Melissa não entendeu patavina quando viu a cena. Gilberto arrumava o quarto de Marina. Arrumava copiosamente. Arrumava sofregamente. Colocava ordem nas mínimas coisas. Nem Maria, que naquele domingo gozava o merecido descanso semanal, arrumava aquele quarto com o zelo empregado por Gilberto. Ele dava tanta atenção ao que estava fazendo que nem percebeu a esposa ali parada. A expressão no rosto dele era de uma compenetração tão acachapante que nada tirava o foco de sua missão auto infringida.“ Mas o que deu no Gilberto para arrumar o quarto da filha desse jeito em pleno domingo?” perguntava-se. Ele adorava arrumar o quarto dela no tempo em que ela não tinha coordenação motora necessária para tal empreitada. Ordenava os brinquedos, os bonecos de pelúcia como se fizesse um carinho na filha. Mas esse não era mais o caso. Gilberto vivia travando batalhas e mais batalhas de uma guerra que parecia eterna. Discussões intermináveis dentro dos seus cinco minutos de duração. “Marina, pelo amor de Deus, esse quarto parece uma cena do apocalipse!”, gritava ele diante de camisas jogadas ou penduradas em lugares insólitos como a luminária, de um tapete formado por livros e cadernos espalhados, de calças retorcidas e pés de tênis solitários, hora um pé direito, hora o esquerdo. Marina respondia com a suas duas palavras preferidas: “Não enche!”, que as vezes era acrescida de um artigo e um sujeito “o saco!”. Um objeto direto no queixo do pai, que sentia o golpe, mas mantinha a fleuma por fora e a irritação crescente por dentro. Gilberto recusava-se a arrumar o quarto que mais parecia a instalação de algum artista obscuro e fadado ao fracasso. Ordenava a Maria, a empregada para, no máximo, arrumar a cama e mais nada. Achando que a negligência da filha fizesse com que a bagunça atingisse a níveis tão insuportáveis até para a dona do recinto e esta, vencida, procederia a uma arrumação decente. O plano foi um total fracasso. A filha arrumou umas três ou quatro vezes o quarto, se muito. Nas outras duzentas e oitenta e cinco vezes a arrumação foi feita por Maria, sempre as escondidas em comum acordo com Marina. Quando Gilberto descobriu a conspiração entre as duas quase cometeu a insanidade de demitir a pobre Maria. Maria adora Marina. Viu-a nascer, viu-a virar mulher aos onze anos, dois anos antes deste exato momento em que Gilberto opera a arrumação insólita. Melissa estava encafifada. Gilberto simplesmente capitulou? Não. Gilberto não era homem de desistir. Havia algo mais. Algo que o estava impelindo a fazer aquilo. Depois de um tempo observando o marido percebeu algo mais do que vontade de ver o quarto organizado. Havia ternura no olhar dele. E os gestos? Os gestos não eram de quem arrumava o quarto pragmaticamente. Eram carícias. Isso mesmo, é como se ele estivesse acariciando aquele quarto inteiro e não pondo ordem, simplesmente. Como no tempo em que Marina era uma criança sem coordenação para arrumar o quarto. “O beijo”, pensou Melissa. O primeiro beijo da Marina, o acontecimento da festa na noite anterior. “De língua?”, Gilberto perguntou. Claro que era de língua. “Mas não conta pra ela que eu te contei, Gilberto”. Ele só virou para o lado e pegou no sono. Marina está certa de que essa arrumação tem uma relação direta com a ocorrência da noite anterior.
– O que você está fazendo, Gilberto?
– Voltando ao passado, Melissa. Voltando ao passado.
Ele falou com um sorriso distante. Melissa deixou Gilberto com a sua máquina do tempo. Se era esse o jeito dele aceitar a filha crescendo, mal não fazia.