– Crepitar?
– Essa é boa.Realmente muito boa.
– E não é? Dúvido que na língua portuguesa tenha palavra mais fiel ao que ela própria define quanto essa.
– Deve ter. Deve ter, vamos ver…
– Crepitar é incrível, vai? É praticamente o que a madeira fala quando estala. A palavra é o som do que ela define.
– Pomposo.
– Quem? Eu?
– Não, pomposo é uma palavra fiel.
– Sob que critério?
– Se você falar a palavra pomposo para alguém que não entende português, eu tenho certeza de que a pessoa vai chutar e acertar. A sonoridade dela é perfeita.
– Esse critério do estrangeiro é bom, mas, cretpitar é melhor do que pomposo. É muito mais fiel. Não da para comparar.
– É tem razão. Mas tem que ter outra.
– Firula. Firula é concorrente séria.
– Ah, é verdade. Firula é bem fiel ao que ela significa. Se bem que, se usarmos o critério do estrangeiro e dissermos a ele que” isso na sua perna é uma firula” em vez de uma ferida, é capaz do sujeito acreditar, você não acha?
– Tem reazão, tem toda razão. Ah, mas tem uma boa: tique-taque.
– Pera…pera.Vamos impor regras. Onomatopéia não vale. Tem que ser palavra que define uma coisa ou ação. Imitação do som é óbvio que ganha.
– Certo, certo. Corretíssimo.
– Então tá, onomatopéia não vale.
– Combinado. Ah, olha essa: altivo.
– Essa é boa. É ouvir a palavra e me vem à cabeça aquela pessoa de queixo erguido, olhar decidido, mesmo nos piores momentos.
– É, mas se você colocar ao lado de crepitar, perde.
– E perde feio.
– Goleada acachapante?
– Opa, acachapante é boa.
– Acachapante vem como toneladas de argumentos caindo sobre a gente.
– É boa…é boa.
– Mas não como crepitar.
– Tem razão, perde de um a zero, nada acahapante, mas perde.
– E ingles? Tem ugly, eu acho fidelíssima.
– Inglês não. É contra as regras.
– E que tal diáfana.
– Sabe que eu não sei o que ela significa? Mas ouvindo assim, me parece uma pessoa sensivel, amável. Uma pessoa diáfama.
– Então essa está fora. Diáfama é uma coisa que, mesmo sólida, deixa passar a luz. Um véu de noiva, por exemplo, é uma coisa diáfama.
– Então, crepitar continua soberano.
– Bruxuleante.
– O que?
– A luz bruxuleante das velas.
– Opa, temos uma candidata. E tem a ver com fogo também. Não é uma coincidência? E por falar em bruxuleqnte, que tal lúgubre?
– Ah, lúgubre é outra séria candidata. Acho que se um estrangeiro ouve lúgubre, o castelo do Drácula é a primeira coisa que vem à cabeça dele.
– Castelo do Drácula me lembra vento. Vento que balança as árvores e faz as folhas farfalharem.
– Na mosca. Farfalhar é perfeito. Melhor do que crepitar. Muito mais fiél.
– Será?
– Hum. Pensando bem. Farfalhar. Crepitar. Crepitar. Farfalhar.
– Acho que temos um empate.
– Então, empatado está.


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