O redator da agência de propaganda estava exultante quando abriu o jornal naquela manhã de quinta feira. Ao ler a manchete sobre o famoso cantor brega e romântico, conhecido pelos seus shows onde a platéia feminina arremessava calcinhas ao palco, estava na UTI de um hospital acomedido de grafe infecção generalizada. Ao ler a reportagem não tinha dúvidas que o fim do “cantor das calcinhas” estava decretado e era só uma questão de tempo. Nosso redator era só sorrisos. Não que ele odiasse o tal cantor a ponto de querer vê-lo morto, você que está lendo vai pensar. Nada disso. Para ele, o cantor não fedia e nem cheirava. Ele estava exultante porque a agência de publicidade para a qual trabalhava tinha uma conta de lingerie. “Que oportunidade!”, pensava ele, “para reforçarmos as qualidade de nossa marca de calcinhas e para emplacarmos anúncios que, quem sabe, vai nos render prêmios e mais prêmios. Ja me vejo nos palcos recebendo estatuetas pela minha criatividade meu senso de oportunidade”
Chegou na agência com o sorriso de orelha em orelha. Sentou-se a frente de seu computador e passou a escrever títulos para fazer um anúncio de oportunidade para as calcinhas. Enquanto isso, seu companheiro de criação, um diretor de arte também comprometido com a causa da marca e também com muita vontade de subir ao mesmo palco d seu companheiro de trabalho, ja trabalhava nos layouts do anúncio esperando os túmulos para ali colocá-los. Vez por outra, acessavam a internet para acompanhar o caso do cantor em real time. “Calma, não morre ainda que a gente não chegou numa ideia boa.”, falava o diretor de arte feliz com o fato de o cantor ainda estar agonizando, porém vivo.
Eles não só chegaram a ideia de um anúncio, como também tiveram outras idéia batizadas de geniais só esperando o cantor bater as botas. “ Um desfile da nova coleção de calcinhas em pleno velório do cantor…” sugeriu o redator, ideia amplamente apoiada pelo diretor de arte entre sorrisos e a repetição da palavra “brilhante” incessantemente. O diretor de arte também sugeriu que a marca mandasse a sua própria coroa de flores para o velório do cantor, ao que o redator emendou “e se a gente sugerir ao cliente um lançamento de uma coleção póstuma: modelos de calcinhas pretas e floreadas, sendo que as flores são cravos?” o diretor de arte vibrava, “genial, genial”.
As ideias foram apresentadas para o diretor de marketing da marca de calcinhas que vibrava com a mesma intensidade dos criadores da agência. “É a minha chance de fazer história. O divisor de águas da mina carreira!”, pensava o profissional. Que oportunidade!” , alegrou-se, “vamos logo fazer tudo e já deixar pronto.” E assim foi feito. A fábrica funcionando a todo vapor para confeccionar a coleção póstuma. Um concurso interno na agência colocou todos para trabalharem na melhor frase para a coroa de flores “quem ganhar vai para o festival de Cannes com tudo pago!” gritava o diretor de criação. Em dez dias tudo estava pronto, impresso, só esperando o cantor passar desta para melhor. Foram dias de nervos. Todo junto acompanhando o caso.
– Nada? – Pergunta o redator
– Nada. – Responde o diretor de arte desconsolado.
– Pô, esse cara vai ou não vai?
– Pois é, não vejo a hora de ver a campanha na rua.
Mais um dia se passava seguido de outro e de mais outro, e assim sucessivos dias se passavam com o cantor firme na UTI respirando por aparelhos, para o desespero da agência e daquele diretor de marketing. Dias e noites de vigília na agência na torcida pelo ceifador. Um estagiário foi mandado para o hospital para saber em primeiríssima mão o momento em que o cantor morreria para que todo o esquema publicitário fosse posto em prática. “Estagiário está aí pra isso mesmo.” , dizia o diretor de ciração. O telefone da agência toca. O director de criação precipita-se sobre o aparelho e põe no ouvido “Sim,pode passar”… “sou eu, Carlos Eduardo…como? Ah, sim Luiz Eduardo. Então? Boas novas. Morreu finalmente?” A pergunta é seguida pelo silêncio. O redator e o diretor de arte olham para o diretor de criação com a ânsia saindo por todos os orifícios. O diretor de criação desliga o telefone. “Uma tragédia!”, diz com voz embargada. “Ele se recuperou milagrosamente! Não morre mais por agora.” Os outros dois choram copiosamente. O redactor repete sem parar “Morreu nossa campanha. Morreu nossa campanha”.