Cavinato e o cinema.

Cavinato chegou ao trabalho furibundo. A cada bom dia bem humorado que ouvia durante o caminho até a sua mesa, respondia com uma onomatopéia gutural. Estava possesso dentro das calças. O olhar em chamas, a respiração ofegante. Parou na cozinha e, em gestos completamente automáticos, pegou um copo descartável, serviu-se de café da garrafa térmica, colocou açúcar, pegou a colher de plástico e, mexendo energicamente, como se quisesse agredir o copo, o café dentro dele a pobre colher de plástico transparente, subiu as escadas e foi para o seu lugar. Ligou o computador usando uma foça desproporcional ao apertar o botão. Fosse um jogo de futebol levaria um amarelo pelo ato. Se ja tivesse um amarelo, seria expulso. Colocou o copo de café na mesa e, ato continuo, trouxe o telefone para perto, teclando raivosamente o número que os colegas ja sabiam ser de algum SAC. Enquanto esperava alguém atender do outro lado, tamborilava os dedos com energia de dar inveja a John Bonham, que, quando vivo, costumava largar as baquetas e solar em sua bateria usando as próprias mãos e dedos. Se deslocasse algum tarso ou metatarso, não seria de surpreender.

– Telefala as suas ordens, Maria da Graça, as suas ordens, com quem falo.
– Cavinato.
– Seu Honrato…
– Ca-vi-na-to – interrompe.
– Correto. O senhor pode dizer o número do seu telefone com DDD, por obséquio?

A palavra obséquio entrou pelos ouvidos do Cavinato como navalha afiada. São raríssimas as pessoas que usam, no seu dia a dia, a palavra obséquio e uma menina com aquele sotaque de Pirituba, naquela idade certamente não era uma delas. É óbvio que isso fazia parte do “manual” da empresa, o que leva Cavinato a ter certeza que vai falar com uma autômata de carne e osso. Mesmo assim, ele tenta.

– Maria da Graça…é esse o seu nome, né? Maria da Graça.
– É, seu Cavinato.
– Escuta, Maria da Graça, você assistiu Black Swan?
– Como senhor?
– Ah, desculpe, é essa minha mania de ser fiel ao nome original dos filmes. Eu perguntei de você assistiu ao Cisne Negro no cinema.
– Eu vi sim.
– Que bom, Marica da Graça. E você gostou?
– Não estou entendendo, seu Cavinato. O senhor ligou para falar do Cisne Negro ou fazer uma reclamação?
– Pois essa é justamente a minha reclamação, Maria da Graça.
– Não estou entendendo.
– A empresa que a senhora trabalha deixou a senhora ir ao cinema assistir Cisne Negro. Mas a mim não deixou. Não permitiu. Manteve-me em cárcere privado.
– Não entendi, o senhor trabalha aqui também?
– Estou sendo sarcástico, mas parece que não está surtindo efeito, bem como o serviço de reparos de vocês?
– O senhor pode explicar?
– Minha linha está muda e vocês prometeram ir ontem a minha casa, no horário comercial, o que significa até as dezoito horas.
– Entendo.
– Não, a senhora não entende. Porque eu ainda não terminei. Eu passei o domingo dentro de casa e não vieram, Maria da Graça.
– Entendo.
– Pois muito bem, como perdi a tarde toda enfurnado em casa, preso feito um condenado pelo crime de ter um telefone da sua companhia, acabei tendo que ir a sessão de cinema depois das seis. E sabe o que aconteceu?
– Senhor…
– Lotado, Maria da Graça. Todos os cinemas que eu tentei…lotados. Porque domingo a noite, metade da cidade vai ao cinema e a outra metade não consegue porque as sessões estão lotadas.
– Desculpe, mas o senhor tem smartphone?
– E o que tem isso a ver, Maria da Graça?
– É G3?
– Sim, dona Maria da Graça.
– Podia ter comprado o ingresso pela internet para uma sessão da noite e garantido lugar. Não podia?

Aparvalhado pela lógica incontestável da Maria da Graça, Cavinato ficou sem fala. Passou o domingo todo tão obsecado pela certeza de que o técnico não viria e, portanto, excitado pela possibilidade de ligar para o SAC da companhia telefônica – não esqueçamos que esse é o seu vício – que esqueceu de usar a cabeça e garantir o seu ingresso em caso do técnico não vir. Antes de desligar, ainda teve que ouvir a dona Maria da Graça.

– Alô?…Seu Cavinato… Alô?…Xi, ficou mudo igual ao telefone da casa dele.


Leave a comment