Primeiros Passos

   O sol de outono invade a sala como bastões de luz, denunciando microscópicos pontos de pó em movimento. A luz é mais aconchegante nesta época do ano, a que realmente merece ser chamada de dourada. O silêncio que toma conta da casa após o almoço é tão imenso, que é possível ouvir o zunido das moscas batendo no vidro da janela que dá para um jardim na sala inteira. São cinco delas tentando alcançar aquele incomensurável mundo natural do lado de fora, mas sendo impedidas por uma barreira invisível, o que está muito além da sua compreensão invertebrada.

    Sentado no chão, em frente à janela, está o pequeno Lucas. Um menino de 5 anos de idade, cabelos muito loiros, muito finos, cortados de um jeito que faz lembrar um capacete de ouro. Ele olha fixamente para aquelas moscas se debatendo contra a janela. Ele não consegue explicar em palavras o que sente naquele momento. Um frio na barriga, causa direta da excitação quase incontrolável com as possibilidades que se apresentam a sua frente. Para quem visse o menino ali sentado, era impossível perceber a corrente de emoções que, tal qual um rio caudaloso e revolto, atravessava o interior daquele corpo impassível.


    Já havia 10 dias que aquele mesmo ritual pós almoço se repetia. O garoto sentava-se em frente à janela e observava as moscas zunindo e batendo como loucas no vidro. A excitação que sentia vinha do fato não articulado em sua mente, ainda em formação, de que residia nele o poder de escolher qual delas ia sofrer as mais inomináveis torturas. O fato delas, tão preocupadas em alcançar o jardim lá fora, estarem alheias a presença de Lucas a espreita, como um deus ou demônio, deixavam as coisas ainda mais deliciosas.

     A escolha, esse momento de prazer irresistível, alongava-se por muitos minutos, as vezes alcançando mais de uma hora. Naquele dia, a escolha demorou ainda mais. Após a decisão tomada, Lucas levantou-se e, com destreza e rapidez incomuns, colheu a sua vítima usando apenas uma das mãos. Levou-a até o seu quarto, onde a fez sofrer as piores privações, começando por prendê-la num copo até que  ela ficasse sem oxigênio. Quando o inseto estava a um passo da asfixia, ele então deixava entrar um pouco de  ar, levantando um dos lados do copo, até a mosca se recuperar. E então ele repetia a operação.  Um vai e vem agonizante para o pobre inseto, mas excitante para Lucas. Dentre tantas outras privações, ele prendeu suas asas com alfinetes, arrancou-lhe uma das seis patas, jogou uma quantidade mínima de inseticida para apenas tonteá-la. O inseto durou cinco horas e 37 minutos em sofrimento constante até morrer. Lucas anotou o tempo em um caderno que mantinha escondido exatamente para este fim. Era o recorde. Parecia saciado e depois disso, como toda criança normal, foi jogar bola no jardim.

     No dia seguinte, Lucas voltava da escola sentindo-se estranho. Era como se pensar naquele momento após o almoço em frente a janela que dava para o jardim não fizesse mais sentido. Parecia pouco para ele. Foi quando passou por um terreno baldio muito perto de sua casa onde viu um grupo de cães vira lata perambulando sem destino, procurando o que comer. Aquele vai e vem frenético dos cães lembrava o das moscas na janela, só que eles eram obviamente maiores e apresentavam um novo desafio: ossos.  Ele abriu um sorriso. Toda a maldade do seu pequeno mundo cabia naquele sorriso. O pequeno Lucas estava pronto para o próximo passo.


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