O Fantasma de Luiza – Capítulo 3

Já havia passado uma semana do ocorrido no banheiro do clube. Rui foi encontrado desfalecido por frequentadores do local. Acordou e insistiu que tinha visto o fantasma da esposa parado no centro do banheiro e quando ela pediu para que ele não desmaiasse parecia que tinha pedido justamente o contrário. “Foi a bebida”, insistia Lúcio, que o levou para casa. O amigo insistiu tanto na tese da ilusão etílica, que Rui acabou se acostumando com a ideia de que a Luiza do banheiro era uma alucinação provocada pelo seu estado emocional ainda frágil somado à bebida.

Passou a semana em casa, reorganizando o apartamento. Jogou-se com afinco na tarefa de tornar o “nosso apartamento” em “meu apartamento”. Doou alguns tapetes, livrou-se de quadros, saiu para comprar cortinas e tapetes novos. Era uma redecoração da própria vida. Em 5 dias a tarefa tinha sido praticamente cumprida.

-x-

Na sexta a noite Rui está novamente em um bar, acompanhado do amigo Lúcio. Rui está focado em cumprir a sua promessa de ser o “homem póstumo” dos desejos de Luiza, um caçador implacável, um imã do sexo oposto. O bar está repleto de mulheres solteiras. Hordas de mulheres e ex-mulheres de alguém, todas por volta dos 40 anos de idade, muito bem cuidadas e esculpidas em academias.

–        Lúcio, esse lugar é sempre assim? – impressiona-se Rui.

–        Eu resolvi trazer você aqui justamente por isso. Aqui a mulherada vem pela paquera e pela diversão resultante, se é que você me entende. Mulher resolvida, Rui. Sem frescura. Resumindo, estão aqui para a caça.

–        Não entendi o ponto.

–        Bom, pelo que sei, você é praticamente um alienígena que caiu por acidente no mundo da conquista. Achei que um lugar mais propenso e receptivo seria bom pra começar.

–        Entendo. Playstation nível 1.

–        Por aí. Mas vê lá o que você vai beber. Não gostaria de ver você topando com fantasmas por aí.

 

Lúcio pediu o seu usual Dry Martini e Rui preferiu uma cerveja. Mulheres entravam no bar feito cardumes. Se olhares fossem dardos, o zunido ali seria insuportável. Lúcio levantou e se dirigiu a uma mesa ocupada por duas mulheres. Rui observava atentamente a desenvoltura do amigo enquanto conversava com elas. Era impressionante. De onde vinha tanta auto confiança? Bastaram poucos minutos para que as duas abrissem sorrisos que eram praticamente um convite. Rui estava embasbacado com o traquejo social do amigo. Mesmo que elas estivessem completamente abertas para a abordagem, ainda sim, esse seria para Rui um esforço hercúleo. Mas para Lúcio era fácil como respirar ou simplesmente andar.

De repente, percebeu que a sua barriga embrulhava. Aquilo que o diário de Luiza contava fazia um certo sentido. Ele não sabia o que fazer. Não tinha ideia alguma do que falar. E a coisa ficou mais grave quando percebeu que Lúcio convencera as duas a sentar com eles. A medida em que se aproximavam da mesa, Rui passou a suar frio. As pernas amoleceram e, se estivesse de pé, provavelmente teria ido ao chão. Estavam a 10 metros “meu Deus, o que eu faço?”, 5 metros “elas são maravilhosas”,  2 metros “Pai nosso que estais no céu…”

–        Rui, estas são Lorena e Vanessa.

Rui parecia catatônico. Parecia não, estava. Com as pernas daquele jeito ele simplesmente não tinha forças para levantar como um cavalheiro e beijar as duas. Limitou-se a um sorriso seguido de um grande gole de cerveja, tão grande que esvaziou o copo de uma vez. Elas se olharam, acharam esquisito, mas sentaram.

Lorena era loira natural, tinha entre 35 e 38 anos. Corpo que se tivesse 12% de massa gorda era muito, com braços e pernas torneados, rosto intenso e olhos castanhos claros. Vanessa tinha traços levemente orientais. Na verdade, mais para esquimó do que para oriental, apesar da pele clara. Era um tanto exótica, com o cabelo negro caía pelo ombro direito até o seio, com um elástico que prendendo a ponta. Olhos claros e umas sardas no rosto e uma boca convidativa. Tinha a mesma idade da outra, talvez um tiquinho mais nova. Rui achou aquela mulher incrível. No caso dele, assustadoramente incrível.

–        Vanessa e Lorena são arquitetas. – Lúcio tenta introduzir um assunto.

–        Mas não vamos falar de trabalho agora, né?  – Vanessa quase sussurra olhando de esguelha para Rui.

–        Certo, então que tal cinema? – Lúcio continua. – Não existe ninguém que não seja louco por cinema.

–        Eu e a Lorena adoramos uma boa comédia, não é?

–        Totalmente – concorda Lorena. – Eu acho que cinema é para a gente descontrair e não para ver mais problemas. Isso a gente já tem no dia a dia. Odeio filme denso.

–        E você, Rui – Vanessa agora gruda os olhos nos nele –  que tipo de filme você gosta?

Rui, que até agora se limitava a um sorriso levemente abobalhado, mudou de expressão. Era a sua deixa e ele não podia, digamos, “fazer merda”. Ele sabe que a palavra que sair de sua boca naquele momento vai defini-lo durante o resto da vida para aquelas duas mulheres e, principalmente, para Vanessa. Uma frase lateja em sua cabeça: seja verdadeiro…seja verdadeiro.

–        Ficção Científica. Já assisti Guerra nas Estrelas 17 vezes.

O silêncio que seguiu à resposta que veio acompanhada de um sorriso meio estúpido de Rui – alegre por ter conseguido falar à duras penas – foi torturante. Foram 15 longos e, a cada um deles que passava, o rosto de Lucio ia se tornando cada vez mais vermelho, irrigado de constrangimento. As duas deram uma desculpa qualquer e saíram da mesa cinco minutos depois de uma troca de palavras diplomática com Lúcio. Este olhava para o amigo, que olhava fixamente para mesa onde suas mãos partiam em pedaços uma sequência de palitos de dente, vítimas silenciosas do seu constrangimento. Lúcio não se conteve.

–        Sua vingança contra Luiza começou e já está dez a zero para ela.

–        Nem vem.

–        Se vingança é um prato que se come frio, este você vai comer gelado. Se comer.

–        Vou pra casa.

-x-

Pagou o táxi que o deixou na frente do prédio onde morava. Nem esperou pelo troco. Passou pelo seu Geraldo da portaria sem nem olhar na cara dele. Sentia como o os 7 bilhões de habitantes do planeta soubessem da idiotice que tinha feito naquele bar. Queria enfurnar-se em seu apartamento, tomar todo o bar e cair inconsciente. Morto, até. Quem sabe se morresse não ia encontrar Luiza e enchê-la de bofetadas? Colocou a chave na porta do apartamento. Ouvia o telefone tocando lá dentro. Entrou. Deixou ele tocando. Não ia atender. Não queria falar com ninguém. Passou reto pelo aparelho que se berrava monotonicamente. Nem bola para ele. Foi para o mini bar da sala e abriu uma garrafa de Jack Daniels. Não se incomodou em pegar um copo. A bebida dourada corria fácil da garrafa direto para a sua goela. Agora era o celular que tocava. Ele resolveu ver quem estava ligando. Não podia acreditar no que estava lendo no visor: Luiza.

(Continua)


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