As pessoas que lotavam a pequena capela se dividiam em dois grupos: fixas e itinerantes. O primeiro estava lá há muito e só sairia após o sepultamento. O segundo era formado por gente que permanecia entre dez minutos e pouco mais de uma hora e era composto por amigos e alguns parentes mais distantes. O motivo da reunião era o Dr. João Carlos, ocupando um caixão marrom escuro no centro da capela, cercado por quatro lâmpadas que simulavam velas. Via-se duas fileiras de cadeiras de madeira encostadas nas paredes laterais. Os familiares e amigos mais chegados se revezavam na ocupação destas cadeiras. Só a viúva, dona Vicentina, tinha lugar cativo. Todos os presentes, fixos e itinerantes, passaram a sua frente como romeiros diante da estátua de um santo, apresentando gestos de reverência acompanhados de expressões comuns nesta hora triste como “meus pêsames” ou “meus sentimentos”.
Dentro da capela ouvia-se um murmúrio constante, muito baixo, como se todos receassem acordar o morto. Mas, à medida que nos afastássemos em direção ao exterior da capela, o volume das conversas ia aumentando. Os assuntos eram os mais variados. De discussões acaloradas sobre o sistema tático da selecção funcionar melhor com dois ou apenas um volante até a situação da pobre personagem principal da novela das oito, que desenvolvera um câncer, o que fez com que a atriz que a representava raspasse a cabeça para dar maior dramaticidade ao papel. Em outro bolinho era possível ouvir as teorias econômicas que poderiam salvar o país do marasmo. Dentre as tais medidas, um tiro na cabeça do ocupante da pasta da economia foi aventada com anuência de boa parte dos participantes. Em outra pequena reunião era possível ouvir dicas dos melhores lugares a visitar em Londres “uma cidade encantadora a despeito da sua horrenda culinária”. O pobre Dr. João Carlos pouco ou em nada era lembrado. É que os velórios têm este incrível poder de reunir gente que não se vê há muito, o que acaba deixando as referência ao falecido para o segundo plano, até porque isso é missão do padre e seria cumprida com maestria e emoção no momento do derradeiro adeus.
Só que uma pessoa acabaria por mudar o preceito acima descrito. Uma mulher cujo corpo era de uma beleza estonteante. Ela apareceu, subitamente, como que por encanto, tinha passos firmes, um andar de top model em passarela de Milão ou Paris. Dirigia-se para onde estava o caixão do falecido. Vestia um conjundo de saia e blazer que delineava as formas do corpo. Segurava uma rosa vermelha na mão direita. Uma enorme e chamativa rosa vermelha. Passou pelos grupinhos formados na frente da capela, altiva, cabelo preso embaixo do chapéu de abas estreitas, deixando um lindo pescoço à mostra. Homens e mulheres viravam a cabeça acompanhando a sua passagem. Embora ninguém abrisse a boca, era possível ouvir a pergunta pairando no ar como fumaça espessa de um charuto cubano: quem é esta mulher? Ela entrou na capela e deteve -se por alguns instantes ao lado do caixão onde o Dr. João Carlos descansava com uma expressão serena. Todos os olhares voltavam-se para ela. Pensava-se de tudo. “Podia ser neta dele”, “Velho deslavado sem vergonha”. “Onde é que o vovô arranjava tempo, meu Deus”. “Viagra, só pode ser o Viagra”. “Será que ela precisa de alguém para abrandar a tristeza?”. Num gesto pungente, depositou a rosa sobre o peito do Dr. João Carlos para depois ficar imóvel, por mais algum tempo, encarando o falecido, dando à tristeza a mais clássica das beleza . Uma lágrima escorreu-lhe pela face e acabou caindo na testa do ocupante do caixão. Ela pegou um lenço de dentro de sua bolsa e enxugou aquela testa marmórea, gélida. Dona Vicentina olhava atônita para aquela cena. Ninguém ousou chegar perto daquela mulher. Ela então se recompôs, virou-se em direção à saída e, com o mesmo passo resoluto, dirigiu-se para fora, passando por entre os grupinhos, cujos integrantes agora reviravam a cabeça para o lado inverso num efeito dominó provocado pelo seu gracioso movimento.
Foi ela sumir da vista de todos para o burburinho recomeçar, transformando-se rapidamente em uma verdadeira parafernália de vozes. Desta vez, o tema de todas as conversas era único: a mulher de luto. Finalmente, todos no velório falavam – mal ou bem – do morto. Dona Vicentina quase desmaiou, sendo acudida pela irmã que a abanava com o folheto do cemitério, pedindo freneticamente para alguém trazer um copo de água. Os dois filhos precipitaram-se ao mesmo tempo cada um com um copo de água nas mãos e por pouco não se chocaram. A outra irmã de dona Valentina parou ao lado do caixão e, no meio daquela confusão, tirou a rosa do peito do falecido, dizendo poucas e boas para ele em voz baixa. Jogou a prova da traição na lata do lixo. Até frequentadores dos velórios vizinhos vieram saber do morto que tivera a traição revelada na cerimônia de despedida.
Quanto à mulher, entrou no seu carro, pegou o jornal e consultou a página de obituários. Marcou com um x o anúncio de velório e enterro do Dr. João Carlos. Ao lado deste, havia outro anúncio: Anastácio Almeida. Querido avô, dedicado pai, amado marido. Estava sendo velado naquele exato momento em outro cemitério. Foi então que percebeu um florista vendendo rosas lindas, vermelhas, ainda mais bonitas do que aquela com a qual tinha entrado no velório do Dr. João Carlos. Saiu do carro, foi até o florista e escolheu a mais vistosa. Duvidava encontrar uma rosa como aquela no cemitério onde estava sendo velado o tal Anastácio Almeida.