Romeu acordou antes de abrir os olhos. Alguma coisa não parecia correta. A consistência do colchão estava diferente. Os sons, os aromas, tudo parecia outro lugar. Suas pálpebras abriram letargicamente e quando tudo entrou em foco concluiu que estava tudo errado . Levantou-se num pulo e soltou um grito surdo. Ou um gemido. Romeu não estava em seu quarto. Olhou para o lado e o rosto e o corpo que via não eram o da sua mulher. Porém, era de uma mulher que ele conhecia muito bem. Marisa, a sua vizinha. A mulher que ele desejava surdamente. Mudamente. Um fogo que tratava de apagar. Luxúria que tentava não nutrir, mas que não conseguia dominar. Mas como pode? Ele dormiu em sua cama, lembra-se muito bem. Teria sofrido um ataque de sonambulismo? Mas e se fosse o caso, uma pergunta ainda mais inquietante aparecia agora em sua mente. E Nelson, o marido de sua vizinha? Onde estaria, já que, pelo visto, ocupava o lugar deste naquela cama? Romeu olhou de novo. Pensou na esposa. Em como iria explicar o inexplicável. Observou a vizinha, novamente. Ressonava. Nem mesmo naquela situação esdrúxula o seu desejo deixou de se manifestar. Teriam eles…? Não. De jeito nenhum. Resolveu levantar. Foi até o banheiro da suíte imaginando onde estaria Nelson naquele instante. Dúvida que foi sanada assim que entrou. Nelson estava ali, no banheiro. Mais precisamente, no reflexo do espelho. Suas pernas fraquejaram. Ele sentou no vaso sanitário e trancou a porta. Ficava repetindo em pensamento. “Eu estou no corpo do Nelson. Eu estou no corpo do Nelson.”  Batidas na porta interrompem o seu mantra desesperado.

 

–        Amor, tudo bem?

 

É Marisa lá fora. Uma voz pastosa, mas ainda sim, com apelo. Pelo menos para ele. Ou seria para o Nelson? Ou para ele e o Nelson? Romeu sacode tentando, em vão, afastar a confusão mental e responde.

 

–        S..sim, amor!

–        Então deixa eu entrar aí? To louca por um banho –  silêncio de três segundos – a dois.

 

Aquela frase, dita em tom lânguido e ardente pela vizinha que sempre desejou, suplantou qualquer sentimento de estranheza que a situação pudesse emprestar ao momento. Ele simplesmente levantou e, célere, foi abrir a porta. A sua frente, Marisa, com a luz da janela do quarto a recortar-lhe a silhueta e a valorizar aquelas protuberâncias rijas. Nua. Ele e a tomou nos braços. Como quem pilha. Como quem conquista. A tomou ferozmente. A levou para baixo do chuveiro. E fez tudo o que tinha imaginado, embora nunca tivesse admitido para si mesmo que tivesse imaginado tais libertinagens. Foi mais do que tinha sonhado. Percorreu os recantos do corpo dela que eram mais insondáveis, pelo menos para ele. Até se saciarem uma. Duas. Pra que contar?

 

Deitados sobre a cama, arfando, molhados, apenas respiravam e ouviam um a respiração um do outro ao final de tantas investidas. A cabeça de cada um vagando. Romeu realizara o seu desejo. Estava em paz com suas urgências. A mente calma, sobrevoando frases soltas e imagens. Imaginação se misturando com realidade. Até que neste vôo ele enxerga algo que era óbvio. “Se eu estou aqui, no corpo do Nelson, onde está o Nelson?” A conclusão é óbvia. Nelson está agora com a sua esposa, no seu quarto assim como ele. É a lógica. Se é que esta situação possa ser tratada como lógica. Ficou imaginando a esposa fazendo as mesmas coisas que ele fez ainda agora, com Marisa. Se entregando a outro, que na verdade, não era outro aos olhos dela. Ficou em desespero. Em total impotência. Olhou para o lado e encontrou o rosto de Marisa com um sorriso abobalhado. Ela passa a mão em seu rosto. O perfume de sabonete e sexo misturados.

 

–        Foi a melhor foda que tivemos.

 

Imaginou a esposa dizendo a mesma coisa para ele, que não é ele, na mesma hora. Só queria dormir de novo e acordar no próprio corpo outra vez. De repente, nunca desejou tanto a esposa como naquele momento.

 


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