Ela estava linda em seu uniforme escolar. Cabelos presos com duas maria chiquinhas. E uma franja mantida meticulosamente reta acompanhando a linha das sobrancelhas. Orgulhosa, porque ja tinha tamanho para ocupar o banco da frente do carro. Uma alegria que contrastava com o seu mau humor quase constante quando estava comigo e com a mãe dela. Os hormônios da adolescência somados a herança genética do pai, confesso. Mas naquele momento, naqueles minutos pós escola ali no carro, o seu sorrido redimia qualquer frase agressiva que terminasse em “saco”, referindo-se a uma simples pergunta do tipo, “você ja escovou os dentes?”. Naquele momento era a filha de 12 anos perfeita. Uma jóia da nossa criação. A coisa mais linda que podia haver no universo. Um ser vivo tão perfeito que mesmo que eu pudesse estar passando pelo pior dia da minha vida – o que não era o caso – tudo se tornaria pequeno, ínfimo, só de olhar para aquele ser vivo ali ao meu lado.
A sensação de alegria só aumentou quando eu perguntei como tinha sido a escola. Ao contrário do usual, a resposta veio leve, emoldurada por um sorriso incomum em circunstância como aquela. “Foi legal.” Sim, duas palavras apenas e nenhuma delas tinha sito “saco”. Se um dia me perguntassem “que momento em sua vida você gostaria que durasse uma eternidade?” eu citaria aquele, sem dúvida alguma. O entrosamento total entre um pai e uma filha. Tudo completamente encaixado, perfeito. As cores do mundo visto através dos vidros do carro estavam no seu exato lugar. O marrom dos troncos das árvores estavam no tom correto. O verde das folhas cintilavam ao encopntrar um raio de sol, dizendo que a clorofila fazia seu diligente trabalho de tirar do ar o famigerado gas carbônico, nos dando de presente o tão estimado oxigênio. O azul do céu bailava graciosamente com o branco de algumas nuvens que vagavam entregues a vontade do vento. E aquele doce sorriso ao meu lado. O sorriso vira-se em minha direção e, ao ouvir uma das música que vem de sua rádio preferida, sintonizada assim que ela entrou no carro, disse.
– Pai, você sabia que hoje é o aniversário do Taylor Lautner?
– Aniversário de quem?
A total ignorância sobre o mundo da minha querida filha de 12 anos revela-se na pergunta anterior e é sacramentada na próxima.
– Você tem um colega norte americano?
– Nããããããão, pai! O Jacob – o sorriso ainda mais lindo quando menciona Jacob.
– Mas afinal, é Taylor, é Jacob, Taylor Jacob ou Jacob Taylor?
– Pai, e Taylor Lautner, que faz o Jacob no filme Crepúsculo.
– Ah! Esse.
Respondi com um conhecimento mentiroso, afinal, não tinha remota idéia da fisionomia do rapaz, o que me foi esclarecido logo em seguida.
– Ele é lindo, pai. Ele tem aquela barriga de tanquinho…ai.
E, a partir daí, ela pasou a explicar os outros dotes físicos do rapaz mas eu ja não estava ouvindo. Barriga de tanquinho? Como uma menina de apenas 12 anos começa a descrever um sujeito que ela acha bonito pela barriga de tanquinho? Não podia ser pelo seus ohos encantadores? Seu sorriso lindo? Seus cabelos maravilhosos? Sua voz maviosa? Não, maviosa não que uma garota de 12 anos nunca usaria maviosa para descrever a voz de quem quer que seja. Não interessa. Quem olha a barriga de tanquinho de alguém são pessoas muito, mas muito mais velhas. Tive ganas de frear o carro. Mas não. Aquele era um momento de crise e nos momentos de crise, após o choque inicial é preciso que nos recomponhamos. Nada de coração, mas sim, a razão. A medida em que tentava me reencontrar no meio daquela conversa, o colorido perfeito de árvores, céu, nuvens desmanchavam-se e misturavam-se numa forma abstrata. Aquela barriga de tanquinho dita com um sorriso e aquelas olhinhos verdes a beira de revirarem-se acabaram com a pintura bucólica que eu acabei de descrever ainda agora.
Ao chegarmos em casa ela saiu do carro saltitante como sempre. E eu, acompanhando seus movimentos e me perguntando se aquela alegria era por causa de uma barrida de tanquinho estranjeira. Subi até o quarto e levantei a barra da camisa em frente ao espelho do quarto. Definitivamente, a minha barriga estava longe de ser de tanquinho. Só espero que ela não cresça tão rápido como a minha filha.