Andava pelas ruas da pequena cidade com uma alegria que estufava o seu peito. Para todo lado que olhasse deparava-se com a simplicidade encarando-o de volta, mostrando seu sorriso sadio e os seus olhos leves. A simplicidade. A verdadeira só era possível de ser encontrada em lugares como aquele. Respirou fundo e abriu um sorriso do nada. Um ar gélido entrou elas suas narinas e espalhou para dentro do seu corpo um revigorante aroma que tinha a intenção inicial de ser doce, mas que no final revelava um amargo suave dos pinheiros que estavam por todo o lugar como guardiões atentos. Duas crianças brincavam e os seus rostos eram duas bolas vermelhas emolduradas por cabelos de um amarelo ouro que em nada lembrava a artificialidade dos cabelos que estava acostumado a pousar os olhos no seu antigo lar. Lembrou-se do brilhante ternura de Lupicínio Rodrigues. “É por isso que eu gosto lá de fora. Porque sei que a falsidade não vigora”.
Chamava a sua atenção o fato de que era capaz de ouvir os seus próprios passos, enquanto caminhava. Aliás, ouvia muito mais do que isso. Os sons que o seu corpo produzia eram perfeitamente audíveis vez por outra. Um roncar provocado pela digestão não lhe passava despercebido, antes ocultado por alguma buzina ou ronco de ônibus e de multidões frenéticas com que dividia espaços ínfimos.
A brisa, também gélida, sussurrava em seu ouvido. Ainda não entendia bem o que dizia, mas, de alguma forma, gostava do que ela dizia. Sentia-se alentado. Nunca ouviu tantos boa tarde de tantos desconhecidos que o presenteavam com com sorriso aberto, um contraste imenso com aquelas que fizeram parte de sua vida anterior, as quais nem lhe dirigiam o olhar, apesar de ocuparem o mesmo andar que ele por mais de oito horas por dia.
Sentia que velhos hábitos e pensamentos começavam a esvair-se lentamente de sua mente, tornando-se sendo levado para longe pelo ar saudável. As luzes dos postes de rua começavam a espocar numa salva de boas vindas à noite que chegava sorrateira. Elas se confundiam com as estrelas que começavam a aparecer no céu. As estrelas. Deteve-se por um instante para ficar olhando para o firmamento. As estrelas apareciam uma a uma, depois aos pares, como se uma mão invisível usasse uma caneta para fazer pontos brilhantes aleatoriamente no céu. Deu-se conta do espetáculo que era o anoitecer. Quando a noite se completou, recomeçou a sua caminhada.
Entrou em sua nova casa. Ela também sorria. Abriu um vinho. Sentou-se no alpendre e, dando pequenos goles, entregava-se ao prazer de estar matando uma saudade que havia no seu peito há muito. Uma saudade esquisita, ja que nunca vivera naquele lugar. Em vez disso, aquele lugar é que vivia dentro dele por anos e anos, chamando-o a cada dia em que se entregava a inércia caudalosa e confusa do progresso pessoal. Levantou uma taça de vinho e brindou o velho Lupicínio.