Andava para lá e para cá em seu pequeno apartamento, ansiosa. Ele tinha ligado e marcado hora. Ligou no dia anterior, como de costume. E por ele, fazia qualquer coisa. Naquele dia não aceitou cliente nenhum. Era o dia em que ele vinha e, portanto, não lhe interessava ganhar dinheiro. Olhava o relógio com um Mickey no centro. Presente fútil (não para ela) que ele tinha trazido de uma viagem a Disney com a família. Os braços do personagem que faziam as vezes de ponteiros marcavam sete horas e cinquenta minutos. Faltavam dez minutos. Uma pontada que não era nem frio, nem coceira, nem mesmo pontada, um vazio que parecia cheio, tomou conta de sua barriga. Os saltos dos sapatos pareciam castanholas frenéticas num flamenco ansioso. Vez por outra perguntava-se como tinha baixado a guarda e deixado chegar àquele ponto. Como aquele homem havia invadido o seu escudo protetor até então impenetrável. Homens até mais bonitos, mais jovens e mais charmosos nunca o haviam transposto. Perguntava-se constantemente o que tinha ele feito para conseguir tal feito. Até o conhecer, tinha sido um exemplo perfeito de garota de programa. Linda, um corpo escultural, mais inteligente que a média e, no entanto, havia se colocado naquela situação a que nenhuma garota de programa devia estar metida. Estava perdidamente apaixonada por um cliente. Tudo bem, ele não era uma pessoa completamente insensível, que a tratava como uma máquina. Isso não. Tinha algum interesse em sua vida durante as duas horas do programa que ela deixava passar, as vezes até em dobro. Queria saber o que ela tinha feito no final de semana, Adorava quando ele falava de cinema e do seu diretor preferido, Alfred Hitchcock. Chegaram a assistir alguns filmes do mestre do suspense nus em cima da cama.

A campainha do apartamento tocou. Ela saiu correndo, mas não para atender a porta e sim para o espelho do quarto. A derradeira verificada para ver se estava tudo certo. Se tudo que ele gostava estava naquela imagem do espelho. Aprendeu tudo aquilo que ele gostava. Algumas coisas ele deixou claro, outras, percebeu pela convivência. O coração disparado. Respirou fundo para não transparecer a ansiedade. Abriu a porta. Ele deu um sorriso e ela quase desmontou. Foi um esforço inútil. Durou apenas uns dois, talvez três segundos. Depois disso, jogou o corpo contra o dele e os seus lábios encontraram os dele. Eles se beijavam enquanto andavam pra dentro do apartamento. Ele, como um craque do futebol, fechou a porta usando o calcanhar direito. Após as bocas se separarem ele pediu um uísque. Ele mesmo tinha levado algumas garrafas em um encontro anterior. Ela adorava quando ele pedia um drink. Sentia-se, naquele ínfimo momento, a sua mulher. Se pedisse para ela passar alguma de suas camisas naquele momento ela o faria com um prazer incontestável. Vestida daquele jeito mesmo, incluindo a cinta-liga. Ela trouxe dois copos baixos, que aliás, ele também tinha deixado lá, com uísque e bastante gelo. Conversaram um pouco. Ela percebeu que sorria, que gargalhava. Adorava aquela conversa pré-programa. Ela levantou-se, já ardendo. Queria o corpo dele. Começou ela a tirar-lhe a roupa. Desabotoou a camisa enquanto beijava o peito dele. Adorava o resquício de perfume que ele provavelmente tinha colocado pela manhã mas que ainda estava registrado em pelos do seu peito misturado ao suor suave de um dia de trabalho no escritório. Viva um sonho. Seu escudo protetor completamente desativado. Ele então afastou a cabeça dela por um instante e levantou-se. Tirou a carteira do bolso e colocou um maço de notas sobre uma pequena mesa. Ela sentiu-se levemente desconcertada com aquilo. Como sempre sentia quando ele fazia aquele gesto. Em seguida ele tirou a aliança da mão. E aquele novo gesto foi totalmente inusitado. Na verdade ele nu ca trazia a aliança. Talvez a tivesse esquecido de tirar no carro. O fato é que aquele gesto a deixou horrorizada. Petrificada. Era um recado claro, só que desta vez dado cara a cara. Era um ato desinfetante. A aliança não podia encostar em seu corpo. Ele poderia infestar aquele pedaço de ouro. Sentiu-se como uma doença, um animal microscópico capaz de provocar febre, vômitos e incômodo em sua preciosa mulher e nos seus queridos filhos. Ele passou a mão em seu rosto, olhou nos seus olhos sem perceber o horror que eles traziam e foi para o banho. Ela continuou parada no meio da sala, sem chão e com um ódio crescente se apoderando do seu corpo. O som do chuveiro recém ligado a colocou de volta no mundo. Sentia-se insuportavelmente pequena. Foi até a cozinha e pegou a maior e mais afiada faca que estava a mão. Em seguida, dirigiu-se até o banheiro e repetiu uma das cenas mais famosas de Hitchcock, o diretor de cinema preferido dele.


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