O Ermitão do D&D.

Marcelo já trafegava por alguns minutos tentando sair da garagem do Shopping D&D. As placas que indicavam a saída geralmente o levavam a outras placas que igualmente indicavam a saída. Direita, esquerda, esquerda outra vez, e novamente a esquerda e dava de cara com outra placa. Marcelo estava quase perdendo a paciência quando aconteceu o fato insólio. Subitamente, um vulto aparece em sua frente saindo de trás de uma coluna, como um gato atravessando a rua. Marcelo bem que tentou frear, pisando tão fundo que, se tivesse um pouco mais de força, provavelmente faria com que seu pé direito atravessasse o assoalho indo encontrar o piso da própria garagem. Não foi suficiente para que o carro parasse antes de atingir o vulto. O som seco do carro atingindo aquele corpo a sua frente, que foi jogado a alguns metros a frente caindo desfalicido no chão. Marcelo devia estar a pouco mais de vinte quilômetros por hora. O carro, enfim parou. O coração de Marcelo quase. Agora, ao contrário, batia acelerado. As pernas moles não permitiam que ele saísse do carro. Mas era preciso. Ele havia atropelado alguém que estava caído no chão e ainda não levantara. Olhou para os lados e não avistou alma alguma que pudesse ter testemunhado o fato.

Marcelo finalmente encontrou calma e forças para descer do carro e ver quem estava ali, caído no chão. Andou e o que viu pareceu a ele muito estranho. Um homem vestindo um jeans muito surrado e rasgado, tão rasgado quanto a sua camisa e um coturno já muito gasto e sem cordões. Os cabelos desgrenhados e uma barba enorme, provavelmente aquele rosto não via uma lâmina há muitos anos. Marcelo ajoelha-se e o cheiro proveniente daquele homem não é dos mais agradáveis. Mas uma coisa é perceptível. O homem respira e agora geme e move-se muito lentamente. Provavelmente bateu com a cabeça no chão e perdeu os sentidos. Lentamente, o homem abre os olhos. Por baixo daquela barba espeça e desalinhada, há uma pele exageradamente branca, como se nunca fosse tocada pelo sol. Uma pele quase cadavélica. Os olhos se arregalam, como que não acreditando que alguém o estivesse notando. O homem salta sobre Marcelo e o abraça efusivamente gritando.

– Gracas a Deus…Graças a Deus!
– Calma, calma – Marcelo o afasta. – Está tudo bem?
– Ah, meu bom homem, agora sim. Agora está! – Diz com lágrimas nos olhos.
– Não está ferido? Não quebrou nada?
– Bendito atropelamento! – Emociona-se o barabado.
– Do que está falando, homem? Qual o seu nome?

O homem, antes de responder às questões de Marcelo põe-se a chorar copiosamente. Marcelo não tem reação a não ser olhá-lo e tentar acalmá-lo para que ele falasse.

– O senhor não sabe – retoma soluçando o barbado – o que tem sido minha vida. Estou nessa garagem desde o final da construção desse prédio.

A história é das mais estapafúrdias. Mas olhando nos olhos daquele homem, Marcelo vê sinceridade. O estado daquela pobre figura ajuda a tornar o seu relato aceitável.

– Essa garagem, meu bom homem. Essa garagem é um verdadeiro labirinto. Após o final da obra eu saía com o último grupo de trabalhadores e notei que tinha esquecido a minha garrafa térmica. Voltei para pegar a garrafa e, sozinho, nuca mais fui capaz de achar a saída. Tenho vivido aqui desde então, meu bom homem.
– O senhor está me dizendo que vive dentro dessa garagem desde que o prédio foi construído?
– Sim. Fiquei preso nesse emaranhado de placas e colunas. Tentando sair em vão. Tive momentos em que perdi a razão.
– Mas quando os carros começaram a chegar, as pessoas. Por que nunca falou com elas, perguntou a saída.
– Ninguém me dava a mínima atenção. Achavam que eu era um mendigo que ia pedir dinheiro e fechavam o vidro do carro em minha cara. Os guardas do estacionamento eram duros, um até me bateu. Passei a fugfir deles.

Marcelo se apiedou daquele homem. Recluso, longe do mundo, preso em um labirinto urbano, uma ilha incomuncável dentro da metrópole desalmada. Pôs o pobre homem no carro e se dirigiu ao hospital. Ele precisava de tratamento urgente. Era preciso achar a sua família. Teria ele filhos? Mãe? Pai? Esposa? Aquela história em breve estaria em todos os jornais. Em todas as rádios e televisões. A incrível história do peão de obra que viveu por mais de dez anos preso na garagem de um complexo de prédios e shopping center. A incrível história do ermitão do D&D.

-x-

Rádios, televisões, com suas câmeras e gravadores apinhavam-se na frente do hospital. Todos querendo uma imagem, uma palavra um pedaço do que eles mesmo rotularam como o Ermitão do D&D. O pobre peão de obra que ficou por dez anos tentando sair da garagem do prédio sem sucesso. Em poucos instantes, descobriram ser ele Juvêncio da Costa, que na época da construçnao tinha 25 anos e hoje estava dez anos mais velho. Era casado com Marina De Oliveira da Costa e com ela tem três filhos: Osvaldson, Amaralina e Paulo Henrique. O verbo ser no passado na linha acima tem uma razão. Com dez anos de desaparecimento, Juvêncio foi considerado como morto e ela pode então casar de novo. Obviamente isso agora é um problema a ser considerado.

Dentro do hospital, um Juvêncio já de barba feita conta para policiais e médicos o seu calvário dentro da garagem do referido shopping center.

– Os primeiros dias foram de desespero. Tentava seguir as placas mas elas não me levavam exatamente a lugar algum. Andava, andava e de repente aparecia uma parede bem na frente, tinha que voltar. Berrava em desespero.

Nesse momento, a lembrança dos primeiros dias preso dentro da garagem labiríntica do shopping faz brotar lágrimas nos olhos de Juvêncio.

– E como você fazia para se alimentar? – Pergunta um dos médicos.
– Comia restos dos restaurantes que chegavam na garagem.

A imprensa obviamente correu atrás da companhia de cosntrução e do arquiteto que projetou a garagem, mas a acessoria tanto de um quanto de outro recusaram-se a falar sobre o homem que ficou dez anos preso no estacionamento do D&D. Aliás, o shopping se resumiu a lançar apenas uma nota onde “sentia profundamente o ocorrido” e oferecia uma cama a escolha da vítima como forma de “compensar pelos anos mal dormidos”.

O alvoroço se tornou ainda maior na frente do hospital quando a mulher, o marido atual e os três filhos chegaram. Foi preciso um cordão de isolamento para que eles pudessem entrar no hospital. As perguntas eram feitas ao mesmo tempo pelo enxame de repórteres. Cliques alucinados das cêmras fotográficas, luzes ofuscando os ohos daquelas cinco pessoas que há bem pouco sequer poderiam cogitar algum resquício da celebridade que agora experimentavam. Mas como disse um dos faxineiros do hospital que por ali passava no momento “pobre só fica famoso com tragédia”.

Antes de entrar no hospital, e conseguindo entender uma das perguntas em meio a tantas formuladas atabalhoadamente, Marina pára, vira-se para todos e, com olhar de pessoa humilde, porém altiva, responde.

– Ontem fui dormir com meu marido atual, o Juarez. Hoje, acordo com dois. O meu pobre Juvência comeu o pão que o diabo amassou preso naquela garagem, sem conseguir sair lá de dentro. Só Deus faz idéia do sofrimento que eu e as crianças passamos. Eu espero que a justiça seja feita e que essa gente que desenhou aquele lugar fique presa, pelo menos, pelos mesmos dez anos que o meu Juvêncio…
– Seu?

Os microfones captam a pergunta do atual marido ao lado dela. Aquele “Seu?” contrariado. Ela cai em prantos. Mais cliques alucinados brigando pelo choro trágico que irá para as capas dos jornais do dia seguinte. Eles dão as costas para os repórteres e entram no hospital.

Lá em cima, um Juvêncio emocionado e ansioso espera a família subir.

– Vou rever minha mulher. Meus filhos. É tanta coisa boa. Pra ficar melhor só se o companheiro Lula fosse presidente.

Médicos e enfermeiras se resumiram a trocar olhares. Seria melhor que ele soubesse das novidades aos poucos.


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