Entrou naquela rodoviária e sentiu um mundo que ao mesmo tempo lhe era estanho e também não era. É assim que nos sentimos quando encontramos algo que nos era corriqueiro há anos atrás, mas que, por força do progresso econômico, deixamos pra trás. Mas naquele dia, ele decidiu deixar o “conforto adquirido” e entrar em contato com o passado. Acostumara-se a fazer daquela viagem apenas um traslado, um pulo que transformava 500 quilômetros em 40 minutos num avião, tempo ínfimo para os seus padrões de trânsito caótico do dia a dia. Comprou a passagem para dali a uma hora e quinze minutos. Sacola com algumas roupas e outra com o computador e livros para ler a viagem penduradas uma em cada ombro, para o fardo não pender nem para o direita nem para a esquerda. O ambiente é frenético, de gente de deslocando pra lá e pra cá, como elétrons desnorteados num espaço quântico a procurar seus pares. Ele fica meio zonzo, tentando achar um lugar onde se sinta situado no mundo. Vislumbra uma fileira de cadeiras de metal, e uma especial parece lhe chamar. Esta isolada, entre duas outras também vazias. “É ali”, pensa, e vai resoluto atravessando aquela corrente desordenada de gente, torcendo para que ninguém ocupe aquele precioso espaço. Sucesso. Ele senta e tenta organizar os pertences. Celular no bolso da camisa. A bolsa das roupas embaixo da cadeira metálica. A bolsa com o computador e os livros no colo. Um filete de suor escorre pela testa. Ele passa as costa da mão direita e interrompe o seu curso descendente antes de chegou ao olho direito. Sente-se atraído por dois olhos arregalados que parecem estar a sua esquerda. Vira-se e encontra um garoto, deitado em duas cadeiras a fitá-lo com curiosidade e, como é típico dos pequenos, sem nenhuma vergonha. Ele dá um sorriso. Sem efeito. O garoto, uns 4 anos, continua a encará-lo com uma expressão vazia. Ele volta-se para frente e começa a olhar o entorno. Subitamente, tem sua atenção voltada para as placas luminosas sobre as bilheterias das diversas empresas de ônibus. Ali, além do nome das empresas, aparecem também os destinos. Ele começa a ler com curiosidade o nome das tantas localidades para onde as rodovias levam aquele mar de gente que se desloca ali dentro. Araguaina, Piritiba, Irecê, Icó, Iguatu, Eunápolis, Itamaraju, Caetité, Ponte Nova, Piraúba, Guarani, Manhumirim, Iuna, Medina, Rio Pomba, Anagé, Guanambi, Santo Estevão, Capela, Lajinha, Padre Paraíso, Parambu. Fosse ele um Cortázar, um Gabriel Garcia Marques ou um Jorge Luis Borges e ali estariam cenários perfeitos para uma história brilhante de realismo fantástico. Mas ele não era um autor genial. Era apenas um leitor ávido.