Tenho um amigo que já saiu em diversas expedições de estudo mundo afora. Suas mãos e seus olhos entraram em contato com incontáveis artefatos de tempos imemoriais. Das inúmeras civilizações, cujos mistérios teve a sorte e o prazer de desenterrar, a que mais chamou a sua atenção foram os Maias. O impacto de presenciar ao vivo as  maravilhas eternizadas por este povo em diversas áreas da inteligência humana como a escrita, a matemática e a astronomia, foi tão intenso desde o primeiro contato, que ele voltou para a região incontáveis vezes. Numa delas, ele explorava tábuas com a escrita hieroglífica do que ele acreditava serem relatos da vida diária de uma das cidades, uma espécie de jornal da época. Em meio a tantos realtos, não sabe porque, um em particular chamou a sua atenção. Ele tentava desvencilhar-se dele, examinando outros escritos, mas não conseguia. Era dragado de volta por um chamado irresistível. Tomado por um impulso juvenis ele tomou uma decisão radical. Uma vez que não teria chance de traduzi-la em loco, deu um jeito de, bem, surrupiá-la.  Sabe-se lá como, ele saiu de um país e entrou em outro com aquilo na bagagem.  Talvez tenha sido ajudado por alguma deidade local, que em seu desejo divino de que a história contida naqueles “tablets” primordiais fosse conhecida, deu um jeito de nada ser detectado pelos artefatos de raios x ou pelos cães farejadores. Fato é que  meu amigo trouxe a tábua para casa e lá permaneceu a traduzir o que os hieróglifos  milenares contavam. Ao cuncluir sua tarefa, não pôde conter o riso. A gargalhada, até. Tinha em mãos uma informação que abalaria as versões correntes sobre o assunto do momento: o famoso Calendário Maia.

     Ali havia a história de um sujeito chamado Iktan, filho de uma mulher chamada Itzia e de um pai que, pelo que consta, morreu em sacrifício em cerimônia ocorrida em homenagem a uma tomada de posse de um novo rei, como era comum na época. Quando isso ocorreu, o menino Iktan tinha apenas dois anos de idade. A mãe, cuja profissão era limpar os restos que ficavam sobre a pedra sacrificial foi obrigada a limpar os restos do próprio marido. Mas a história triste não tirou da mãe de Iktan a vontade de ver o filho ter um futuro melhor que o dela e, por razões óbvias, do que o do pai. Conta ali que a mulher trabalhou com tal afinco pelo futuro do filho, conseguindo para ele acesso a estudos de matemática e astronomia, habilidades que ela percebeu em Iktan desde pequeno e que, domados e direcionados de maneira correta, poderiam levá-lo a esta vida melhor que ela tanto ansiava. Itzia limpou tantas vísceras, humanas e animais quantas fossem necessárias param garantir ao filho o melhor.  Quiseram os tais deuses que ela tivesse sucesso. O filho prosperou nos estudos e foi reconhecido como talento raro na arte de construir e calcular calendários, tão importantes para a economia da civilização. Desde então, já havia se tornado um homem “insacrificável” , fato que já garantia-lhe futuro completamente diverso do seu pai, pobre homem que morreu com o coração arrancado do peito ainda batendo. O talento de Iktan era tal, que rapidamente ascendeu ao que poderia se chamar de academia de ciências da época. Muitos vinham aprender com ele a arte de construir calendários e estudar os movimentos estelares. Iktan, em verdade, era um visionário e ousou construir um calendário que ia muito adiante dos outros, tarefa a que se jogou de corpo e alma nas suas horas vagas. Apresentou o trabalho ainda em desenvolvimento para Ikal, uma espécie de diretor da tal academia de ciência local, que, assim que pôs os olhos naquele trabalho, percebeu o potencial que aquilo tinha. Certamente ia dar ao seu autor um status de gênio diante da nobreza, sendo ungido por riquezas e a vida boa da época. Agora, aqui vai um detalhe muito interessante. Ikal não tinha lá um grande talento nas ciências exatas, não que não entendesse do riscado, mas perto de Iktan era um mero aprendiz. Mas Ikal tinha habilidades sem precedentes em uma outra ciência esta um tanto inexata: a política. Sua lábia era insuperável, daí ter atingido um lugar acima de qualquer outro na tal academia. Iktan, ao contrário, era um recluso, dedicado ao trabalho, para o qual tinha o talento genuíno. Nesse ponto das coisas, o óbvio parece ter acontecido. Na calada da noite, Ikal, aproveitando-se da ausência do Iktan, levou o rei e a sua entourage até a academia e comunicou-lhe o novo projeto de “sua” criação: o tal calendário. Explicou os preceitos básicos com muitos floreios e termos pomposos. Os reis e nobres ali presentes, não querendo ficar para trás, fingiram entender tudo e, dias depois, o grande criador do calendário, Ikal, foi alçado à categoria de nobre, deixando Iktan com seu ódio silencioso. De certa maneira, havia sido sacrificado tal qual o pai. Mas, como o coração ainda batia em seu peito e, sabedor de que sem ele o calendário não seguiria em frente, tomou uma decisão drástica. Levantou-se no meio da noite, pegou algumas provisões e material necessário para continuar seus estudos. Beijou a testa da mãe, que dormia em seu leito e sumiu, deixando para ela uma mensagem e o calendário inacabado. Obviamente, a mensagem chegou até quem sabia ler e daí até o rei. Este, tomado de fúria, mandou prender Ikal e tornou o ex-chefe de ciências o mais novo sacrificável do reino. Quanto a Iktan, ninguém sabe onde foi parar. E o calendário, bem, o calendário, milhares de anos depois, voltou a ser assunto o que deve ter feiro Iktan, rindo discretamente, como era de seu feitio.


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