O Vestidinho Verde

Ele lia a sua revista calmamente no sofá da sala, aproveitando o começo da noite de sábado. O único som que ouvia era um eventual estalo do gelo em seu copo de Jack Daniels sobre a mesinha que fica ao lado da poltrona. Um silêncio que acalentava, abraçava, acolhia. A matéria da revista falava algo sobre pessoas que começaram a desenvolver técnicas para a fabricação de diamantes. Muito interessante. Ele praticamente devorava o artigo. Pegava o copo e dava um gole aqui, outro ali sem tirar os olhos da revista. Naquele instante, precioso, divino, o mundo era a pura perfeição. Respirava com êxtase, a alegria entrando pelas narinas e preenchendo seus pulmões. Nada seria capaz de quebrar o encanto daquele momento. A simplicidade como fonte de prazer. A não ser, claro, o fato de a sua filha de dezesseis anos estar descendo a escada trajando um mini vestido verde. O “toc – toc” do salto da sandália da filha delatando a sua descida pela escada. Ele tirou os olhos da revista e virou-se na direção do som. Estancou o olhar. Todo o seu bem estar esvaneceu-se como que por encanto. Ele podia jurar que viu a sua menina subindo a escada dizendo que ia se aprontar para a festa a fantasia. Agora, vê uma mulher descendo a escada. Uma mulher irritantemente maravilhosa, perturbadoramente encantadora. Olhou fixamente para o rosto dela para certificar-se de que era mesmo a sua filha. Havia uma grande esperança de que fosse uma amiga dela, mais liberada para usar um vestidinho daqueles. Não, não era.

 

-Alto lá –  ordena. – Que roupas são essas?

-A minha fantasia, pai – a filha responde naturalmente – pra festa.

-Minha filha, fantasia é cowboy, bataman, palhaço, anos 30, por exemplo, mas isso?

-Então, pai, eu estou indo de anos 70.

 

Suas pernas ficam bambas. Não bastasse sua filha naqueles trajes diminutos, ele se dá conta de que os seus amados anos 70, quando vicejaram Led Zeppelin, Pink Floyd e Raul Seixas, quando ele jogava futebol na escola e o corpo fazia o que o cérebro ordenava, tudo tinha virado passado. Um passado distante. Tão distante que nem tocava na existência de sua própria filha. Era motivo de fantasia em uma festa. Ele se irritou com aquela constatação acachapante, inconteste. Não estava ficando velho. Estava velho.

 

 

-Anos 70 o escambau – esbravejou. – Não com esse vestido.

-Mas pai, a mamãe me ajudou.

-Sua mãe? Ela nunca usou um vestido reduzido como esse.

-Mas esse vestido é dela – explica – aliás, ela disse que você adorava.

Sim, o vestidinho verde que a Joana usava e ele adorava. Ficava louco. A Joana tinha pernas lindas. Na verdade ainda tem, mas no tempo em que namoravam, eram as melhores pernas da escola. O pai dela, seu Bernardo, reclamava muito quando ela vestia aquele mini vestido verde. Seu Bernardo – que na época tinha a idade que ele tem agora – discutia com a dona Clarissa e ele só ficava ouvindo. A Dona Clarissa sempre contemporizava, dominava a ira do seu Bernardo com paciência e conversa. Ele adorava, quer dizer, idolatrava a sogra. Dona Clarissa sempre esteve adiante do seu tempo, bem informada das coisas pertinentes ao mundo da filha e dos amigos da filha. Era perfeitamente capaz de manter uma conversa com qualquer um da turma. Eles até esqueciam que era a mãe da Joana e só eram alertados quando soltava um ou outro termo que pensava ser moderno. O seu preferido era o “prafrentex”. Mas ela era tão bacana que todo mundo perdoava. Mas agora, olhando a própria filha com aquele vestidinho verde, não tinha mais tanta certeza se a sogra era assim tão boa influência.

-Ela disse? Bom, ela está enganada – gagueja, – Eu gostava era de outro vestidoverde.

 

 

-Pai, eu sei quando você está mentindo.

-Eeeeeeeeeeeu?

-Você sempre levanta a sobrancelha direita quando mente.

-Quem disse isso pra você?

-Ué, foi a…

-Não responde. Não responde. Já sei.

-Então? É ou não é aquele vestidinho verde que você adorava?

-Parece que é. – Diz contrariado. – Mas na sua mãe não tinha esses dois quilômetros de perna aparecendo.

-Não exagera, Arnaldo – intromete-se Joana descendo a escada – O vestido ficou uma graça nela.

-Mas ela é muito mais alta do que você. Logo ele está muito mais curto. Olha essas pernas, Joana.

-Não são lindas?

-Implicância não. – Irrita-se. – Filhinha, sua mãe tem uma bata indiana muito mais anos 70 do que esse vestido.

-Puiu, Arnaldo. A bata indiana que o papai adorava e que me cobria do pescoço até as canelas puiu.

-Eu vou com o vestido verde, pai. Ele tá o máximo.

-O mínimo. Você quer dizer o mínimo.

-Não seja incoerente Arnaldo. – Irrita-se Joana. – Se era bom pra você na época, é bom pra você agora.

-A incoerência é uma qualidade, Joana. Incoerência significa mudança. Tudo nesse mundo muda. Eu mudei. Eu evoluí.

-Isso não é evoluir, é virar a casaca.

-Nada me convence a deixar a menina ir a festa com esse vestido.

-Mãe! – Desespera-se a filha

-Sem pudim de leite.

-Golpe baixo não, Joana. Golpe baixo não.

-Ou ela vai a festa assim ou nunca mais você vai comer meu pudim de leite.

-Hoje vai ter?

-To indo pra cozinha.

 

A festa foi ótima. O vestidinho verde foi um sucesso. E o Arnaldo comeu todo o pudim naquela noite mesmo. Ele tinha que fazer alguma coisa enquanto esperava a menina chegar em casa.

 

 


Leave a comment