Cindy Shoes (# pós felizes para sempre)

Mesmo depois de o país onde Cinderela e o Principe Encantado haviam reinado por tantos anos tivesse deixado de ser uma monarquia para transformar-se numa república presidencial, eles ainda continuavam a ser os soberanos. Afinal, ao contrário do que acontecera com Branca de Neve, o fim da monarquia devia-se a um acordo que tinha o povo como partícipe das mudanças, com bases sólidas na democracia e uma crença inabalável no capitalismo que, apesar de suas falhas, era tido por todos como o sistema econômico mais justo pois incentivava a concorrência sadia e o empreendedorismo. Neste contexto, o casal, que havia reinado com justiça e com uma extrema preocupação com a imagem, gozava de um prestígio sem igual perante a imensa maioria da população. Eram os mais queridinhos entre os queridinhos do país.

Não bastasse isso, Cinderela, principalmente ela, tinha o tal empreendedorismo supracitado como um talento natural. E foi este dom natural que levou o casal a uma nova era pós-reinado. Aproveitando-se de sua conhecida história de amor, onde um sapatinho de cristal teve participação definitiva no desenlace feliz, Cinderela, que agora prefere ser chamada de Cindy por questões de numerologia e porque também é “suuuuper fashion”, está lançando a sua coleção de sapatos da linha que leva o seu próprio nome em um grande evento internacional: a inauguração da primeira loja mundial da Cindy Shoes em Rodeo Drive, Los Angeles.

O evento é um dos mais concorridos do ano, com presença intensa da mídia e de celebridades que vão de figuras estelares do cinema, esportistas famosos, socialites e alguns alpinistas, que não estão categorizados como esportistas neste caso porque alpinismo social, evidentemente, não se trata de um esporte propriamente dito.

É possível ouvir uma babel de repórteres falando para as câmeras, o estalar desordenado dos clics dos fotógrafos como insetos esfomeados no meio de uma plantação de milho. “Podemos ver J.Lo com todo seu charme latino com várias sacolas Cindy Shoes a tiracolo. Cinco pares que em breve serão o sonho de consumo mundo a fora!”, diz uma repórter com cabelos loiros de verdade e seios fartos. Não tão verdadeiros quanto a cor dos cabelos.

“Agora estamos vendo uma cena impressionante. O encontro das realezas.” Diz uma outra repórter enquanto a câmera foca mostra o que ela descreve. “A eterna princesa Cindy em uma conversa a-ni-ma-dís-si-ma com a Duquesa de Cambrige e mulher do príncipe Philip, Kate. Um choque de nobreza, de beleza e de glamour. Caros colegas, morram de inveja de mim!”, esnoba a repórter com um sorriso maldoso.

Em outro canto, a estrela Sarah Jessica Parker concede entrevista a um repórter afro-americano (ai de mim que use outro termo em meio de gente tão correta) e afetadíssimo (ai de mim se use outro termo…bem, já entenderam)..

–        Sarah, como sabemos, ninguém entende mais de sapatos neste planeta do que você. Aliás, eu diria que no sistema solar não há ser vivo que possa ser comparada a você neste quesito. Estamos vendo aqui pelo 10 sacolas da gran premier Cindy Shoes penduradas nos seus ombros, isso mostra o seu “thumbs up”  para a nova marca?
–        A gente não podia esperar outra coisa de uma pessoa como Cindy. O sapato é parte da sua história de sucesso, de quem veio de baixo. Uma história que encantou o mundo…
–        O mundo e o príncipe, não é mesmo?

Completa o repórter que da uma gargalhada calculada da própria piada, jogando a cabeça para trás, porém, mantendo o microfone próximo a boca de Sarah, que também ri, mais por educação, e continua a sua explicação para sabe-se lá quantas milhões de pessoas que assistem o evento no mundo inteiro.

•       –        Evidente, que príncipe poderia resistir a uma mulher tão encantadora e com a força, o charme e a beleza dela. Os modelos são todos desenhados por ela e são lindos. Ja vejo nove em cada dez estrelas pisando no tapete vermelho do Oscar com um deles nos pés.
–        Nós ainda não tivemos oportunidade de ver a decoração, que ficou a cargo do próprio Masayasu Suzuki, gerente do prestigiado escritório da Garde aqui em Los Angeles.  Cindy proibiu os convidados de adiantar qualquer detalhe para não estragar o impacto que a decoração vai causar na imprensa.
–        Isso mesmo! Estou terminantemente proibida de falar antes de vocês entrarem, mas uma coisa eu posso dizer. Os sapatos de cristal que ela usou naquele baile são destaque no conjunto do design interior. É impressionante.
–        Ai, Sarah, sua víbora. Só você para nos revelar algo la de dentro e em vez de saciar nossa curiosidade, nos deixa ainda mais ansiosos.

Ele repete aquela gargalhada controlada com os dentes muito brancos a amostra e jogando novamente a cabeça para trás.

Enquanto isso, no outro lado da cidade, a fada madrinha assiste a tudo sentada em um sofá, perto da lareira, com expressão acabrunhada. Está triste assim por não levar crédito algum pela confecção do sapato de cristal e também pela sua própria participação na história de sucesso da sobrinha famosa. Foi completamente esquecida, posta de lado. Será?  Eis que o telefone da casa toca inesperadamente. Ela não recebe telefonemas em casa e tem o aparelho quase como um enfeite sala. Mas naquele dia ele tocou. Cismada, ela atendeu.

–                Alô?

–                Alô? Aqui Walter Brown, advogado e sócio da Gibson Dunn & Crutcher, LA? Falo com a Fada Madrinha?

–                 Sim.

–                 Eu suponho que a senhora esteja testemunhando o sucesso de sua, digamos, sobrinha e se perguntando, como nós mesmos estamos fazendo, porque a senhora, depois de tudo o que fez, foi totalmente esquecida.

–                 Na verdade, estou, sim.

–                      Infelizmente, essa é a natureza humana, minha senhora. E digo mais, eu posso até apostar que alguns daqueles modelos de calçados vendidos foram criados pela senhora.

–                     Todos eles –  a voz dela sai acompanhada de um suspiro desanimado. – Eu fiz muitos esboços até chegar naquele par de cristal. Muitos mesmo. Centenas. Eu dei para ela os esboços como um presente de casamento.

–                       Bem, parece que apareceram em couro, borracha e madeira nobre na loja de sua sobrinha. E isso, como a senhora sabe, é roubo de propriedade intelectual, passível de processo.

–                Será? – Espanta-se. –  Não sei. Não acho que isso precise ser levado adiante. A menina sofreu tantas privações sob os cuidados daquela megera e das primas. Isso fica guardado na alma, sabe? Quem garante que ela não vai dar o merecido crédito quando essa excitação toda passar?

–                   A senhora acredita nisso?

–                       Não.

–                       Olha, nós entendemos que a senhora esteja relutante, afinal, tem o espírito cordato como convém a toda Fada Madrinha. Tudo o que pedimos é uma visita a sua casa para expormos como seria o processo, a metodologia, os passos. Afinal, a senhora merece justiça.

–                       Está bem – resigna-se. – Vocês gostam de chá? Faço um ótimo de abóbora.

 


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