Lá estava ele, encravado na Ellis Street, mas, mesmo de dia, chamava atenção com seu toldo verde e seus neons que falavam de um jeito orgulhoso “Ei, rapaz, sou eu, John’s Grill. Isso mesmo, o lugar onde Sam Spade costuma aparecer para saborear suas costeletas com batatas e rodelas de tomate, enquanto pensa em como resolver os intrincados casos para os quais é contratado. Aqui, mesmo, meu rapaz. Aqui é a casa do Falcão Maltês.” Entramos por uma porta de madeira e vidro e fomos dar em um mini hall onde outra porta nos recepcionou cheia de estilo, esta sim, nos colocava para dentro do restaurante.
A primeira visão que temos do lugar é um sorriso enorme, emoldurado por bochechas protuberantes, olhos apertados, justamente por causa do sorriso enorme. O cabelo preto e encaracolado empresta um acabamento rococó para aquele rosto. Do pescoço para baixo, um corpo proporcional àquela face bonachona, enfiado num vestido preto, que termina nos dois joelhos e se transformam em canelas muito breves porque logo entram pelos canos altos de um par de botas da mesma cor do vestido. A hostess nos leva para a mesa com passos leves e ágeis a despeito do seu peso avantajado. Enquanto a sigo, presto atenção no interior do restaurante. Em frente à porta pela qual entramos, atrás do púlpito onde estava a hostess, existe uma fileira com não mais do que três mesas. A fileira acaba em um bar, onde um barman mexicano nos recebe mostrando seus dentes muito brancos contrastando com o bigode avantajado, um todo negro sobre a sua boca. A parte mais extensa do bar não fica virada para a porta, mas para o salão com as demais mesas, duas fileiras delas, iluminadas pela luz que vem do janelão que dá pra a rua e que fica ao lado da porta de entrada. Essa é, àquela hora do dia, a fonte de iluminação do lugar.
Os olhos vão se acostumando à iluminação propositalmente deficiente e descobrem, aos poucos, detalhes como os quadros com fotos nas paredes, olhos que testemunharam tudo o que a cidade de San Francisco andou passando desde que o John’s Grill existe. E por falar nisso, há um cheiro bem pronunciado de passado, como se bolsões de ar dos anos 40 ainda perambulassem pelo ambiente, o que, não duvido, seja verdade.
Como são quase quatro horas da tarde, a frequência se resume a três homens no bar e apenas uma das mesas do restaurante ocupadas por uma família de turistas, como nós. A hostess, cujo nome era Geena, nos colocou em uma mesa perto da janela. Foi sentarmos à mesa para uma garçonete séria, de cabelos longos, lisos e loiros, corpo esguio, praticamente o inverso de Geena, vir nos atender. Ela tinha um nome surpreendentemente latino: Carmem. Minha mulher e minha filha perguntaram a ela onde ficava o banheiro. Ela com a objetividade típica dos anglicanos, tanto na voz quanto nos gestos, respondeu a questão e lá se foram elas, juntas, demorar no toilete enquanto fiquei lendo o menu.
De repente, senti uma coceira nos olhos e então passei a massagear as pálpebras fechadas com o polegar e o indicador para aliviá-la. Ao acabar a massagem e abrir os olhos vi uma figura sentada a minha frente, ainda meio fora de foco. E quando etrou em foco, achei que estava fora de mim
– Humphrey Bogart?
– Ah, mais um que me chama por este nome! – Humphrey respondeu com aquela fala rápida e arrastada – Deixe-me esclarecer uma coisa: meu nome é Sam Spade, detetive particular. E, neste caso, eu sou o Sam Spade que está no seu inconsciente, ou seja, o baixinho aqui. Você sabe que na verdade fui concebido como um cara alto, de cabelos castanhos bem claros. Mas Hollywood reduziu o meu tamanho em alguns bons centímetros e, ainda por cima, colocaram-me estes cabelos negros.
– Funcionou muito bem.
Falei algo espantado por estar aceitando como normal o fato de conversar com um ator ícone que já morreu, mas que na verdade dizia ser um dos mais famosos detetives da literatura policial, criado por Dashiel Hammett e que costumava frequentar o restaurante em que eu estava, como já foi explicado no inicio.
– Eu posso perguntar…
– Por que eu estou aqui, bem a sua frente? – Interrompeu ele adivinhando o óbvio. – Você é um escritor que veio aqui pela atmosfera. Por tudo o que este lugar representa.
– Bom, escritor seria um certo exagero.
– Você escreve histórias. Você cria pessoas do mesmo jeito que eu fui criado. Você termina suas histórias. Você é um escritor.
– De onde você tirou essa ideia?
– O caderninho e o pequeno lápis que você tirou do bolso ao sentar me disseram isso, meu caro.
– Perspicaz.
– Qualidade essencial em um detetive.
– É.
– Bom e já que você veio aqui pelos motivos que já expus, achei justo que tivéssemos esta conversa.
– Estamos mesmo tendo esta conversa?
– Claro que estamos. E digo mais: ela é um dos pontos altos da sua viagem a San Francisco.
Ele pegou um cigarro me encarando com um leve sorriso no rosto. Um sorriso de quem vai revelar algo que eu devo saber.
– Responda uma coisa: de que você prefere ser chamado, de cínico ou de hipócrita?
– Cínico.
– E poderia me esclarecer por que?
– Os cínicos são de uma sinceridade insuportável. Costumam dizer a verdade por ironia. Hipócritas, são os bons moços de fachada. Nada de interessantes sai de um hipócrita, pelo contrário, eles lutam com um afinco religioso para tornar o mundo tão medíocre quanto eles.
– Você diria que cínicos dão bons escritores e hipócritas dão bons críticos?
– Não existe algo como um bom crítico.
– Não mesmo. Alguém que esconde a própria covardia para julgar aquele que tem coragem de pelo menos tentar é um imbecil completo. Aqueles que criam parâmetros medíocres para definir o que é bom e o que não é destroem a energia criativa. Existem muito mais pessoas como eles do que pessoas como você.
– O que são pessoas como eu?
– Cínicos, que tem a coragem de sublinhar as verdade com mentiras que, de modo geral, todos sabem que são mentiras e aí mesmo está a beleza do cinismo.
– Não entendi.
– Dashiel me criou diferente dos outros detetives. Durão, egoísta, nada bom moço. Porque um detetive de verdade perambula no mundo onde o pior do ser humano se revela. Dashiel disse o que pensa através de mim. Isso é cinismo no seu mais alto grau.
– Então, todo escritor tem que ser cínico.
– Cínico e corajoso para se expor do jeito mais solitário do mundo. A sua única companhia, neste momento, somos nós. E nós gostariamos de continuar existindo. Eu estou aqui para pedir a você que nunca desista. Continue a ser cínico, exponha-se. Não tenha medo do que os hipócritas vão pensar das coisas que você faz.
– Eles que se danem?
– Quando você faz algo relevante quatro coisas acontecem: primeiro eles te ignoram. Depois, te ridicularizam.
Depois, te combatem e por último, você vence.
– Aprendeu isso com o pior do ser humano?
– Não, lendo Gandhi. Eu lido com a escória, mas tenho meus momentos.
Ao ver o meu sorriso ele respondeu com outro. Um sorriso amistoso. Pegou o chapéu que estava sobre a mesa e, antes de colocá-lo na cabeça, olhou-me nos olhos e arrematou.
– E aqui vai outro conselho: não peça as costeletas com batatas e tomates que eu pedia.
– E porque não devo pedir?
– O cozinheiro daqui já não é o mesmo da minha época. Este sempre passa do ponto ideal das costeletas e deixa as batatas um pouco cruas. Peça um spaguetti com almôndegas que você vai gostar mais.
Sam colocou chapéu na cabeça e foi embora. Passou pelas meninas que vinham do banheiro. Elas, ao que pareceu, nem perceberam.