de você, não acha?
– Rui, eu voltei por você. Eu preciso ajudar você. Por favor, deixa eu entrar.
Ela falou aquelas palavras com uma vontade genuína.
– Ta bom. Vamos ver no que isso vai dar.
Assim que deu a sua permissão, Rui ouve um estalo, como a pressão nos ouvidos sendo liberada quando o avião nivela. Tudo a sua volta parecia mais colorido, mais vivo. Uma sensação de visão e audição bem mais aguçados. Ele não pode negar que a sensação é muito interessante. Sente uma forte excitação, como se tudo fosse possível para ele, mas sem perder o controle. O fantasma de Luiza não está mais a sua frente, mas ao mesmo tempo está. Tudo parece ser e ao mesmo tempo não ser. De repente sente uma tontura que quase o derruba. Ele precisa apoiar-se em uma parede para não cair. Uma loira peituda e um amigo que estão indo para o bar passam olhando para ele. Quando se afastam, Rui ainda consegue ouvir um “Xi, aquele ta borracho!” com uma clareza indiscutível vindo da boca da loira peituda. Após alguns minutos ele se recompõe e tudo parece no seu lugar.
– O que a gente faz agora?
– Agora a gente volta para o bar. Já sei com quem você vai sair daqui hoje?
Rui percebe que está falando com Luiza mas sem mexer a boca. A expressão “voz na minha cabeça” nunca fez tanto sentido.
– Como assim, já sabe com quem eu vou sair daqui hoje?
– Tem uma loira no balcão que passou o tempo todo olhando pra você. Mas, como você é um completo tapado para essas coisas…
– Escuta aqui, Luiza, já não chega tudo o que eu passei por sua causa e você ainda vem me ofender?
– Não estou te ofendendo, é um fato. Mas enfim, uma loira, que está acompanhada de uma amiga. Ela deu muita bandeira e você lá ouvindo aqueles três patetas. Nós vamos até o balcão, engatar um papo com elas.
– Vamos?
– Tecnicamente, você vai. E vai usar a sua cabeça que a confiança eu comando. Tudo vai dar certo. É hoje que você vai comer a segunda mulher da sua vida.
– Olha a língua, Luiza.
– Olha você a sua. Porque ela vai trabalhar hoje.
Quando Rui/Luiza voltaram para o bar e passaram reto pela mesa dos amigos do Rui, causam uma impressão e tanto. Quer dizer, o Rui causa, porque eles, obviamente não conseguem ver a Luiza dentro do corpo dele. Não claramente. Mas eles percebem no olhar do Riu, no sorriso que ele deu para eles e na decisão com que ele se dirigiu para o balcão, que algo estranho estava se passando.
– Mas o que será que deu nele? – Pergunta Leandro.
– Não sei. Parece outra pessoa. – Concorda Carlos Alberto.
– É, ta possuído – intervém Murilo. – Pelo tesão. Se eu só tivesse comido uma mulher a minha vida inteira ficaria esquisito como ele.
Murilo levanta o braço para o garçon e faz um três com os dedos, sinal para mais três chopps, encerrando, assim, a discussão.
-x-
Rui abriu os olhos lentamente. Olhou para o lado e Marina, a loira do bar ressonava ao seu lado. Olhou o relógio ao lado da cama, que marcava 9:45 da manhã em números vermelhos sob o fundo preto. Abriu um sorriso lembrando-se de tudo o que tinha ocorrido até aquele momento. De como estar possuído, em parte, por Luiza fora determinante. A confiança que sentiu. A sensação libertadora de não se importar com julgamento dela, no momento em que estava xavecando. Como tudo aconteceu?
Quando voltou para o bar, a loira estava mesmo olhando para ele. Com um leve sorriso. Rui foi até lá e notou que ela bebia um um Whisky Sour. Era o que ele precisava para começar um papo. Rui conhecia uma história sobre aquela bebida e, se bem contada, poderia render-lhe frutos naquele momento de conquista.
– Ola, meu nome é Rui .
Disse aquelas palavras com uma naturalidade que lhe era completamente incomum e com um sorriso tão encantador que ele nem se reconheceu quando cruzou o olhar com o espelho que ficava no fundo do bar. A loira se adiantou.
– Oi – disse a loira.
– Tudo bem? – Emendou a morena.
Aquele era um inicio que poderia ter sido desanimador. Mas, por causa da presença de Luiza, ele nem pensou em desanimar. Encarou a loira com um sorriso e falou.
– Notei que você está bebendo Whisky Sour. É uma mistura muito interessante.
– Notou? E eu achei que você nem tinha percebido que estávamos aqui.
– Ah, percebi. Mas como não sou adivinho, não posso saber os seus nomes.
– Prazer, Marina – respondeu a loira.
– Carla.
A morena não parecia muito contente com a presença de Rui/Luiza, mas Rui não levou aquilo em consideração. De alguma forma, Luiza o fazia entender que aquele mau humor da amiga era pelo fato de ela ter conseguido engrenar uma conversa com alguém interessante, coisa que ela, com aquele péssimo humor, estava longe de conseguir. Provavelmente voltaria pra casa e procurar a companhia do seu vibrador que a aguardava na mesa de cabeceira.
– Esta bebida tem uma história interessante, sabia?
– E que história é esta?
– Conta-se que Hemingway uma vez encontrou-se com Scott Fitzgerald. Esse, após muitas taças de vinho, ficou paranoico, achando que ia morrer, pedindo para o amigo cuidar da filha em sua ausência. Hemingway, um tanto irritado com aquele chilique, disse que tinha a solução e pediu um Whisky Sour para ambos. Parece que o remédio milagroso salvou a vida de um grande escritor.
– Será que é verdade?
– Com dois escritores envolvidos? Acho que deve ter um pouco de ficção. Mas o que é uma bebida sem um pouco de personalidade, não é?
Rui percebeu que a medida em que contava a história, Marina ia cedendo cada vez mais. Em algum momento daquela explanação cheia de sorrisos, ele lembrou de Lucio. Rui percebeu claramente o momento em que Marina havia se entregado. O momento em que ele poderia levá-la dali para a sua cama a hora em que bem entendesse. Ele nunca contaria aquela história com tanto charme e desenvoltura, sem um mínimo gaguejar, se não fosse Luiza. Ela foi a sua auto confiança. Ele lembra, inclusive, de ter roçado propositalmente sua mão na de Marina, enquanto contava a história. Pode sentir cada poro eriçado naquela mão. Era uma sensação impossível para ele descrever. A não ser: Marina estava entregue.
De repente, Rui ouve a maçaneta da porta do seu quarto sendo girada. Alguém está entrando. Seu coração dispara. Ao ver a figura ali parada, Rui tem a única reação possível.
– Porra mãe!
(Continua)