Ainda não recuperado do trauma, Rui senta-se na quina da cama de casal. Olha ao redor, lentamente, e tudo que vê traz a lembrança de Luiza. Lárgrimas. Um bolo na garganta. Rascante. Uma tristeza misturada com raiva e vergonha. Não sabia como reunira forças para ir ao velório. E lá, como fora capaz de suportar os olhares. “Ela tinha que morrer assim? Avisando a mim e a todos ao mesmo tempo que eu era um corno?”
Levantou-se. Foi até o closet. As roupas dela ainda estavam todas lá. Uma reminiscência do tempo em que Luiza caminhava sobre o planeta, viva, ativa. Três quartos daquele ambiente pertenciam a ela. Num acesso de fúria, arrancou tudo o que não era dele dos cabides, gavetas e nichos. Fez com as roupas o que ele queria fazer com Luiza. Após a catarse, caiu sentado no chão aos soluços. “Morrer assim? Num motel, nua ao lado de um outro?” Não sabe quantas vezes esta pergunta e a imagem dos dois abraçados na cama, os lençóis empapados com sangue dos dois e a assassina, aos soluços, corna como ele, algemada, passou-lhe pela cabeça. Exausto pelo choro, pegou nos sono naquele chão onde estava prostrado diante do brutal sofrimento, cercado pelas roupas da esposa falecida.
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Estava dispensado de trabalhar. Ganhara pequenas e deslocadas férias para curar as feridas. Férias com com jeito de UTI. E se precisasse de mais dias, entenderiam perfeiramente. Essas feridas traiçoeiras, chagas invisíveis são resistentes. E o pior, não se tratava apenas de uma viuvez recente, mas da viuvez acompanhada do conhecimento de uma traição. Acordou com dores generalizadas nas juntas. Levantou-se com dificuldade. Foi até o banheiro e ligou o chuveiro. Águra fria. Despiu-se e entrou no box. Os jatos de água gelada parecendo alfinetes a açoitar-lhe o corpo. Não se importou. Aceitava os golpes pensando em merecer aquela pequena tortura por ser tão idiota. Saiu do banheiro mais desperto e inteiro. A campainha toca. “Meu Deus, é a dona Dalva”. A empregada era uma contratação da esposa, essa ja uma justa causa para dispensá-la, porém, pensou melhor e, num rasgo de bom senso, desistiu. A pobre não tinha culpa de nada e agora seria ainda de muito mais valia do que antes. Atendeu a porta e a mulher entrou sem encará-lo, dando bom dia de cabeça baixa, ouvindo um murmúrio ininteligível como resposta. Dirigiu-se em linha reta e resoluta para a cozinha e foi preparar o café. Ele foi terminar de se arrumar no quarto. Queria sair, respirar ar puro, ver o sol, fugir, misturar-se à multidão, desaparecer de si mesmo.
– Dona Dalva, por favor, eu quero que a suma com tudo o que era da Luiza – ordena com voz pastosa.
– Mas seu Rui, como assim sumir?
– A senhora escolhe: jogue no lixo, queime, pegue pra senhora, distribua entre os seus familiares, sei lá. Apenas tire isso daqui hoje.
– Mas aquelas coisas tão boas…roupas de marca…
Ele fuzilou a empregada com um olhar tão desconcertante, que ela foi baixando a voz e a cabeça até voltar, em silêncio, para os seus afazeres. Rui sorveu a xícara de café preto forte e duas fatias de torrada. Murmurou um até amanhã e saiu.
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Rui decidiu andar pela cidade como um turista. Um bom jeito de não ser ele mesmo naquele momento. Deixou seu carro na garagem. Serviu-se dos metrôs, ônibus e das próprias pernas. Andou para pontos onde nunca estivera. Percebeu uma cidade completamente distinda daquela que passava pela sua rotina diária. Lembrou que talvez tivesse acontecido o mesmo com a própria esposa. Nunca a olhou de um jeito diferente para perceber o que estava acontcendo. O dia passou sem ele nem perceber. Um turista na própria cidade, sentindo cheiros novos, sabores diferentes, cores nunca antes vistas e até sotaques distintos. Voltou para casa um pouco mais revigorado.
Ao chegar não havia lá nada mais que lembrasse Luiza. Verificou cada canto da casa e nada. Pareceu-lhe que tudo o que estava ali havia acompanhado a ex-mulher em sua derradeira viagem. Não havia sequer os fios de cebelo dela, muito comuns de serem vistos reconstando-se em em poltronas ou formando círculos loiros pelo chão do banheiro. “Obrigado, dona Dalva”. Porém, ao se dirigir para a cama, viu sobre ela uma encadernação que lhe era completamente desconhecida. Um bilhete com o garrancho empertigado da empregada dizia, ou parecia dizer: “Seu Rui. Eu sei que o senhor pediu pra me livrar de tudo, mas encontrei isso escondido no armário. Achei que o senhor poderia querer olhar…não tive coragem de jogar fora.”
Um diário. Um maldito diário com a grafia de Luiza em todas as páginas que fez correr num farfalhar nervoso provocado pelo seu dedo polegar. Depois, começou a se deter em uma ou outra página. Cada uma trazia uma data. Dia, mês e ano. Não eram exatamente relatos diários. Haviam saltos de dias, semanas as vezes. As anotações compreendiam o último ano e meio de casamento. Jogou longe, como se aquilo fosse vetor de alguma doença tropical. Aitrou-se na poltrona. Raiva. Mais raiva. Levantou-se. Pegou a garrafa de Jack Daniels e encheu um copo sem gelo. Entornou garganta abaixo. Entornou outro. E um terceiro. O diário lá, jogado no chão a lhe chamar pelo canto do olho. Ele fingindo-se de surdo, mas aquela urgência a cutucar-lhe os sentidos. Foi vencido, por fim. Rui levantou-se e juntou o diário do chão. Reunira aquela coragem etílica para enfrentar os medos atávicos, principalmente o medo da verdade. “Vou ler essa merda”. Abriu. Embarcou em um mundo totalmente desconhecido.
(continua)