Lúcio estava em seu bar preferido, praticando o seu esporte favorito: a caça. Ele se define como uma pessoa totalmente fiel, porém, fiel a sua solteirice. Gosta muito mais do jogo da conquista do que de ter conquistado. Aquele átimo de segundo quando percebe, olhando nos olhos de sua presa, que o último foco de resistência acabara de ceder. O momento em que os muros do castelo ruíam e ele está livre para invadir e tomar posse do seu espólio. A partir de então, o que viria a acontecer na cama, no banco do carro e até no banheiro dos bares e clubes era considerado consequência maravilhosa desse momento único e inigualável. “Aquele olhar cedente é o verdadeiro orgasmo”, vive repetindo. Num desses momentos em que a horda bárbara cercava o tal castelo, cujo nome era Nívea, Lúcio sente uma leve vibração em sua calça. O celular. Nega-se a atendê-lo nos dois primeiros toques. Mas, por alguma razão, resolve pelo menos ver quem ligava. Não acredita no nome que aparece no visor do celular. Atende sem hesitar.
– Rui?
– Tudo bem Lúcio?
– Eu estou ótimo, mas eu quero saber de você. Faz dez dias que ligo e não tenho notícias.
– Onde você está?
– Naquele bar que que te contei. Tanto as mulheres quanto os Dry Martinis são de ótima qualidade.
– Eu to indo te encontrar aí.
Nem deu tempo do Lúcio concordar. Rui desligou assim que terminou a frase. Aquela ligação desconcentrou o conquistador que dispensou o papo e foi sentar no balcão, sozinho, para esperar do amigo.
-x-
– Como assim o cara do motel não foi o único? – Perguntou Lucio estupefato.
– Depois do primeiro ano e meio de casamento ela começou a sair com outros caras.
– Mas como você soube que ela…
Rui, sabendo a pergunta que viria, estendendo o diário para Lúcio.
– O que é isso?
– A filha da puta tinha um diário. Está tudo aqui.
– Rui…eu não sei…é meio pessoal isso…
– Pode abrir. Pode olhar. Eu já não me importo.
Lúcio hesita ainda por um tempo. Mas não resiste ao olhar incisivo do amigo a lhe dizer “abre, porra!”. Ele folheia o diário e lê trechos aleatoriamente. Percebe que Luiza teve uma vida sexual bem ativa e Rui era apenas um de seus parceiros. Mas um trecho em especial chamou-lhe a atenção.
“Eu não consigo me controlar. Quero falar para o Rui, mas no momento em que a primeira sílaba vai sair da minha boca a coragem se esvai. Eu o amo e sei que ele vai desmoronar. Ele é um doce, mas ter sido a sua única namorada e a única mulher com quem ele foi para a cama também é algo que a princípio soa terno, suave, como um príncipe encantado. E, na verdade, é o que ele é. É uma das coisas mais admiráveis que ele tem, mas também o seu maior defeito. Ele é apaixonado demais, amoroso demais. A falta de experiência com outras mulheres o deixou atrofiado naquilo que uma mulher também anseia. Ele nunca saiu daquela adolescência boba e eu quero um homem. Um homem que domine a situação, pra variar. Um homem de verdade na cama. Um homem que não me trate como a única mulher com quem ele transou na vida. Eu não quero ser uma princesinha.”
– Rui, apesar de tudo, ela te amava.
– E me corneava a torto e a direito – cuspiu a frase como se fosse um gole de Campari, bebida que ele detesta. – Ela devia ter dito isso pra mim. Mulheres não gostam de discutir a relação?
– É o que dizem.
– E eu casei justo com a que não gosta?
Rui começa a soluçar. Lúcio, sem saber o que fazer, pede um Dry Martini para o amigo e outro pra ele. A bebida chega em poucos minutos. Sem saber o que dizer, Lúcio fala a primeira coisa que vem à cabeça.
– Bebe um pouco que vai te fazer bem.
Rui vira o conteúdo todo e, em três segundos, a taça está vazia. Olha para o barman e balança a taça, mímica universal para “outro, por favor”.
– Vai com calma.
– Eu quero me vingar da morta.
– Como assim?
– Eu agora quero ser um homem de várias mulheres. Quero conquistá-las, levá-las para a cama. Quero ter todas as experiências do mundo. Vou ser o homem que ela queria. Um homem póstumo.
Neste momento o segundo Dry Martini chega. A taça de Rui mal pousa na mesa e já retorna vazia.
– Tem certeza? – Pergunta Lúcio.
– A mais absoluta certeza.
– Mas o que eu posso fazer?
– Pode ser me ciceronear pela noite, afinal, nisso você é bom e eu, um desastre.
– Sei não. – Lúcio pondera – ser professor de xaveco?
– Eu não quero isso de você. Jamais colocaria você em posição tão ridícula. Quero apenas um guia de turismo. Você vai me levar para bares e baladas. O resto faço eu, dou um jeito. Aquela vaca, onde quer que ela esteja, vai sentir minha ira na própria pele em putrefação.
Subitamente, a expressão de Rui muda. Ele está olhando por cima do ombro de Lúcio. Lívido. Seu rosto torna-se branco como se um vampiro o tivesse drenado ali mesmo. Lúcio vira o rosto na direção para onde o amigo olhava. Não viu nada demais.
– O que foi? Parece que viu um fantasma?
– E vi. A Luiza.
– O que?
– Eu vi a Luiza, estava sentada lá no fundo, olhando fixamente pra mim.
– Eu acho que você bebeu estes Dry Martinis muito rápido.
– É. Tem razão – aceita. – Eu vou ao banheiro, tirar água do joelho.
– Passa uma água na cara. E no pescoço.
Rui levantou-se da cadeira e, assim que tocou o chão, pareceu estar num navio em águas turbulentas. A sensação durou pouco e logo o bar voltou para terra firme. Ele se dirige ao banheiro. Para em frente as duas portas tentando entender qual o masculino e qual o feminino. Como é moda em bares e clubes moreninhos, é difícil identificar qual porta leva a um e qual leva a outro. “Onde foi parar a simplicidade? Bons tempos em que as portas tinham letras: H e M, ou M e F. Uma charada destas para alguém com a bexiga estourando pode ser um desastre”. Numa das portas via-se a foto de um parafuso e na outra a de uma porca. Parece uma lógica fácil, mas para quem está com dois drinks na cabeça, bebidos de um só gole, a lógica demora a se concretizar. Finalmente, Rui decide-se pela porta com a foto do parafuso. Entra. O banheiro está estranhamente vazio para a quantidade de gente frequentando o bar naquele momento. Ele dá dois passos e o que era estranho fica ainda mais estranho. Luiza está lá. A esposa morta parada na sua frente no meio do banheiro masculino. Não apenas isso. Ela também fala.
– Oi, Rui…por favor, não desmaia.
(continua)