Preciso me penitenciar. Isto é uma necessidade extrema. Como pai, abandonei o meu rebento. Deixei-o num quarto escuro, à míngua. O mais completo abandono. E o que me faz sentir esta culpa incontrolável é que ele me recebe como se nada tivesse ocorrido. Mesmo condenado à solidão completa, o Contando Umas me recebe como se nada houvesse ocorrido. Como se eu fosse um pai amoroso e presente. Ah, a culpa que me assola e dilacera o meu coração. O reconhecimento da minha pequenês moral junta-se ao motivo que me faz voltar ao meu filho. A minha total inapetência para escrever algo que seja tão estupidamente simples que possa ser alçado à definição de genial. Pois que genial, essa palavra tão vilipendiada nestes tempos de pouca exigência, anda lado a lado com o simplicidade. O genial é elegante, porque não tem arestas a serem reparadas. Nada sobra, nada falta. E consegue ser profundo sem ser rebuscado. Isso vale para tudo, diga-se. De uma teoria da física até uma declaração de amor.
Neste minha situação de auto exilado do meu blog, convivi com tantos parágrafos impressos em páginas brancas quantos fossem possível. O hábito da leitura pré sono, quando, passados alguns minutos as letras se aboletam estranhamente no campo visual e linhas inteiras dão voltas como se fossem um redemoinho e você já não entende mais nada porque já dormiu e só as suas pálpebras ainda não sabem, foi incorporado a minha rotina. E num destes momento, deparo-me com um dos parágrafos que causou tal efeito em mim a ponto de me fazer despertar da leitura letárgica, sonolenta. Um choque de simplicidade, um momento daqueles em que você sente a força de um escritor em toda a sua magestade. Falo da descrição da vida desde que nascemos até morrermos dada por Emilia, a boneca de pano, a um atento Marquêrs de Sabugosa. Em Memórias de Emília. A simplicidade com que a personagem descreve algo que tendemos a complicar é tão espantosa, tão direta e ao mesmo tempo tão completa e cheia de significados que causou em mim a única reação possível para um ser humano que pretende contar histórias através da escrita. “Puta que o pariu! Como eu queria ter esta fluência simples, esta ternura com cara de ingenuidade e esta profundidade.”
A mim não restou nada a não ser voltar para cá e fazer um esforço necessário para lograr tal intento. E, claro, homenagear a passagem, colocando aqui para você ler. De minha parte, cada vez que a leio, faço com reverência de um sacerdote em frente a imagem de seu criador. Monteiro Lobato, você é realmente um gênio.
“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda até que dorme e não acorda mais. A vida das gentes nesse mundo, Senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama. Pisca e anda. Pisca e brinca. Pisca e estuda. Pisca e ama. Pisca e cria filhos. Pisca e geme reumatismos. E, por fim, pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre? – Perguntou o Visconde.
– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?”