Sergio estava morto. Havia batido as botas. Definitivamente. Inapelavelmente. Indubitavelmente. Poupo o leitor dos pormenores relativos a sua morte, porque não nos cabe aqui fazer um relato cheio de detalhes sangrentos e dolorosos como fraturas expostas e vasos rompidos. Que fique claro, apenas, que Sergio morreu atropelado por um Mini Cooper, o que empresta um certo glamour ao seu modus mortem. A imagem repentina e frisada daquele carro de corpo azul e capota xadrês em preto em branco foi o último frame de sua vida, pelo menos enquanto ainda se valia do oxigênio. Sim, porque ao que consta, Sergio está em algum lugar incerto e não sabido, sentindo-se bem e tem até um corpo, que, aliás, se parece muito com o dele de carne e osso. E está inteiro. agora, como ele veio parar naquela sala esverdeada, pacífica e perfumada, não fazia a menor ideia. Foi como se o impacto com o carro o tivesse jogado diretamente para onde está nesse momento. Ele olha a sala e nota que em uma das paredes há uma tela de tv plana de tamanho considerável. Em oposição a esta parede, ele nota um sofá convidativo. Duas mesas de apoio com luminárias sem fio que despejam uma luz no ambiente que parece um abraço terno e amável. Na tela há um logotipo que gira sem parar sobre seu próprio eixo. Nunca o viu na vida, mas se for a marca daquele equipamento ele quer qual é, pois nunca viu imagem tão incrível quando estava vivo. Sergio sentou-se no sofá, experimentou várias posições. Subitamente, passou a ouvir vozes que vinham do lado de fora da sala onde estava. Não compreendia o que falavam, mas pareciam ser dois homens muito animados. As vozes se aproximavam e tudo indicava que iriam entrar. Foi aí que percebeu algo um tanto insólito: a sala não tinha nenhuma porta. Sentiu uma pontada de angústia que lembrava sua claustrofobia lá no outro mundo. Foi quando duas figuras simplesmente aparecem atravessando a parede lateral. Eram os dois que estavam conversando do lado fora, disso não havia dúvida. Entraram aos risos. Não, às gargalhadas. Os dois olharam para Sergio com a gargalhada já se esvaindo aos poucos. Ao notar os olhos arregalados do pobre novato, que está sem palavras depois do que acaba de ver, a gargalhada retoma a sua força.
– Que lugar é esse? – Perguntou Sergio, com certa irritação. – Onde estou?
– Por enquanto vamos dizer onde você não está. Na Terra.
– Quer dizer, parte de você ainda está lá. Debaixo da terra, mas essa, com t minúsculo.
Gargalhadas.
– Sergio, não é? – Pergunta um deles, ainda entre espasmos de riso.
– Esse costumava ser meu nome.
– Bom – disse o outro – vamos continuar com esse, por enquanto.
– Meu nome é Carlos e o dele é Inácio.
– E vocês são?
– Os caras que filmaram a sua vida.
– O que? – Espanta-se. – Como assim, filmaram minha vida?
– A gente acompanha a sua vida desde que nasceu, filmamos tudo, cada segundo – responde Inácio. – Eu sou o câmera e o Carlos aqui é o engenheiro de som.
– Vocês estão me dizendo que…
– Sim, estamos. Você nunca, jamais, em tempo algum, ficou sozinho seja lá onde você pensou que estivesse sozinho – reponde Inácio.
– Nem no banho – completa Carlos.
Os dois caem na gargalhada novamente. Inácio, adivinhando a próxima pergunta, adianta a resposta.
– É o procedimento da holding, Sergio. Antes de você vir tirar férias, a gente é obrigado a passar o filme da sua vida para você. Pra você ver onde da pra melhorar quando voltar das férias.
– Como assim eu nunca fiquei sozinho?
Mais gargalhadas.
– Senta aí cara, que a seção vai começar.
– Quer pipoca?
Mais gargalhadas. Um balde de pipocas aparece do nada nas mãos de Carlos. Os dois sentam no confortável sofá, um de cada lado de Sergio. Inácio, que apesar de não estar mais gargalhando, tinha um sorriso engessado num rosto que mostrava uma expressão de constante alegria, pega o controle remoto que estava numa das mesas de apoio. Em seguida, aponta para a tela e uma lista aparece, com direito a trilha sonora cheia de pompa e circunstância. Aliás, uma bela trilha.
– Que música é essa? – Pergunta Sérgio.
– A trilha sonora da sua vida – responde Carlos.
– Composta por Mozart, cara – completa Inácio cutucando Sérgio com o cotovelo. – Que deferência, hein? Tu ta com moral, o Sergio.
– E o que é essa lista aí na tela?
– O menu da sua vida por assuntos. Escolhe aí por onde você quer começar.
Sergio olha indeciso para uma lista de itens de sua vida. Está em ordem alfabética e não cronológica. Há itens mais genéricos como infância e outros mais específicos, como hora do banho. Sérgio não sabe por onde começar. Fica em dúvida. De repente. Percebe que o item punheta ganha um brilho repentido e a tela começa a mudar.
– Estava demorando muito – fala Inácio com o controle ainda apontado para a tv – Vamos logo no melhor.
Aparece uma lista infindável de datas. De repente, Inácio escolhe uma, mas não aleatoriamente.
– A minha preferida.
– Por que? – Pergunta Sérgio, contrariado.
– O primeiro dia que você ficou sozinho em casa depois que descobriu as revistas suecas do seu pai.
Gargalhadas outra vez.
– Foram 14 punhetas num dia.
– Dos que a gente filmou, você foi o record.
– Michael Phelps da punheta.
Gargalhadas. O vídeo começa com a câmera focando Carlos, na sa;a do apartamento em que Sergio morava com os pais. Ouve-se a voz de Inácio ao fundo.
“ Teste de foco.”
Carlos, as gargalhadas responde,
“Deixa de bobagem que essa câmera é automática. Vira para a área de interesse.”
A câmera faz um movimento brusco e acha um Sérgio adolescente, cabelos compridos em mullets e rosto exibindo mais espinhas do que os pelos de barba que tentava, inutilmente, fazer crescer. As revistas espalhadas pela cama e ele no meio, como um rei, deliciando-se com seu prazer solitário, que agora concluía que de solitário não tinha nada. Enquanto isso, o Sergio atual mergulha no sofá, numa tentativa vã de sumir dentro dele. Ele enche a mão de pipoca e empurra tudo para dentro da boca. Aquela ia ser uma tortura interminável. Mas a trilha, pelo menos, era de Mozart.