Assessoria de Imprensa

Sentado à cabeceira de uma extensa mesa de mogno, Lucifer  trajava o seu costumeiro terno imaculadamente branco. O seu rosto, intensamente bonito, tem um sorriso estampado enquanto lixa as suas unhas com cuidado de artesão. Sua ação é interrompida por um secretário, que adentra a imensa sala.

–        Mestre, o senhor Humberto está aí fora.

–        Ah! – exclama Lucifer com todo sarcasmo possível de estar contido naquelas duas letras e no ponto de exclamação. –  Não vamos deixá-lo esperando. Mande-o entrar.

O secretário, cheio de reverência, que vem daquela gratidão típica de um cachorro vira-lata por quem o alimenta, obedece a ordem dada com voz mansa.  Poucos segundos depois, um homem alto, de cabelos ondulados e curtos, tão bem vestido quanto aquele que o chamou, entra pela mesma porta por onde o secretário saiu.

–        O senhor mandou me chamar? – pergunta Humberto com certo receio.

Lucifer, sem tirar os olhos de sua atividade com a lixa, responde com o seu característico desdém.

–        Vocês publicitários adoram preto –  observa. – Não entendo porque dizem que preto tem a ver comigo. Logo eu, que adoro o oposto.

–        O senhor sabe como são as pessoas. Quando encasquetam com uma coisa, é difícil convencer do contrário.

–        É por isso eu contratei você, não foi? Mudar a opinião de vocês, primatas, a meu respeito e também do local que dirijo.

–        É o meu trabalho. E tenho feito diligentemente, acredito.

–        Ah! Sobre isso acho que temos algo a discutir. Sente-se.

Humberto puxou a cadeira na cabeceira oposta, quando foi admoestado.

–        Não. A cabeceira não é lugar para vocês primatas. Aqui, mais perto.

Lucifer aponta a cadeira mais próxima de onde ele está sentado. Humberto obedece.

–        Vou ser direto, meu caro Humberto. Seus serviços não serão mais necessários.

–        Como? – espanta-se. – Eu estou trabalhando duro. E os resultados estão aparecendo.

–        Sim, estão – debocha. –  Pelas pesquisas que eu fiz, nota-se um crescimento de 20% de almas dispostas a desfrutar o meu espaço.

–        Como eu disse, meu trabalho está surtindo efeito.

Os olhos de Lúcifer tornam-se negros e aumentam de tamanho, ou dão a sensação de aumentar. Sua voz torna-se gutural.

–                20% não é o que eu pretendo.

–                Mas eu fiz o correto – defende-se o publicitário. – Toda marca tem seu target, ou seja, as pessoas que são suscetíveis à sua filosofia. É neste target que devemos focar a nossa estratégia de comunicação. Mas isso leva tempo. Temos inúmeras religiões que tiram a sua força do maniqueísmo entre o bem e o mau. Mudar a opinião incutida por milênios nas mentes e espíritos do ser humano não é algo que se consiga assim, de um dia para o outro. Estes 20% vão se tornar 40% em alguns anos, pode estar certo.

–        Guarde essa balela sem nexo para você, que eu não sou um dos 7 bilhões de primatas vivendo num pedregulho a volta de uma estrela de quinta grandeza para cair nessa cantilena. A sua capacidade de falar bobagens e parecer incrivelmente inteligente foi um presente meu. Como eles chamam as pessoas como você mesmo? – Lucifer levanta as sobrancelhas procurando o termo. –  Ah, lembrei. Uma pessoa articulada. Os primatas adoram os articulados. Entregam-se a eles sem questioná-las. Preferem estes em detrimento aos poucos que tem talento genuíno. E foi essa capacidade que eu concedi e que deu a você a posição de destaque entre eles em troca não de 20%, nem 40% deles, mas 100%.

–        Mas isso é impossível.

–        Aí concordamos em parte – concilia. – É mesmo impossível para vocês que se vangloriam porque convencem os outros a comprarem sabão em pó. A publicidade não é o meio correto para conseguir o que eu desejo, embora pareça uma escolha óbvia a princípio. E neste caso, sou obrigado a admitir que falhei ao escolher você.

–        O que vai acontecer comigo? Você vai tirar tudo o que eu consegui? – diante do olhar de fogo do seu interlocutor, Humberto retifica –  Que o senhor conseguiu.

–        Apesar de falarem o diabo de mim – a expressão do rosto acentua a piada –  palavra é coisa que não me falta. Eu propus o contrato e,  como disse, errei em escolher um publicitário. Por isso, vou deixá-lo com tudo aquilo que você conseguiu amealhar graças ao nosso acordo. Mas, se eu fosse você, ouviria o meu conselho: a partir de agora, esqueça a publicidade. Aposente-se. Com o contrato revogado, a sua conversa não vão mais parecer tão sedutora quanto antes. O fracasso voltará a ser o seu destino se você insistir em continuar. Volte para aquele pedregulho que vocês chamam de planeta e vá aproveitar o resto da sua vidinha no bem bom.

Humberto fica olhando para Lucifer sem ter o que falar. Sabe que apesar de tudo, ainda saiu no lucro. Mas uma pergunta assola a mente do publicitário. Lucifer responde como se tivesse ouvido em alto e bom som o pensamento de seu ex-funcionário.

–        Ah, sim. Vocês, primatas, são muito curiosos, como pude esquecer. Quer saber quem vai fazer o trabalho agora? – Lucifer usa uma pausa dramática e retoma o seu lixar de unhas. –  Eu não sei como não tinha percebido o óbvio. O que eu precisava era de credibilidade. Credibilidade cega. Uma atividade percebida como acima do bem e do mal. E essa não é a percepção que vocês publicitários passam para o resto dos primatas. Eles os vêem como mercenários, pagos para fazê-los mudar de opinião. Mas não é assim que eles vêem os jornalistas. Ah, os jornalistas são percebidos como infalíveis, paladinos que lutam a favor da sociedade. Honestos e corajosos em busca da verdade. Eles nunca erram, embora cometam erros aos borbotões. As vezes, propositais. Mas quem vai acusá-los? Outro jornalista? Eles são a boca do mundo. A boca que fala o que bem entende. Você já percebeu que eles são os únicos que, se assim o desejarem, podem acabar com a reputação de advogados e banqueiros? Só por isso já merecem o meu profundo respeito. Eles não tentam mudar a opiniões. Eles as produzem como um competente oleiro molda um vaso do barro disforme. São praticamente santos. E o mau, meu amigo, só alcança sua máxima eficiência quando disfarçado de bem.

Lucifer para por alguns instantes. Olha para o nada com uma expressão satisfeita, apreciando o sabor de sua frase de efeito.

–        Contratei uma assessoria de imprensa completa. Você iria se impressionar como foi fácil. Jornalistas são tão egocêntricos quanto vocês. E isso, você sabe, facilita tudo. Já temos a primeira pauta: “Seria o Paraíso uma ditadura, que expulsa aqueles com opinião própria?”

Neste momento o secretário entra no salão atendendo a um chamado que Humberto tem certeza que não ouviu.

–        Pois não, Mestre.

–        Por favor acompanhe o nosso convidado. Ele ja está de saída.

E o secretário assim o fez, impressionado por ter ouvido um “por favor” de seu mestre.


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