O mini Papa

Olhando para o garoto nada denuncia que ele pudesse ser um tanto diferente. Saudável, um pouco gordinho, mas nada anormal para alguém com 9 anos de idade, o que prenuncia futuras mudanças morfológicas que iriam desde a sua altura, chegando até o timbre da voz. Porém, bastava um pouco mais de convivência com a família do rapaz para notava-se um certo descompasso entre o Otavinho, filho mais novo do Otávio, e os seus contemporâneos.

Eu sei o que estão pensando, mas não é de opção sexual que estamos tratando aqui. Otavinho não tinha qualquer resquício de tendência ao homossexualismo. O que chama atenção era o seu comprometimento com o próprio futuro. Otavinho ja tem muito bem definido o que quer ser no futuro: Papa. Ao contrário dos seus amigos que, em sua maioria queriam ser astronautas, por exemplo, Otavinho quer ter um contato mais espiritual com os céus. Até aí tudo bem, poderia ser uma preferência estranha, talvez potencializada pela presença da avó em casa, uma católica fervorosa. Mas há coisas que a gente percebe serem da própria natureza da pessoa.

Otavinho é focado no assunto e o conhece a fundo. É fã do Papa João Paulo II. No seu quarto há posters do ex-sumo pontífice, que Otavinho cita como seu exemplo de vida tanto pessoal quanto profissional. Isso mesmo, enquanto alguns tem posters de bandas de rock, atroes, cantores sertanejos ou de toda sorte de esportistas, Otavinho decora o seu quarto com fotos do Papa João Paulo II. Ele também gostava muito do Papa Paulo VI, principalmente por ter exercido o seu pontificado num período muito conturbado da humanidade, com guerra fria, ameaças de fim de mundo e outras tantas mazelas. Mas nada se assemelhava ao carisma do velho e bom Karol Wojtyla.

Otavinho chamou atenção pela primeira vez para esta estranha preferência aos sete anos de idade, numa festa a fantasia na escola, cujo tema era “O que eu vou ser quando crescer”. Diante da tentativa dos pais de demovê-lo daquela idéia completamente estapafúrdia, ele foi firme. Inisitiu com diligência que queria ir vestido de Papa. Os pais acabaram cedendo. E como se não bastasse, exigiu que o traje papal que ia utilizar seria o solene, já que festa na escola era um evento. O menino chegou com pompa e circunstância. Um mini pontífice trajando casula, estola e a mitra a ornar-lhe a cabeça. Passava por todos com o bráculo pastoral na mão esquerda saudando a com a mão direita colegas, professores e pais completamente aturdidos com a figura.

Os padrinhos do Otavinho ficam sem saber o que fazer. Toda vez que vão presentear o menino são obrigados a ir em lojas de equipamentos litúrgicos. Quando recebem visita da familia do Otavinho no seu apartamento, o menino corre para a janela. É que o prédio tem uma fachada que lembra o Vaticano, o que o torna irresistível para o menino, que passa horas lá, virado pra fora, acenando para os fiéis imaginários seis andares abaixo. Vez por outra, Otavinho ministra algumas orações em latim lá de cima, abençoando os passantes que olham para aquele menino com trejeitos papais um tanto fora do comum.

No casamento da irmã, ocorrido recentemente, Otavinho subiu no altar e começou a rezar uma missa, mas foi rapidamente retirado de la pelos pais. Mas passou a cerimônia inteira rezou evoz baixa junto com o padre, pois sabia tudo decor e salteado, palavra por palavra. No momento do sermão, ele discordou terminantemente da passagem da Biblia escolhida pelo padre, dizendo “esse aí não vai longe, nem a bispo chega”. Não fosse apenas uma criança, Otavinho seria capaz de casar a irmã.

Outro dia encontrei o Otavio, o pai. Estava inconsolável. Eu perguntei o porquê daquela tristeza, embora ja desconfiasse da causa, e ele me respondeu que, na véspera do Natal o menino estava brincando de rezar a Missa do Galo sozinho no seu quarto, tal qual o Papa faria mais tarde. Havia até montado altar, tudo muito bem feito. Para dar mais veracidade a toda liturgia do culto natalino, Otavinho havia pego escondido uma garrafa de vinho na geladeira para beber o “sangue de Cristo”. O menino tomou um porre. Foi encontrado desacordado no quarto, mas foi salvo a tempo, após tomar glicose na veia. “Isso é castigo divino. Só pode ser!”, reptia o Otávio com voz chorosa.


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