Toda vez que chego a algum lugar penso em alugar um carro e conhecer um monte de coisas incríveis em pouquíssimo tempo. Algumas que a gente já sabe que existem de antemão, outras que são sugeridas por amigos seja porque você perguntou, seja porque eles estão realmente interessados em que você se divirta. Ocorre que, quando chego em alguma cidade, esteja ela onde estiver, não consigo simplesmente não andar usando o meio de transporte mais antigo que existe: as pernas direita e esquerda. Chegar direto ao ponto determinado, ou seja, fazer turismo, não tem a menor graça, pelo menos pra mim. Liberar doses cavalares de ácido lático pode ser doloroso por um lado, mas nos oferece momentos únicos. E depois, as dores musculares somem, mas as descobertas ficam guardadas em um ponto da nossa memória que resume todas as sensações que passaram por nossos cinco sentidos.
Hoje, saímos do hotel decididos a pegar um daqueles bondinhos típicos da cidade de San Francisco e cair direto no fervo que é o Pier 39, num local chamado Fisherman’s Wharf, região de Embarcadero, onde fica o porto da cidade. Mas ao sairmos do hotel, sem prévia combinação, passamos a caminhar olhando absortos cada prédio, ouvindo cada barulho e passando por inúmeros homeless , muitos deles falando com algum companheiro imaginário (assunto de que me ocuparei em outra oportunidade). E quando nos demos conta, descobrimos um parque encravado entre a MIssion Street e a 4th street chamado Yerba Buena Garden.
Até aí, nada demais, a despeito do parque ser muito interessante. O que fez a diferença é que, neste exato momento, acontecia um show que, viemos a saber depois, fazia parte de um festival chamado Yerba Buena Gardens Festival. A ideia do festival é promover a convivência entre as pessoas em parques e espaços abertos da cidade. Havia uma incrível variedade de tons musicais, de cores e até de seres humanos espalhados pela grama com cheiro de recém cortada com seus pratos de comida, já que era hora de almoço. Nos misturamos a tudo, como residentes, ouvindo uma banda da melhor qualidade acariciando nossos ouvidos com o jazz mais bossa nova que eu já tinha ouvido.
Aquela era uma oportunidade única que a cidade, agradecida por não sairmos correndo feito obcecados para ver aquelas coisas que dela sempre querem ver, resolveu nos revelar como quem se abre para um amigo em quem confia. Caminhar é entrar em escaninhos, fiordes, desvios. Andar é falar a toda hora “olha, vamos ver o que tem ali?” e sempre tem alguma coisa. Andar é descobrir.
É claro que fomos ao Fischerman Wharf e é lógico que também foi muito divertido. Lojas e restaurantes coloridos, tudo tremendamente organizado para o consumo, o que também tem lá o seu apelo. Amanhã tem mais. Agora, por favor, deem licença mas vou fazer uns alongamentos. Minhas pernas vão precisar.