Ele era louco por futebol. Não podia passar na frente de alguma televisão, fosse no bar, na quitanda, na vitrine, aeroporto, era só ver aquele imenso verde na tela e sobre este verde pequenos pontos, alguns em uma matiz de cor predominante e outros em outra, correndo atrás de uma esfera branca que estancava o passo para dar uma olhadela. Era –lhe irresistível.
Um dia, quase bateu o carro porque passava por uma estrada que beirava um campo de futebol de várzea, onde dois times duelavam num sábado cinzento, devidamente fardados, e ele resolveu acompanhar os lances da peleja em vez de olhar para frente, Felizmente, para aproveitar o máximo do jogo, havia diminuído dramaticamente a velocidade e foi isso que evitou o acidente. Isso e o grito de susto da esposa, que o fez voltar a olhar pra frente a tempo de ver a traseira de um caminhão de entrega de bebidas se aproximando.
Como todo bom brasileiro, passou a gostar de futebol pela via do seu time do coração, que vinha a ser, também o mesmo time pelo qual o seu pai torcia. Seus primeiros passos na arquibancada foram dados de mãos dadas com o velho, quer dizer, na época, para quem tinha uns 4 anos, ele parecia velho.
Nos ciclos vencedores sempre era mais fácil encarar as segundas na escola, onde chegava com o peito inflado de orgulho, como se ele mesmo tivesse entrado em campo no domingo e amealhado mais uma vitória acompanhada de uma “atuação convincente”, como diziam os comentaristas. Nas derrotas, as segundas-feiras eram-lhe um suplício, mas aguentava com coragem as gozações de colegas que torciam para o time rival, sabendo que a volta ia ser doce, caramelada. O que era certo, garantido, é que continuava indo ao estádio dar força para o time nestes momentos.
Fato é que, os anos passaram e aquele garoto tornou-se um adulto que continuava vibrando com as alegrias, sofrendo com as tristezas proporcionadas pelo seu time, dono daquelas arquibancadas onde dera seus primeiros passos de torcedor. Até chegarmos aos dias de hoje.
Seu time, coitado, segue há mais de dez anos sem títulos de vulto, o que, para uma grande associação, é mesmo um problema. E neste ano então? O coitado passou a amargar domingos cada vez mais tristes, onde o seu time, numa regularidade impressionante, só faz perder e, no máximo, comemorar um empate. Caminha célere para a segunda divisão. O mais grave é que ele, diferente das outras vezes em que sofreu, não parece ver solução e tampouco longínqua. Seu time já fez três a alegria de pagar indenizações gordas a dois treinadores e está com um terceiro na casamata,
Para ele, parece óbvio que a causa dessa coleção de desastres, segundo suas convicções, não está exatamente lá dentro do campo. O que acontece ali é uma consequência de anos e anos de usurpação da associação pelos que a tem dirigido. Na direção, no conselho do clube, os nomes e sobrenomes são os mesmos desde os tempos em que ia ao estádio pelas mãos do pai. Nomes que também andavam pelos tribunais e pelos corredores e galerias do Congresso Nacional e Assembleia Legislativa Estadual. Ele deu-se conta de que seu clube do coração sempre fora trampolim de interesses e, depois de anos dessa prática, exauriu-se, sem produzir novos dirigentes, com novas ideias e, principalmente, ideais. O clube parece uma monarquia anacrônica, doente, com consequências que se espalharam como uma septicemia por toda a associação, hoje combalida.
A torcida, sedenta por títulos e imediatista por natureza, discursa olhando para trás, pedindo nomes ainda mais antigos e retrógrados só porque ganharam títulos num passado remoto que não volta mais. Ele, bem, ele passou a sofrer um fenômeno interessante. A desesperança com seu time é tanta, que passou a mergulhar no que chamou de um processo de desfutebolização voluntária. Ele não tinha mais pra quem torcer, pois seu time não representava mais a sua maneira de ver a vida e, portanto, não queria ter mais interesse no esporte em si.
Nos primeiros momentos foi difícil. Esforçava-se para não ver mais jogos na televisão, mas era-lhe difícil vencer um hábito, que ele percebeu ser praticamente um vício. O que nos leva a seguinte conclusão: a desfutibolização voluntária é, nada mais, nada menos, um processo de desintoxicação. E como tal, um processo penoso. Quando mudava de canal e passava por um partida sendo transmitida, compacto de um jogo da rodada ou uma mesa redonda, parava. Quando dava-se conta, que já xingava juiz, chamava comentarista de burro, voltava a acionar o controle remoto sentindo-se culpado, como quem fuma um cigarro depois de ter tomado a decisão de parar de fumar.
A seguir, tomou uma decisão mais drástica. Ligou para a operadora de televisão a cabo e pediu cancelamento do pacote que transmitia os jogos do campeonato nacional. Levou horas para completar a operação, já que o atendente não queria entregar assim, de mão beijada, os mais de cinquenta reais mensais que o pacote custava.
A medida em que foi se desfutibilizando, passou a ter mais tempo. Seus finais de semana tornaram-se ricos em novas atividades. Passou a cozinhar, tocar mais seu violão, retomou o prazer de dedicar muito mais tempo a leitura, passou a sair em excursões com a família para conhecer a própria cidade e arredores. Estava livre de ouvir as besteiras de comentaristas exibidos que desfilavam sua arrogância rasa em microfones e em frente as câmeras. Livrou-se também das mesas redondas. Estava completamente desfutibolizado. Nem sabia em que estado andava o eu ex-time.
Mas não estava livre de ouvir os xingamentos de alguns amigos que, com o olhar furibundo, o acusavam de abandonar a causa, de ser infiel ao seu time. E sempre que ouvia tal acusação levantava-se cheio de brios e discursava:
“Questionam a minha fidelidade, o amor ao meu time? Mas, e a fidelidade do meu time por mim? Eu penso grande e quero torcer para um clube grande, mas este clube, o qual acompanhei minha vida inteira hoje não é fiel aos seus antigos preceitos pelos quais o escolhi como meu amor bretão. A grandeza foi jogada no lixo das vaidades e hoje caminhamos a passos largos parra a pequenez. Se eu escolhesse o caminho fácil, iria torcer para outro time, quem sabe, um time de alhures como o Arsenal ou o Barcelona. Isso sim, seria a infidelidade, a pequenez da minha sangrada alma. Essa é para mim uma atitude tão inconcebível quanto pra vocês. Por isso, trilhei um caminho doloroso. Eu me desfuteboliozei, meus camaradas. Preferi a morte do futebol dentro de mim. Vocês fazem ideia do quanto isso foi sofrido? Pois foi. Por isso, não vou admitir dedos acusadores na minha cara. Eu fui muito mais digno do que você podem sequer imaginar. Agora me deem licença, porque vou pra casa assistir a decisão do campeonato canadense de curling, que está emocionante. Daqui a dez minutos começa”