Um Natal politicamente correto.

Papai Noel acordou fora do horário. Antes do seu despertador tocar e por isso, mesmo sendo um bom velhinho, estava irritado por causa disso. Papai Noel é uma entidade muito apegada a sua rotina e esta tinha sido quebrada. O motivo era uma algazarra que se formava do lado de fora, em frente a sua casa. Pessoas gritando palavras de ordem como “Ena, ena, ena. Estamos aqui pra salvar a rena!” e outras coisas de gosto e rima duvidosos. O Papai Noel levantou e nem se preocupou em lavar o rosto. Foi até a janela do quarto, que dava para frente da casa e, de lá, pode ver um enorme aglomerado de gente acabando com a paz do seu lar. Uma multidão segurando cartazes do Greenpeace. Ele abriu a janela e gritou para que parassem com aquela barulheira infernal e o que recebeu em troca foi uma bola de neve na cara, aos gritos de “torturador de renas”. A cena foi captada por câmeras de video e fotográficas pertencentes aos jornalistas que também estavam lá aos borbotões, alguns transmitindo ao vivo.

Com aquela bola de neve ainda ardendo em seu rosto e no seu orgulho, o Papai Noel fechou a janela deixando os gritos de protesto do lado de fora. Desceu até a sala e ligou a televisão ainda a tempo de ver a cena que ele recém fora protagonista: aquela bola de neve explodindo em seu rosto, repetida à exaustão, em câmera lenta, com direito a gráfico medindo a distância e velocidade com que ela havia atingido o seu rosto. “Aquilo sim era uma agressão séria e não aquela bolinha de papel na cabeça do José Serra”, pensou o bom velhinho, que a esta altura já não se sentia assim tão bom. Tentou se inteirar do que se passava em frente a sua casa pela televisão. Escolheu o canal e passou a tomar pé da própria situação pela âncora de um jornal matutino..

“Neste momento, manifestantes do movimento Greenpeace se aglomeram na frente da casa do Papai Noel em protesto contra os maus tratos a que as renas do trenó tem sido submetidas durante séculos. O lider do movimento falou em entrevista ao nosso jornal…”

Neste momento, sua atenção é interrompida pelo telefone, que toca.

– Alô?
– Com quem eu falo? – Diz a voz do outro lado.
– Papai Noel.
– Perfeito. Caro Papai Noel, meu nome é John Pierce, da firma de advogados Pierce & Partners. Eu creio que o senhor vai precisar de nossos serviços. Somos especializados em defender empresas petrolíferas, matadouros e também a indústria de armas com excelentes resultados…

Papai Noel desliga o telefone na cara do advogado mantendo os olhos fixos na televisão. Ele vê agora, a imagem do líder dos protestos, um jovem com expressão raivosa, daqueles que acreditam em sua causa, encarando a câmera de forma desafiadora, cercado por manifestantes cheios de cartazes. Num deles, vemos um desenho em traços infantis mostrando o Papai Noel com dois chifres fustigando as renas com um tridente que carrega na mão. Ao fundo ele vê a própria casa, onde está confinado pelas circunstâncias.

“ Não é mais possível que uma entidade que seja exemplo para crianças do mundo inteiro ainda se utilize de meios de transporte de tração animal em um mundo com tantas opções energéticas eficazes e não poluentes a disposição. Isso sem falar que estas renas tem sido as mesmas por muitos séculos.”

Subitamente, a imagem da televisão muda para um gráfico onde que vemos a terra e a lua. Um trenó animado percorre a distância entre o planeta o o seu satélite várias vezes deixando linhas atrás do percurso, enquanto ouve-se a voz firme da âncora do jornal.

“Segundo cálculos da Ong Greenpeace, as renas até hoje ja teriam percorrido a distância entre a terra e a lua por mais de 80 vezes, num total de mais de 240 milhões de quilómetros.”

A imagem agora volta para os estúdios, onde a âncora chama as próximas matérias.

“A onda de protestos contra o Papai Noel levanta novas questões. Os duendes trabalham com carteira assinada e direito a plano saúde? Veja também entrevista com a nutricionista Katleen Joyce, que lançou o livro “Papai Noel tem que ser gordo?” Uma analise profunda sobre os maus hábitos de alimentação e vida sedentária na terceira idade, que também pode pode se transformar em mau exemplo para as crianças já que é praticado por um ícone da infância. Tudo isso depois dos comerciais. “

Papai Noel consultou o identificador de chamadas do seu telefone. Depois daquilo, a tal Pierce & Partners mostrou-se uma opção bem pertinente.


Leave a comment