As aventuras de JJ 3 – O serial lover.

Outro dia encontrei o Dr. José Augusto, grande amigo que enveredou pelo estudo da psiquê humana. Grande psiquiatra discípulo de Jung, mas de maneira nenhuma pode ser considerado um radical, uma vez que concorda com vários conceitos freudianos. Mas, o importante a ser tratado nestas linhas não é a corrente que o bom doutor acredita ou deixa de acreditar e sim a luz que ele jogou sobre um assunto recorrente a este que vos escreve. Como eu, o doutor José Augusto conhece muito bem o nosso querido JJ e, nesse nosso encontro para um café no meio da tarde, ele trouxe uma revelação perturbadora.

– Não há a menor sombra de dúvida, meu caro – afirma taxativo, o doutor José Augusto – o nosso amigo JJ é um psicopata.
– Pára com isso, José Augusto. Você quer me dizer que o JJ está na iminência de se tornar um assassino em série?
– Ele já é de certa forma.

Quase engasguei com o expresso carioca que bebia no momento. Seria possível que JJ já tivesse tirado uma vida e extraído do ato vil um prazer indescritível? E que talvez fosse seguir fazendo isso? Teria ele, quando criança, torturado moscas indefesas, arrancando suas asas e vendo-as agonizar em dor profunda? Sequestrado pássaros da gaiola dos vizinhos e deixado as pobres aves a mercê de algum gato esfomeado em uma sala fechada, não sem antes cortar-lhes as asas para impedir o vôo salvador? Mas o bom doutor esclareceu-me aquela afirmação de maneira surpreendente.

– Não, nada disso. Nosso JJ jamais tirou a vida de quem quer que fosse, inseto, pássaro ou ser humano. Seus impulsos são dirigidos para o ato sexual. – Empertigou-se na caderia e começou sua explicação com mais detalhes. – Como sabemos, para muitos psicopatas, o ato de tirar a vida tem conotações sexuais. Alguns, como sabemos, gozam enquanto perpetuam as barbaridades mais indescritíveis.

Eu sinceramente não conhecia tal fato. O cara goza introduzindo não o seu pênis em alguém, mas uma faca?

– Mas no caso de nosso querido JJ o ato é o puramente sexual. Eu classificaria o osso amigo como um “Serial Lover”. JJ, meu caro amigo, é um psicopata do amor.

Pedi outra rodada de cafezinhos com um bolinho de maçã pra acompanhar o relato. Nunca havia pensado em JJ nestes termos. O equivalente a um Jack, o Estripador, só que com consequências muito menos trágicas e horripilantes.

– Veja – seguiu o bom doutor – o nosso querido JJ tem um modus operandi que não nos deixa dúvidas. Primeiro, seu impulso é dedicado ao mesmo tipo de pessoa, no caso, mulheres, todas com atributos físicos, digamos, exuberantes. Como uma ave de rapina, ele avista a sua vítima e passa a sobrevoá-la. E aí, neste momento, revela-se mais um traço inconfundível. Ele invariavelmente encontra uma fraqueza em sua vitima, Algo que ela quer muito ou que a perturba. Encantador como qualquer psicopata, ele se coloca como solução para esta fraqueza. E aí temos o terceiro traço. Nosso amigo não tem moral alguma.

Percebendo os meus olhos arregalarem, o brom doutor apressa-se em explicar esta última colocação.

– Esta falta de moral é uma “amoralidade”. Isto é, ele simplesmente sofre de falta de culpa. Se ele, por exemplo, descobre que o sonho mais recôndido da sua vítima é casar-se na igreja, ele, sem o mínimo remorso, a convence de que o sonho da pobre moça é também o sonho dele. Essa ausência de culpa junta-se ao seu “descolamento social”, que se manifesta em pequenos atos que o tornam ainda mais encantador.
– Como?
– Abrir a porta do carro para uma mulher na frente de todos os amigos. Dar presentes a elas, de um bouquet de rosas a um brigadeiro na cara de todos no trabalho. Ele faz isso sem abalos, sem se importar com a opinião dos seus pares. Ele é impermeável à gozações, o que, aos olhos da mulher que é alvo de sua atenção, torna-o algo perto de um herói grego. Um semideus. Ela está entregue. E JJ, como sabemos, faz delas o que quer. E por último, vem a “pantomima da morte”.

O doutor deu aquela paradinha para criar suspense. Bebeu um gole do seu café. Foram segundos que pareciam durar décadas. Meu olhar era suplicante. O que seria a “pantomima da morte”?

– Delicioso este café. Eu dizia?
– A pantomima, José Augusto. A pantomima.
– A pantomima da morte. É uma consequência muito simples dos atos amorosos e sexuais de nosso amigo. Ele e a vítima ingressam em intenso relacionamento, para ela de profunda dependência. Para ele, sexual. Os encantos do nosso serial lover intensificam-se. Mas há um momento em que, saciado, JJ simplesmente desliga. Passa a não mais querer aquela mulher, a não ser como amiga e troféu vivo de carne e osso. Continua por perto, mantendo curta distância e, com isso, a chama que queima no peito de vítima continua viva e intensa. Elas todas saem destes idílios combalidas e entregues e, mesmo sabendo que JJ talvez nunca mais volte a ser delas, não conseguem pensar em outro homem que não nele. Enfim, elas, enquanto mulheres disponíveis jazem mortas para mim, para você e para todos os outros bilhões de habitantes do sexo masculino deste planeta.

Seguimos tomando o nosso café em silencio. Aquelas eram revelações científicas irrefutáveis. Terminamos e nos despedimos. Enquanto me dirigia para casa fiquei pensando em quantas vitimas JJ já tinha amealhado em sua coleção. Uma coisa era certa. Ele só ia ser procurado pela polícia se algum dia resolvesse ter caso com a mulher de algum delegado.


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