Apartheid

Renato não tinha um smartphone. Para ele, uma coisa sempre foi muito clara: telefone é telefone. Não é relógio, não é agenda não é câmera fotográfica e tampouco computador. Telefone era uma peça que servia para comunicação a distância e a única vantagem que um celular trazia era ser um telefone sem fio que funcionava há muito mais do que os usuais trezentos metros da base. Renato nunca foi tocado pelas constantes e cada vez mais rápidas mudanças de tamanho, design e funções que aparelho vem sofrendo. Só trocava por um novo quando o que ele usava já mostrava sinais cabais de completa desfiguração funcional e física. E assim sempre viveu satisfeito e incólume a todo o movimento evolutivo dos tais “handsets” , alcunha com a qual os seus amigos mais moderninhos passaram a chamar o aparelho.

No entanto, esta postura pragmática diante das maravilhas cada vez mais impressionantes acumuladas em cada aparelho, acabou por afetar as interações sociais com as quais Renato se envolvia diariamente. No início, as reações eram tênues, quase imperceptíveis. No ambiente de trabalho, quando o seu celular tocava e ele atendia, risadinhas disfarçadas de colegas que ostentavam orgulhosos os seus BlackBerrys e seus iPhones ao perceberem que o Renato ainda lidava com um simples celular. Era o escárnio tecnológico ainda silencioso, quase mudo, mas presente como um miasma pairando no ar.

Ao sair com os colegas para almoçar, passou a perceber com um pouco mais de clareza que algo não estava certo. Ao chegar, todos colocavam os seus smartphones sobre a mesa normalmente, mas quando o Renato colocava ali o seu celular, todos olhavam para aquele celular e depois para o Renato como quem dizia, sem mencionar em palavras, que aquilo era um tanto inadmissível. Durante o almoço, a capacidade dos smartphones era o assunto da mesa. Discutia-se sobre novos aplicativos, trocavam músicas, fotos e endereços via bluetooth, o que deixava o Renato naturalmente alheio, mudo e sem assunto.

Com o tempo e inúmeros updates depois destes primeiros almoços, as reações preconceituosas contra Renato só aumentavam de intensidade. O ato de colocar os telefones sobre a mesa ganharam uma reação bem mais dramática. Era o Renato colocar o celular dele para os outros afastarem os seus smartphones de perto, como se fossem pegar algum vírus só por estar próximo daquela coisa antiquada e completamente demodê. Isso, primeiro era feito de maneira disfarçada, um pouco envergonhada. Mas, depois, passou a ser feito ostensivamente. As claras. Um recado inconteste que dizia: Renato, você e este celular não pertence a nossa turma.

O apartheid ficava ainda mais evidente quando, nestes almoços e também nos happy hours, o pessoal resolvia registrar os momentos de descontração usando as poderosas câmeras de sete, oito e até nove megapixels contidas em seus smartphones. No dia seguinte as fotos eram baixadas nos computadores e compartilhadas no escritório. Todos apareciam, menos o Renato. Notava-se o esforço para tirá-lo de quadro, o que as vezes era impossível e, portanto, algumas das fotos mostravam meio Renato, um quarto de Renato. O pobre era fatiado sem dó nem piedade.

Por fim, Renato passou a não ser convidado para mais nada. Combinavam todos os almoços e os happy hours nas suas costas. Não era convidado para festas. Era mantido como um leproso, longe da convivência da sociedade sadia. Solitário e sem apoio, Renato se tornou amargurado e descuidado. Tão descuidado que um dia, com a cabeça nas nuvens, acabou deixando cair o seu celular que se espatifou em centenas de pedaços. Ele disse que foi um acidente. Mas a mãe jura que o aparelho, em total depressão, suicidou-se.


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