Estão todos reunidos no tribunal de conciliação trabalhista. De um lado os sete anões. De outro, Branca de Neve que, apesar de estar passando por privações e depois de anos passados do final feliz da estória que a consagrou, ainda apresenta traços daquela pele alva e ainda firme, que, reunidos a um olhar maduro e digno compunham a figura de uma mulher ainda muito interessante. O juiz trabalhista concorda com tal descrição, tanto que mal consegue desviar seu olhar guloso dela. Branca de Neve conheceu a dureza de perder tudo quando o reino deixou de ser uma monarquia e se tornou uma republiqueta governada por um ditador de esquerda, El Guapo Gonzales, após uma revolução apoiada pelo dinheiro vindo das minas pertencentes aos sete anões, que, por conta desse apoio, deram-se muito bem com a troca de regime. Eles ficaram com o direito irrestrito sobre as minas e toda a área do bosque, tansformada em patrimônio ecológico, o que, na realidade, protegia mesmo era a sanha exploratória dos sete anões. Eles destruíam cursos d’agua, a procura de ouro, tudo sob as vistas grossas da fiscalização do ministério da ecologia, que ganhava a sua percentagem em troca desta cegueira um tanto convencional. Já El Guapo Gonzales adonou-se de todas a riqueza da família real, incluindo o castelo, terras e os negócios herdados pelo príncipe encantado – que virou rei anos antes de ser deposto – o que não era pouca coisa. Ao contrário de outros ditadores, El Guapo Gonzales poupou o ex-rei de um destino comum a outros ex-reis que, ou foram fuzilados, ou enforcados ou tiveram sua cabeça cortada. O ditador achava que jogar o príncipe e a sua alva esposa à própria sorte, obrigando-os a trabalhar era um “castigo muito mais cruel para um “reizinho vagabundo que só tinha habilidade para levar taças de vinho à boca, montar cavalos de raça e contar dinheiro de impostos escorchantes”, que, por sinal, continuaram escorchantes sob o novo regime. Branca de Neve e o rei deposto foram morar na casa que antes pertencia aos setes anões, que haviam se mudado para um palacete de dez mil metros quadrados de terreno, com piscina de água salgada, quadras de tênis, futebol, haras e uma quadra coberta de um esporte muito popular naquele país cujo nome é impronunciável e as regras são complicadas mas envolvem o chute no saco de javalis. Mas os anões não entregaram a casa de mão beijada. Cobram aluguel para os dois ocuparem a casa, pago em serviços de manutenção da mesma. Branca de Neve e o ex-rei, na verdade, são caseiros que não custam nada para os sete mini patrões. Este é o motivo pelo qual ela está diante de um juiz da tribunal trabalhista, que continua com os olhos esbugalhados no decote da pobre mulher. Encontrou um advogado de boa índole e ainda não corrompido que decidiu representá-la em uma ação contra os sete anões. Além de reclamar pagamento do salário de caseira, ela também pleiteia um adicional de insalubridade, pois a casa, que tem uma altura mais adaptada aos antigos moradores, acabou sendo a causa de dores nas costas da pobre Branca de Neve, já que, para se locomover pelos cômodos da casa, precisa andar levemente encurvada o tempo todo. O ex-rei não sofre deste mal, já que vive no bar da cidade se entorpecendo de vinho barato e quando precisa de algum para pagar o vício, ou rouba os incautos que passam desavisados, pelo bosque – ele é bom com a espada – ou tira do pouco que a pobre Branca de Neve consegue com bicos como costurar e lavar roupa pra fora, as vezes, a tapas. O fato é que ele sempre cai estatelado em algum pedaço ermo do bosque a caminho de casa vindo do bar a noite e por isso mal entra na residência. Daí, a sua coluna estar em ordem, embora o seu fígado provavelmente já não se comporte de maneira adequada. O clima é tenso. O advogado de Branca de Neve fez as considerações. Depois, foi a vez das considerações dos 3 advogados dos sete anões, cada um usando um anel de rubi imenso, pedra oriunda das minas dos pequenos empresários. O juiz. Mal agradecida foi a expressão mais branda usada para definir aquela que pleiteava os seus direitos. O Juiz ouviu a tudo pacientemente, de vez em quando olhando para Branca de Neve com olhares libidinosos. Após as explanações, o juiz, sem titubear, deu ganho de causa para Branca de Neve, para surpresa dos sete pequenos vivaldinos. “Como assim?”, pensavam. “Esse juiz não tem ideia de onde se meteu.”, “somos amigos do poder”. O que eles não sabem é que após o término do embate, o juiz encontrou-se com Branca de Neve numa gruta em lugar recôndido no bosque que só ela conhecia. E ali, fizeram amor tórrido. Talvez os sete anões sejam amigos do poder. Mas o poder mesmo emanava daqueles seios ainda firmes, com mamilos róseos a contrastar com a pele alva e daquele sexo com cheiro de erva doce que Branca de Neve oferecia ao magistrado. Que juiz de 65 anos, corrupto ou não, resistiria a tudo isso?