“Não é um processo complicado. Em verdade, é tão simples. E é isso que impressiona na mente de Deus, não é mesmo? A simplicidade. O prosaico. O óbvio. É por isso que poucos alcançam a mente Dele. Acham que Deus está no complexo. Acham o universo complexo? Cada coisa no universo é o resultado da lei da causa e efeito. Isso não é simples? Mas voltemos ao meu processo e às minhas motivações. Eu acordo pela manhã e um dia eu simplesmente digo a mim mesmo: hoje é um bom dia. Então me preparo. Tomo um banho lento. Sinto cada gota d’agua que golpeia o meu corpo. Sou capaz de contá-las. Uma por uma. Sou capaz de dar nomes a cada uma delas. Ah, a excitação! Cada célula do meu corpo está determinada. Vocês já sentiram isso? Cada célula de cada órgão vibrando por um objetivo? Ah, vocês não têm pista de como é sentir isso, têm? Não têm, vejo pelas suas expressões desatinadas. Continuemos. Coloco uma roupa, pego o meu iPod e faço uma selecção de musicas, como chamam?…playlist. Vou escolhendo ao acaso mas, curiosamente, a seleção sai com uma coerência impressionante. Saio de casa e ando em direcção ao parque. No caminho, só me detenho para comprar um copo de capuccino e um biscoito doce. Ando pela rua e agora sinto o vento no meu rosto, os odores e aromas são plena e facilmente destacáveis. Diesel. Gasolina. Channel. Bolo. Costelas de porco. Suor. Posso ficar a manhã inteira relatando tudo o que entrou pelas minha narinas e que o meu cérebro foi capaz de identificar. Quando chego ao parque escolho um banco. Um que me proporcione boa visão, de onde eu possa observar a multitude que é a espécie humana. Vocês, que vivem suas vidinhas nessa patética ordem de compromissos regidos por uma máquina atada aos seus pulsos não fazem ideia da riqueza da qual vocês fazem parte. O tempo importa para vocês, não é mesmo? Até que horas vai o seu turno? E o seu? Patético. Eu não tenho turnos. As coisas são as coisas e se sucedem. Ponto. Causa e efeito, viu? Assim como Deus fez. Eu sento no banco do parque, coloco os fones e passo ouvir a minha playlist enquanto observo as pessoas. Eis o máximo da excitação da qual eu antecipava. Eis o momento. O motivo que causou todas as reacções anteriores em mim descritas aqui. O ápice do meu dia. Eu, sentado, ouvindo um música, experimentando a minha invisibilidade, a minha total insignificância aos olhos dos que ali andam, correm, passeiam, tomam sol. Um deles não vai chegar em casa. Nunca mais. Não é divino? Um ser invisível que simplesmente aponta o seu dedo para alguém e esse alguém, momentos depois, cessa de existir. Meu dedo aponta para várias pessoas. Depois muda de direcção. Vocês tem ideia.? Um dedo condena e depois absolve. Meu dedo é como uma doença. E o apontado não faz a menor ideia de que foi condenado por alguns segundos para depois ser salvo pelo meu desinteresse. Ah, isso é ser Deus. Você vai morrer. Não, vou poupá-lo. ? Você é que vai morrer. Pensando bem, não. Você ja se masturbou? Longamente. Por uma, duas horas sempre segurando o gozo e prolongando o final? É a mesma coisa. Condeno e salvo, condeno, salvo. Centenas de seres humanos. Até que o meu dedo aponta alguém e esse alguém combina com a música que estou escutando. O ritmo do andar. As roupas. O jeito. É a música que eu estou ouvindo em forma de gente. Em forma de vítima. Meu dedo não consegue parar de apontar. Levanto. Passo a seguir seja essa pessoa quem for: homem, mulher, criança. No caminho, passo por muitos dos quais meu dedo desistiu. Eu sinto prazer ao passar perto deles. De sentir os seus cheiros. Da presença deles vivos, respirando, provando a minha divindade. O resto da história é apenas o desfecho obrigatório. Uma formalidade aborrecida. Matar não tem tanta graça, mas é uma necessidade. Eu só mato porque é o ato que torna real toda a excitação. Matar é o ponto final de uma sentença, de um conto. Se não estivesse lá, seria errado e tudo o que aconteceu antes não teria sentido.”
Os dois investigadores se olharam. Não tinham muito mais o que fazer. Levaram o matador para a cela imaginando se alguma vez o dedo dele tinha apontado para um deles.