Crônicas de San Francisco 3 – Os Grisalhos do Castro

SF4

O bairro do Castro, em San Francisco, dispensa maiores explicações. É só mencioná-lo para ouvirmos risinhos e piadinhas homofóbicas de sempre, incluindo as minhas, é bom que fique claro antes que me chamem de engajado, coisa que não sou para nada, a não ser em defesa do bom senso. Pois um passeio pelo bairro revela-nos um lugar realmente aprazível, com casas vitorianas em sua maioria reformadas, porém, respeitando a arquitetura e pintura originais, ladeiras de fazer a gente bufar e por muito pouco não deixar mesmo o coração em San Francisco, como dizia o Tony Bennett, , árvores e pássaros gorjeando dando um ar ainda mais bucólico à região. Pensem o que quiser, mas eu moraria lá fácil, provavelmente passando o primeiro mês repetindo a frase “thank you, I`m flattered, but I´m straight”.
Quanto mais nos aproximamos da Market Street, mais a coisa vai ficando diferente. As casas dão lugar à lojas e o ar bucólico da lugar ao movimento.. A primeira sensação é estranha. Não estava, definitivamente, acostumado a perambular por um mundo onde os homossexuais são a imensa maioria. A diferença é que ninguém estava me olhando feio. Ninguém falou alguma gracinha. Aliás, não estavam nem aí para mim e para as meninas. O tempo passa e você vai ficando mais a vontade com o mundo inverso. E daí, começa a perceber uma coisa curiosa. A maioria dos habitantes do bairro, pelo menos os que ali perambulavam em casais de homens de mulheres ou solitários, tinham idade um tanto avançada. Não sei se acontece só comigo, mas quando a palavra gay é mencionada perto de mim, a primeira coisa que me vem a mente são pessoas entre os 20 e 40 anos. Mas o que eu vi por lá foi um enorme contingente de gays com mais de 55 anos. Cabelos grisalhos aos borbotões. Em certos casos, cabelos e bigodes grisalhos, como os de Erik, um dos típicos habitantes do bairro que, ao ouvir a gente conversando na mesa da lanchonete Orphan Andy´s, aproximou-se de nós e passou a travar um diálogo que transmito agora, devidamente traduzido.

– Desculpe, mas de onde são vocês?
– Brasil – respondeu minha filha.
– Ah, eu estava ouvindo vocês falarem. Adoro a musicalidade do português. É a primeira vez em San Francisco?
– É. E você, mora aqui no bairro?
– Moro. Depois de anos em guerra comigo mesmo, encontrei a paz e vim morar aqui.
– Guerra com você mesmo¿
– Isso
– Eu tenho uma curiosidade. Como foi pra você até o momento que você assumiu – perguntei. – Quero dizer,ser gay há décadas atrás era bem mais dificil, não¿
O que veio daqui pra frente foi surpreendente. Aquele homem que mais tarde disse que tinha 63 anos de idade passou a contar a história da sua vida em pouquíssimas linhas.

– Era. E, antes de assumir, eu era um aqueles que tornava as coisas mais difíceis, Eu fiz carreira no exército americano. Fui oficial no Vietnam e, felizmente, voltei com a minha sanidade intacta. Na época, o jeito de lsufocar aquilo que eu realmente era foi me tornar um homofóbico ferrenho. Durante a guerra descobri dois homossexuais no pelotão que eu comandava. Eu os persegui incessantemente. Dava a eles as piores missões, dizia que eles faziam errado quando faziam certo. Num dia, em uma missão de reconhecimento, caímos em uma emboscada e eles deram a vida para salvar oito homens do pelotão. Passei o resto da guerra vendo os dois em cada missão. Assombrações me vigiando, apontando o dedo pra mim, lembrando da minha opção sexual que eu tentava esquecer. Quando a guerra acabou e eu voltei pra casa, o meu filho, que nascera enquanto eu estava no Vietnam, já tinha um ano e meio de idade. Não demorou muito e minha mulher engravidou de novo. Foi uma gravidez complicada e ela acabou morrendo no parto da nossa filha, Melinda. Criei os dois sozinho. Meu filho, Edward, começou a demonstrar claramente suas tendências homossexuais desde pequeno. Eu sabia exatamente o que ele sentia, suas dúvidas, seus medos. Aquela era a primeira mensagem. A segunda não tardou. Melinda também passou a demonstrar claras tendências homossexuais. Meu filho e minha filha eram ambos gays. Querem saber o que eu penso?- aproximou o rosto dos nossos e passou a falar num tom ais baixo, como se tivesse medo de que as pessoas nas mesas pr[oximas fossem escutar. – Eu acho que aqueles dois soldados voltaram como meus filhos. E para mim isso foi o suficiente para que eu me tornasse quem sou de verdade. Casei novamente. E agora, moro aqui. Estou pela primeira vez no meu verdadeiro lugar.

Neste momento, o garçon que nos atendeu estava saindo. Era o final do seu turno. O nome dele é Joel. O marido de Erik. Saíram de mãos dadas e pareciam bem felizes. E nós…bem, nós tivemos que chamar outro garom para pedir a conta.


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