Rui passa incontáveis segundos olhando para o nome no visor do seu celular. O nome de Luiza tendo como fundo a foto dela, usando óculos escuros e sorriso aberto em Búzios.
– Alô?
– Rui, por favor não desliga.
A voz, o jeito de falar o nome dele, tudo parecia indicar Luiza falando do outro lado da linha. Uma imitação perfeita.
– Você não tem vergonha? Nem coração? Passar um trote desses? Como você pegou o telefone da Luiza.
– Vamos começar bem devagar. Se você for no nosso quarto, vai ver, embaixo da cama, o meu celular que foi parar la naquele dia que você teve um surto com as minhas coisas. Sabe como é, a Dalva nunca arreda as coisas pra limpar. Toda semana eu tinha que falar com ela sobre esse assunto. Mas enfim, o celular está lá. Pega e você vai ver que não é trote.
Rui vai até o quarto e faz o que a voz do outro lado da linha sugeriu. Para o seu completo espanto, o celular está realmente lá, em meio a um monte de pó, desligado.
– Eu…eu… não estou entendendo.
– Eu sei. Agora, eu quero que você preste bem atenção. Da última vez você desmaiou. Agora eu quero que você se concentre. Volte pra sala. Eu vou estar lá, na poltrona verde.
Paralisado, Rui olhava para a porta do quarto apavorado. Não queria sair de la e ao mesmo tempo queria. A experiência no banheiro do bar veio-lhe a mente. Então não era a bebida. Era mesmo a Luiza. Mas ele a viu sendo enterrada. Como pode? Sua cabeça latejava com aqueles inúmeros pensamentos se acumulando em pilhas. Respirou fundo. Decidiu que ia enfrentar aquilo. Ao chegar à sala, deparou-se com Luiza sentada na poltrona verde, exatamente como ela disse que seria. Seu coração disparou, suas pernas amoleceram, o estômago embrulhou, uma sensação muito parecida com aquelas duas mulheres na mesa do bar horas atrás, mas por um motivo completamente diferente. Ele caiu sentado no sofá, que ficava em frente à poltrona verde. Estava, inacreditavelmente, frente a frente com a esposa. Etérea, diáfana, trajando uma bata azulada e de pés descalços.
– Eu sei que isso tudo parece irreal. Mas não é.
Ele, mudo. Olhando fixo.
– Eu sei que milhares de pensamentos estão passando pela sua cabeça. Mas eu vou ser direta. Sim, eu morri. Sim, eu estou de volta. Para ajudar.
– Puta que o pariu! Puta que o pariu! Caralho!
– Eu tenho uma missão, Rui: você
– Mas que merda eu fiz pra ter que aturar o seu fantasma?
– Eu é que fiz merda, Rui, por isso estou aqui. Para te ajudar.
– Ajudar? E quem te disse que eu preciso de ajuda? Ainda mais de você?
De repente, do nada, a sala fica escura e uma projeção aparece numa das paredes. O filme que passa é o que aconteceu na mesa do bar com as duas arquitetas. Rui vê a si mesmo na situação ridícula que recém passara. E com um agravante, a projeção mostrava também os sons de pensamentos de todos na mesa. Ele podia ouvir os pensamentos de Vanessa em relação a ele. “Nossa, que olhos indefesos. Ai, quero proteger esse cara a noite toda…” Também ouviu a gargalhada mental delas após ele ter aberto a boca. Uma gargalhada debochada escondida por aqueles rostos impassíveis e fingidos. Quando elas foram embora da mesa, a luz da sala voltou ao normal. Ele olhava para Luiza, sentindo-se um completo imbecil.
– Acho que isso mostra, claramente, que você precisa de ajuda.
– Não sei se eu estou entendendo bem. Que tipo de ajuda?
– Você só teve a mim como mulher. Namorou, casou e trepou só comigo. Eu fui a única mulher da sua vida. Ou seja, você não faz a menor ideia de como lidar com mulheres. E agora você precisa aprender. Essa é a minha missão. Digamos que é o jeito que eu arranjei de pagar meus pecados com você.
Rui cai numa gargalhada descontrolada. Vai às lágrimas de tanto que ri. O espírito de Luiza fica apenas olhando, impassível esperando que ele termine.
– E se eu não quiser?
– Pelo que vimos agora há pouco, ajuda é o que você mais precisa.
– Mas é para isso eu já tenho o Lucio. Esse, sim, uma pessoa confiável.
– Eu sei. Mas ele está ajudando você como homem. Já parou pra pensar?
– Como assim?
– Quem você acha que pode ser de mais valia ajudando você e pegar mulheres senão uma outra mulher?
Se tinha uma qualidade que Rui carregava no seu código genético, era o pensamento lógico. E para ele, aquilo fez todo o sentido.
-x-
Rui acordou cedo, antes do despertador. Era dia de voltar ao trabalho. Antes de sair, foi até a cozinha para tomar o café da manhã. Encontrou dona Dalva, absorta, cantarolando algo insondável com uma voz que parecia mais um cano de cobre rangendo.
– Dona Dalva – Rui fala seco.
– Oi, seu Rui.
– Eu notei que a senhora não está arredando os móveis e nem levantando as almofadas quando limpa a casa. Por favor, eu quero que a senhora preste mais atenção nisso.
– Tá bom, seu Rui – falou fazendo muxoxo. – Hoje mesmo deixo tudo um brinco.
Foi a patrão dar as costas para ela falar bem baixinho.
– Oxe! Essa conversa de novo. Até parece que a dona Luiza ainda anda por aqui! Cruz credo!
Ela faz três vezes o sinal da cruz e retorna aos seus afazeres.
-x-
Rui passou um primeiro dia de trabalho sentindo os olhares condescendentes por todo o lado. Mas estava preparado para isso. Passou a maior parte do tempo em sua mesa, colocando os dez dias em ordem. Os seus colegas mais chegados eram Murilo, Carlos Alberto e Leandro com quem Rui sempre saía para almoçar. Já era tradição, porém, a sua recusa aos convites diários feito por eles para um chopp pós expediente. Queria estar o mais rápido possível com Luiza e uma hora ou duas de chopp com eles eram uma hora ou duas a menos com ela. Mas, obviamente, a situação havia mudado completamente.
– Um brinde ao retorno do Rui ao trabalho e a sua estreia no santo chopp de todo o dia! – propõe Murilo.
Todos levantam os copos que tilintam ao se encontrarem no centro da mesa. Após algumas goladas a conversa vai direto ao que interessa.
– Rui – começa Leandro – e a mulherada? Já está partindo pra cima?
– Eu ainda estou me recuperando.
– Cara, tu não vai ficar aí de luto pro resto da vida, vai? O seu pau não merece – Murilo fala enquanto abraça forte o companheiro.
– É, Ruizão. Da uma olhada em volta. O bar tá cheio de gatinhas – avisa Carlos Alberto. – Como anda o seu xaveco?
– Caras, vocês são meus amigos.
– Claro – falam os três juntos.
– Eu vou confessar uma coisa.
– Não vai dizer que decidiu virar baitola? – interrompe Murilo.
– Não, não. Nada disso. É que a Luiza, bom, ela foi a única mulher da minha vida.
– Como assim, única mulher? – Pergunta Carlos Alberto.
– Única, ué.
– Tu tá me dizendo – interrompe de novo o Murilo – que só comeu a Luiza?
– Porra Murilo, respeita a morta. – admoesta Leandro.
– Que respeita o que? E por acaso ela ela respeitou o Ruizão aqui?
– Bom, gente, digamos que, se xavecar fosse jogar futebol, eu seria aquele cara que todos evitam escolher para o seu time na pelada.
– Pera, tu tá me dizendo que você só chupou uma buceta na vida, Rui? – Murilo se impressiona – Mas isso é que nem um cara só ter comido tomate a vida toda. Enquanto isso, a tua mulher banqueteando.
– Caramba, Murilo!
Mal Carlos Alberto acaba de reprimir o amigo desbocado e o copo de Murilo vira misteriosamente sobre ele, encharcando-lhe a calça. Rui fica lívido. Ele sabe que aquilo não foi um acidente. Tinha certeza que o acidente tinha sido obra de Luiza. Ela estava parada ao lado da Rui havia percebido sua presença, passou a sorrir. Um sorriso maldoso. Os olhos dela encontraram os de Rui, que olhava para ela com cara de poucos amigos. Ele meneia a cabeça indicando a ele o estacionamento. Quer se encontrar com ele lá.
– Esta no seu job description do céu jogar chopp nos meus amigos que falam coisas que você não gosta?
– Ele é um grosso.
– É. Mas é meu amigo. E você está aqui para me ajudar com as mulheres e não pra dar banhos de chopp nos outros.
– Desculpe.
– E como você pretende começar a me ajudar?
– Com a técnica do dois em um.
– Explique.
– Lembra de O Exorcista?
– Óbvio, não dormi uma semana lembrando da cena dela descendo a escada toda desconjuntada. Olha – mostra o braço – só de lembrar fico arrepiado.
– Pois é, vou entrar no seu corpo, igual àquele demônio do filme.