Crônicas de San Francisco 2 – O Paraiso dos Esquizofrênicos

SF3Não sei por quantos já passei, mas não conto menos de vinte diferentes desde quando cheguei, o que dá uma média de cinco por dia. Refiro-me aos moradores de rua que falam sozinhos. Temos dos mais variados tipos. Os que falam baixinho, com olhos arregalados, para o seu companheiro imaginário ao lado, como que contando um segredo terrível o qual, não descarto, seja uma conspiração alienígena que visa não destruir cidades com armas de incrível poder destrutivo, mas, quem sabe, escravizar os humanos para que eles venham a trabalhar para os futuros donos do campinho.

Tem os que reclamam com gestos largos, também para um companheiro imaginário ao lado, contra o aumento dos impostos que ele, ou ela, de qualquer maneira, já nem pagam mais, mas enfim, reclamar pode ser um vício igualzinho ao cigarro e uma crise de abstinência não é, de maneira alguma, algo que este pessoal esteja com vontade de encarar.

Há os teatrais, que falam em voz empostada, contando verdadeiras epopeias, talvez candidatos a atores e atrizes que tenham fracassado na sua busca pelo estrelato na Califórnia, mas obtido sucesso tremendo na quantidade consumida de drogas a ponto de fazer da rua o seu cenário e dos transeuntes o seu publico cativo.

E há os de filme, aqueles que parecem ter caído direto alguma das tantas guerras em que este país está metido, para as ruas de San Francisco. Parecem acuados, esperando que alguma bomba vinda sabe-se lá de onde vá explodir perto deles a qualquer momento.

Enfim, chama a atenção essa imensa quantidade de esquizofrênicos vagando por aqui. Fico tentando formular alguma teoria válida. Por exemplo, San Francisco foi a meca do movimento hippie com farto consumo de heroína, mescalina e tantas outras inas. Será que isso comprometeu o bom funcionamento cerebral das gerações vindouras? Ou a teoria da minha filha que diz que após o grande terremoto de1906 as pessoas que perderam suas casas e não puderam comprar novas criaram gerações de moradores de rua que foram enlouquecendo aos poucos. Outra boa teoria: todos os moradores de rua daqui são médiuns e, portanto, dialogam com os espíritos que vagem pela cidade. Agora, como este é um país riquíssimo, talvez todos eles tenham bluetooths de tamanho irrisório em suas orelhas e eu é que acho que estão todos falando sozinhos.


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