O Fantasma de Luiza – Capítulo 2

Lúcio estava em seu bar preferido, praticando o seu esporte favorito: a caça. Ele se define como uma pessoa totalmente fiel, porém, fiel a sua solteirice.  Gosta muito mais do jogo da conquista do que de ter conquistado. Aquele átimo de segundo quando percebe, olhando nos olhos de sua presa, que o último foco de resistência acabara de ceder. O momento em que os muros do castelo ruíam e ele está livre para invadir e tomar posse do seu espólio. A partir de então, o que viria a acontecer na cama, no banco do carro e até no banheiro dos bares e clubes era considerado consequência maravilhosa desse momento único e inigualável. “Aquele olhar cedente é o verdadeiro orgasmo”, vive repetindo. Num desses momentos em que a horda bárbara cercava o tal castelo, cujo nome era Nívea, Lúcio sente uma leve vibração em sua calça. O celular. Nega-se a atendê-lo nos dois  primeiros toques. Mas, por alguma razão, resolve pelo menos ver quem ligava. Não acredita no nome que aparece no visor do celular. Atende sem hesitar.  

 

–        Rui?

–        Tudo bem Lúcio?

–        Eu estou ótimo, mas eu quero saber de você. Faz dez dias que ligo e não tenho notícias.

–        Onde você está?

–        Naquele bar que que te contei. Tanto as mulheres quanto os Dry Martinis são de ótima qualidade.

–        Eu to indo te encontrar aí.

 

Nem deu tempo do Lúcio concordar. Rui desligou assim que terminou a frase. Aquela ligação desconcentrou o conquistador que dispensou o papo e foi sentar no balcão, sozinho, para esperar do amigo.

 

-x-

 

–        Como assim o cara do motel não foi o único? – Perguntou Lucio estupefato.

–        Depois do primeiro ano e meio de casamento ela começou a sair com outros caras.

–        Mas como você soube que ela…

 

Rui, sabendo a pergunta que viria, estendendo o diário para Lúcio.

 

–        O que é isso?

–        A filha da puta tinha um diário. Está tudo aqui.

–        Rui…eu não sei…é meio pessoal isso…

–        Pode abrir. Pode olhar. Eu já não me importo.

 

Lúcio hesita ainda por um tempo. Mas não resiste ao olhar incisivo do amigo a lhe dizer “abre, porra!”. Ele folheia o diário e lê trechos aleatoriamente. Percebe que Luiza teve uma vida sexual bem ativa e Rui era apenas um de seus parceiros. Mas um trecho em especial chamou-lhe a atenção.

 

“Eu não consigo me controlar. Quero falar para o Rui, mas no momento em que a primeira sílaba vai sair da minha boca a coragem se esvai. Eu o amo e sei que ele vai desmoronar. Ele é um doce, mas ter sido a sua única namorada e a única mulher com quem ele foi para a cama também é algo que a princípio soa terno, suave, como um príncipe encantado. E, na verdade, é o que ele é. É uma das coisas mais admiráveis que ele tem, mas também o seu maior defeito. Ele é apaixonado demais, amoroso demais. A falta de experiência com outras mulheres o deixou atrofiado naquilo que uma mulher também anseia. Ele nunca saiu daquela adolescência boba e eu quero um homem. Um homem que domine a situação, pra variar. Um homem de verdade na cama. Um homem que não me trate como a única mulher com quem ele transou na vida. Eu não quero ser uma princesinha.”

 

–        Rui, apesar de tudo, ela te amava.

–        E me corneava a torto e a direito – cuspiu a frase como se fosse um gole de Campari, bebida que ele detesta. – Ela devia ter dito isso pra mim. Mulheres não gostam de discutir a relação?

–        É o que dizem.

–        E eu casei justo com a que não gosta?

 

Rui começa a soluçar. Lúcio, sem saber o que fazer, pede um Dry Martini para o amigo e outro pra ele. A bebida chega em poucos minutos. Sem saber o que dizer, Lúcio fala a primeira coisa que vem à cabeça.

 

–        Bebe um pouco que vai te fazer bem.

 

Rui vira o conteúdo todo e, em três segundos, a taça está vazia. Olha para o barman e balança a taça, mímica universal para “outro, por favor”.

 

–        Vai com calma.

–        Eu quero me vingar da morta.

–        Como assim?

–        Eu agora quero ser um homem de várias mulheres. Quero conquistá-las, levá-las para a cama. Quero ter todas as experiências do mundo. Vou ser o homem que ela queria. Um homem póstumo.

 

Neste momento o segundo Dry Martini chega. A taça de Rui mal pousa na mesa e já retorna vazia.

 

–        Tem certeza? – Pergunta Lúcio.

–        A mais absoluta certeza.

–        Mas o que eu posso fazer?

–        Pode ser me ciceronear pela noite, afinal, nisso você é bom e eu, um desastre.

–       Sei não. –  Lúcio pondera – ser professor de xaveco?

–       Eu não quero isso de você. Jamais colocaria você em posição tão ridícula. Quero apenas um guia de turismo. Você vai me levar para bares e baladas. O resto faço eu, dou um jeito. Aquela vaca, onde quer que ela esteja, vai sentir minha ira na própria pele em putrefação.

 

Subitamente, a expressão de Rui muda. Ele está olhando por cima do ombro de Lúcio. Lívido. Seu rosto torna-se branco como se um vampiro o tivesse drenado ali mesmo. Lúcio vira o rosto na direção para onde o amigo olhava. Não viu nada demais.

 

–        O que foi? Parece que viu um fantasma?

–        E vi. A Luiza.

–        O que?

–        Eu vi a Luiza, estava sentada lá no fundo, olhando fixamente pra  mim.

–        Eu acho que você bebeu estes Dry Martinis muito rápido.

–        É. Tem razão – aceita. – Eu vou ao banheiro, tirar água do joelho.

–        Passa uma água na cara. E no pescoço.

 

Rui levantou-se da cadeira e, assim que tocou o chão, pareceu estar num navio em águas turbulentas. A sensação durou pouco e logo o bar voltou para terra firme. Ele se dirige ao banheiro. Para em frente as duas portas tentando entender qual o masculino e qual o feminino. Como é moda em bares e clubes moreninhos, é difícil identificar qual porta leva a um e qual leva a outro. “Onde foi parar a simplicidade? Bons tempos em que as portas tinham letras: H e M, ou M e F. Uma charada destas para alguém com a bexiga estourando pode ser um desastre”. Numa das portas via-se a foto de um parafuso e na outra a de uma porca. Parece uma lógica fácil, mas para quem está com dois drinks na cabeça, bebidos de um só gole, a lógica demora a se concretizar. Finalmente, Rui decide-se pela porta com a foto do parafuso. Entra. O banheiro está estranhamente vazio para a quantidade de gente frequentando o bar naquele momento. Ele dá dois passos e o que era estranho fica ainda mais estranho. Luiza está lá. A esposa morta parada na sua frente no meio do banheiro masculino. Não apenas isso. Ela também fala.

 

– Oi, Rui…por favor, não desmaia.

 

(continua)


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